quinta-feira, 10 de agosto de 2017

SLEIGTH (2017) ou, o truque metalinguístico do boy magia



Muitas pessoas adoram um easter egg, aquelas mensagens escondidas dentro de filmes que fazem referências a outras obras do mesmo universo ou que remetem a outra produção memorável. Tem gente mesmo que se dedica a procurar essas mensagens secretas e nos premiam com surpresas como a do cartaz de "Batman vs Superman" no filme "Eu sou a lenda" de 2007, ou as diversas referências que evidenciam a união dos filmes de um grande diretor, como no caso que inspirou o curta "Código Tarantino", protagonizado por Selton Melo e Seu Jorge. Já eu, que sou metido a diferentão, me sinto maravilhado quando percebo um filme que usa metalinguagem para questionar a si mesmo e se aprofundar nos dilemas do autor ou no tema que se propõem a abordar. E foi esse maravilhamento, com algo tão sutil, que me prendeu no filme "Sleigth" do diretor Justin Dillard, que estreou em Abril na Gringa e chegou até mim por pura mágica.

O filme conta a história de Bo, um jovem mágico de rua que usa seus talentos com truques para sustentar a irmã caçula após perder seus pais. Sem conseguir dinheiro suficiente de maneira honesta, ele acaba complementando sua renda através do tráfico de drogas, trabalhando para um conhecido nas noites de Los Angeles. No entanto, após conhecer uma garota especial e tentar forçar sua saída do mundo crime adulterando as drogas de seu fornecedor, para assim conseguir mais dinheiro e fugir, Bo é descoberto, tem sua irmã capturada e precisa pagar com juros o prejuízo que que causou a seu empregador ilícito, restando a ele a espera de um milagre financeiro ou a utilização de seus dons para salvar a vida da irmã.

O filme está longe de ser a melhor coisa que o cinema nos proporcionou esse ano, não indo muito além de um drama social com pitadas de ficção cinetífica e um toque de filme de super-herói; seu ritmo é lento e os personagens periféricos são pouco desenvolvidos a ponto de acreditarmos que a única razão da personagem da gatissíma Seychelle Gabriel se apaixonar pelo protagonista seja realmente mágica. Mas, como eu disse acima, o filme me prendeu pela metalinguagem que utiliza para falar de si mesmo desde seus trailers até sua conclusão e isso me entregou satisfação com a produção a ponto de ser relevante para ser resenhada.

O filme todo é uma espiral de metalinguagem, começando por seus trailes. Seus primeiros vídeos promocionais são um embuste, fazendo com que acreditemos que a trama aborda a história de um rapaz que, de alguma maneira, possui super-poderes; o que não é de todo mentira, mas que não ocupa nem quinze minutos da trama e após assistirmos a produção, percebemos que a intenção dos responsáveis era utilizar um truque ("sleigth" em inglês) para que olhassemos para outro lado enquanto tinham a pretenção para falar muito mais das dificuldades de um jovem talentoso em criar a irmã sozinho em meio a um ambiente de violência e descaso social, do que do nascimento de um super-herói.


Já no filme em si, o constante close nas ferramentas do protagonista, onde vemos tanto equipamento para manutenção de eletrônicos como um enorme poster de Houdini, o mítico mágico rei das fugas, fazem referência ao próprio protagonista, ele mesmo procurando uma maneira expetacular de se livrar das correntes que o prendem na situação que se colocou, sendo sua inteligência e talento a chave para isso. Outro fato é que temos alguns diálogos que abordam os talentos especiais do protagonista e sua moral, o que no decorrer da história vão ser mostrados (ou não), como quando conversando com sua namorada, Bo conta que se apaixonou por mágica ao conhecer um ilusionista de rua que atravessava a própria mão com uma faca e que lhe disse que só revelava seus truques a companheiros de profissão, o que ocorreu anos depois quando ele voltou a encontrar o mágico e este lhe disse como fazia, o que é , também, um espelho de como o próprio Bo, consegue fazer; esse diálogo vai fazer ainda mais sentido ao final da história, quando após dizer para , agora sua companheira, que estava trabalhando em um truque novo, vemos apenas a surpresa no olhar dela, ao espiar a oficina do protagonista por uma fresta na porta, como se o segredo não pudesse ser revelado para nós, mero público.

Mas como já comentado, nem todos os truques que dão movimento ao filme funcionam. Se somando ao pouco desenvolvimento dos coadjuvantes e ao ritmo da história que por vezes cai abruptamente, a trama possui alguns arcos que não se concluem e isso interfere direto com o fechamento do próprio protagonista, como no caso de seu relacionamento de fornecedor de drogas e cliente com a personagem de Cameron Esposito, que é a gerente de uma boate. Em determinado momento, Bo sem saber mais o que fazer para conseguir o dinheiro do resgate da irmã, furta uma determinada quantia do cofre da cliente e foge, quebrando um elo de confiança que havia entre os dois personagens desde o início do filme, mas as consequências dessa quebra não são mostradas e ficamos sem saber o que houve com a moça e tão pouco vemos arrependimento ou questionamento por parte do protagonista ao final. Outra situação semelhante é a ocorrida com o antagonista da história, que passa quase toda trama falando em respeito e utilizando de métodos agressivos contra quem ousa desafia-lo (chegando a mandar amputar a mão de um rival) , mas que após o embate final se mostra um covarde e assustadiço bandido de faz de conta, quase não colocando empecilhos na atitude do protagonista para salvar a irmã, fatos que somados ao final da história, onde vemos Bo continuando a fazer mágicas na rua, demonstram que o personagem não teve o crescimento que deveria após tudo que viveu, o que torna toda a jornada vazia.

Entretanto, em meio a muitos furos de roteiro e altos e baixos na trama, me diverti com o truque que o filme faz consigo mesmo buscando nos enganar como se a própria história contada fosse um mágico. Seu tom é bacana, lembrando a estrutura de um pequeno conto, sem pretensão de se estender além do que quer mostrar, o que em épocas de franquias gigantescas e universos que não terminam de se expandir nunca por vezes cai bem. Então se assim como eu, roteiros que se aprofundam dentro de si mesmos te agradam e não ser enganado pelo trailer não te ofende, ALACAZAM, esse é um filme que talvez você goste de assistir.





quinta-feira, 3 de agosto de 2017

CORRENTE DO MAL (2015) ou, Não era amor, era cilada!




Imagina que você está em uma festa e de repente seus olhos cruzam com uma pessoa linda. Ela te encara com interesse e te dá um sorriso, pouco tempo depois vocês estão saindo dali aos beijos e indo para o motel onde passam uma noite maravilhosa, mas ao acordar algo não está certo, você está amarrado em uma cadeira e a pessoa te explica que te passou algo, alguma coisa que nem ela mesmo entende, só sabe que tem que passar para outro para se livrar e lhe aconselha a fazer o mesmo, uma coisa que só quem tem pode ver (e que agora você vê!) e que vai te perseguir até que você repasse para outro, em uma maldição que vai retornando aos demais amaldiçoados assim que o portador atual morrer... Não parece terrível? Pois esse é o plot de "It Folows", ou como ficou nomeado aqui na parte de língua lusitana abaixo do equador "Corrente do Mal", filme de 2014, escrito e dirigido por David Robert Mitchell, que depois de anos de enrolação e cagaço finalmente assisti para minha grata satisfação.

O filme conta a história de Jay, uma garota que após se entregar ao rapaz com quem estava saindo (leia transar), recebe a notícia de que recebeu uma maldição transmitida pelo sexo e tal qual a história descrita acima, vai persegui-la até que ela passe para outra pessoa. Após se ver seguida por bizarros andarilhos que ninguém mais vê, Jay pede a ajuda de sua irmã e seus amigos e parte na busca de respostas, levando consigo uma força maligna em seu encalço e a dúvida de que se deve passar o mal a diante ou quebrar a corrente de alguma outra maneira.

Esse deve ser o filme que mais tempo posterguei para ver em toda minha vida, mas depois de mais de dois anos de cagaço e desculpa esfarrapada, posso dizer que valeu muito a pena ter reservado uma hora e meia da minha vida para assistir o que a trama de David Robert Mitchell tinha de bom a ponto de ser levada para Cannes e ser tão elogiado por tanta gente que o viu.

Para começar, o filme tem toda uma aura de nostalgia, lembrando em muito as produções de terror dos anos oitenta de diretores como Wes Craven, onde um "monstro" persegue um grupo de jovens com o único objetivo de aniquilar seus alvos, o que se soma a questão da maldição ter relação com sexo, remetendo às vítimas de Jason Vorhees de "sexta-feira 13", outro clássico oitentista. Esse clima de filme do passado ainda agrega estranheza ao ambiente por onde a história se desenvolve, pois observando a trama, não conseguimos definir com clareza, por mais que tentemos, em que época que a história se passa. Percebemos TV's de cubo e cinemas com pianistas ao vivo, filmes em preto e branco, mas aparelhos modernos, como celulares e Kindles, o que mais que estranhamento, acaba tornando a história atemporal. No entanto, se excluindo as homenagens e referências ao terror americano, toda a estrutura da história parece ter muito mais influência do cinema oriental com seu estilo investigativo e de tensão crescente, que prioriza mais o suspense e o susto do que as mortes e o gore, tal qual o primeiro filme da série "O chamado" e esse toque de terror oriental tão bem conduzido por Mitchell, foi o que mais gostei na trama.

De vagar e sempre
Assim como nossos amigos do outro lado do mundo, o diretor nos entrega uma história que te prende pelo ar investigativo, onde a protagonista busca entender o que está ocorrendo, e com o estranhamento que a trama vai passando ao nos apresentar o conceito dessa maldição, terminando com a compreensão, também comum nos filmes orientais, de que o mal é algo maior que o indivíduo e que é impossível escapar, sendo o máximo que se pode fazer é seguir suas regras para poder sobreviver. E Sabendo que não há escapatória além de seguir o jogo que a maldição impõem, o filme ganha uma nova camada ao se pensar nos acontecimentos que a trama deixa subintendido, como quando a protagonista foge para a praia ou quando ela resolve assumir um relacionamento firme.


Sobre a Fuga de Jay (a segunda ou terceira) que ocorre no segundo ato da história, ela sofre um acidente e, para deixa-la mais tranquila, seu vizinho pegador resolve fazer o sacrifício de fazer sexo com ela para que a maldição (que ele não acreditava ser real) passasse para ele e assim resolver o problema, o que dá muito errado (leia-se: se ferrou!), então em desespero, por ter presenciado algo tão chocante, Jay foge para a praia, onde a vemos se despindo e entrando na água após avistar bem a sua frente, três homens sozinhos em uma lancha; o que acontece não é mostrado, mas ela volta para casa com os cabelos molhados e passa dias trancada em depressão sem se sentir segura, até ser convencida pelos amigos a tentar "Matar" seu perseguidor e acaba se deparando com a criatura literalmente em cima de sua casa, ficando claro naquele momento que três elos da corrente foram quebrados, ficando a curiosidade de como tudo ocorreu com os azarados amigos da praia que pensaram ter tirado a sorte grande.

Outra situação parecida com a citada acima é quando Jay, já no final do filme, assume um namoro com um de seus amigos de infância (que faz parte do grupo que a ajuda) e este, já sabendo dos problemas que se envolver com a moça pode trazer, tem uma ideia terrível, mas engenhosa, que embora não comentada aparece em execução, que é Transar com prostitutas depois de levar a namorada para cama e assim empurrar a maldição para a maior distância possível, o que parece dar certo. No entanto, como uma boa história com influência do terror oriental, as pessoas que viram o outro lado não são mais as mesmas e a sensação de estranhamento não se dissipa mais, terminando o filme com o clima perpétuo de perseguição por parte de uma maldição, lenta mas focada e que a qualquer hora vai alcançar suas vítimas.

Gostei muito do filme. Ele não tem nada de especial além de boas referências, uma boa história para contar e um bom roteiro e direção ( o que já é mais que 90% dos filmes tem). Não há grandes efeitos especiais ou cenas de mortes arrepiantes, mas trabalha com qualidade na tensão e clima de suspense, te prendendo na cadeira na procura de respostas junto com os personagens e as situações que ficam subintendidas (que vão além das duas citadas acima) fazem com que a história fique viva na sua cabeça e imaginando o que mais pode ter acontecido e o acontecerá quando a criatura retornar até a protagonista e isso dá ainda mais credito ao roteiro de David Robert Mitchell.


Então se quiser curtir uma história tensa, cheia de mistério, bons sustos e com forte influência do cinema dos anos oitenta e oriental, assista "Corrente do Mal", mas acima de tudo lembre-se que, se em uma noite de festa, ou em um passeio qualquer, seu olhar cruzar com alguém desconhecido, que te oferecer um sorriso interessado e te arrastar pela mão até um lugar tranquilo, procure antes saber mais sobre a história dessa pessoa, pois nunca se sabe o que pode vir atrás de você depois.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

POWER RANGERS (2017) e que venha o meteoro !



"O bater de asas de uma borboleta pode influenciar o curso natural das coisas e criar um tufão do outro lado do mundo." Essa frase, que tenta definir o "efeito borboleta", parte integrante da teoria do Caos, foi utilizada de maneira conceitual inúmeras vezes na cultura pop para dar movimento à histórias onde um acontecimento pequeno estimula uma série de eventos que culminam, geralmente, em uma grande catástrofe. No entanto, jamais uma produção havia sido resultado desse efeito até Março desse ano, quando, com a influência de um curta que dava ares sombrios a uma franquia televisiva voltada para crianças, a Lions Gate trazia para o cinema "POWER RAGERS", o reeboot cinematográfico da aclamada série dos anos noventa que apresentou para uma geração a cara americanizada do universo dos super sentais japoneses.

"Power Rangers" reconta o início da história de cinco adolescentes (Jason, Billy, Zack, Trini e Kimberly) que encontram as moedas do poder e com a orientação do extraterrestre Zordon, se tornam os defensores da terra contra os malignos planos de dominação de Rita Repulsa.

OK, eu sei que a primeira coisa que passou pela sua cabeça é: "Por que esse tiozão está falando de Power Rangers?" E essa é uma pergunta muito justa, ao se imaginar que o público alvo da produção, não diferente da antiga série, são as crianças e pré adolescentes. No entanto, a curiosidade para saber como esse filme, que brotou da ideia de um curta feito para a internet e que incluía mortes e traições ao colorido cotidiano da molecada residente da Alameda dos Anjos, seria executado foi o que me fez gastar duas hora da minha vida e que me fez escrever esse texto.

Para começar, vamos falar das coisas boas que o filme referencia, iniciando pelo clássico do diretor John Hughes, o "Club dos Cinco". Assistindo os primeiros vinte minutos não podemos ignorar a influência do filme de 1985, que mostra a amizade de cinco jovens problemáticos (também três rapazes e duas moças) que surge após o encontro na detenção da escola e esse artifício é bem utilizado para explicar como pessoas tão diferentes acabam mais do que se conhecendo, como dando oportunidade de quem anteriormente ignoravam entrarem em suas vidas, com destaque para o companheirismo que surge entre Jason e Billy. O personagem do Power Ranger vermelho mesmo, vive uma cena que é praticamente um control C Control V do filme de Hughes, quando tem um diálogo com o pai no estacionamento da escola onde fica claro seu conflito pessoal; Soma-se a isso, que ele , tal qual o personagem de Emilio Steves em "Club dos cinco" também é um esportista frustrado e que se sente oprimido pela expectativa da família.
Outra referência que o filme me trouxe foi o filme "Poder sem limites" do diretor Josh Trank, onde amigos entram em contato com uma descoberta misteriosa e desenvolvem poderes telecinéticos em uma trama que acaba revelando quem realmente é quem, o que me parece claro ao mostrar que a vilã do filme foi uma ex-integrante dos Power Rangers corrompida pelo poder que vislumbrou. Isso ainda se soma ao já mencionado curta, que é referenciado no prólogo da história, que se passa na era dos dinossauros e onde vemos as consequências da batalha da antiga equipe comandada por Zordon e a destruição causada por Rita.

Uma turminha do barulho
No entanto, todas essas coisas boas e referências estão reunidas na primeira meia hora de filme e quase desaparecem da mente do espectador a partir do momento em que o grupo se encontra na pedreira, onde descobre as "moedas do poder" e começam sua jornada para transformarem-se nos defensores da vida na terra. Depois desse evento, o filme muda de tom e começa a se aproximar da ideia da série original, proporcionando cenas e diálogos capazes de constranger até mesmo o público alvo da produção televisiva clássica. Começando pela grande barriga do filme, que é a dificuldade dos protagonistas "morfarem" e que se estende por mais de vinte minutos da trama em um lenga lenga que não agrega nada a história; essa dificuldade se revela ainda o ponto mais decepcionante de todo o filme, pois só vemos os personagens vestidos de power rangers quando faltam apenas vinte e seis minutos para a história se encerrar, ou seja, em setenta e cinco por cento de filme não temos a presença dos personagens que dão nome ao filme.

A decisão de apresentar a trama com a mínima presença dos super-heróis, remete a uma história de origem que foca mais na pessoa do que em seu alter ego, seguindo a fórmula de sucesso do primeiro filme do Homem-Aranha, de 2002; mas nem mesmo isso é aprofundado, pois temos apenas menções aos problemas dos protagonistas, que se apresentam na forma das constantes brigas de Jason com o pai, que não são explicadas, pois apenas somos informados que ele era o capitão do time de futebol americano da escola e que machucou a perna em algum acidente (que não é mencionado) e se transformou em um frustrado rebelde mimado, ou o fato de Billy estar no espectro autista e ter perdido o pai recentemente, também ao fato de Zack ser um ferrado que mora em um acampamento de trailers e cuidar da mãe doente, ou de Trini não conversar com os pais porque (aparentemente pelo diálogo que "os cinco malandros tem em volta do fogueira") ela é lésbica. No entanto, nenhum arco fez menos sentido para a história do que o de Kimberly, a ranger rosa.



Kimberly, foi mandada para a detenção por um fato terrível e que se revela como o principal motivo dela não conseguir morfar (sempre isso!), ela roubou um nude de uma amiga, que havia ficado com seu ex-namorado e enviou ao mesmo questionando se era aquele tipo de garota que ele queria apresentar para seus pais! A foto se espalhou pela escola (pelo menos parece ter sido isso) e ela acabou na detenção, sem contar que antes disso ela ainda bateu no EX... Esse problema poderia ser melhor resolvido, se a personagem, durante a história e pelo seu passado, se sentisse tentada a se debandar para o lado da vilã e assim conseguisse se redimir se sacrificando ao final ou dando um exemplo de redenção, mas não, quem a vilã tenta persuadir é a ranger amarela (porque é gay!), enquanto isso, ainda vemos o líder da equipe (Jason) dizer a nefasta postadora de nudes alheios que muita coisa circula pela internet e para ela não ficar preocupada, COMO ASSIM?? ISSO É CRIME CARA!! o arco ainda se encerra de maneira ridícula, quando a ranger rosa, de posse de seu Zord voador, derruba uma estátua sobre o carro da ex amiga e solta a frase "você mereceu!", essa é a mente dos defensores da vida na terra! Nesse momento do filme eu quis que o Alfa  mandasse outro meteoro!

Não consigo sentir repulsa por essa vilã
E o que falar da vilã e suas motivações? A introdução da personagem, mostrando que ela era a antiga ranger verde e que se corrompeu é muito bacana, mas nada explica suas motivações e durante o filme só sabemos que ela quer conquistar o universo com o poder do cristal Zeo, mas e onde veio o poder para que ela matasse seus antigos companheiros? Quem deu aquele cetro pra ela? e por que diabos ela como ouro? Disso não somos informados. Eu mesmo queria saber quem foi o esperto que deu um amoeda do poder para alguém chamada Rita Repulsa, tenho minha desconfiança que foram os guardiões de OA, os mesmos que criaram os lanternas verdes (por isso a cor da personagem) , pois se eles deram um anel para um cara chamado Sinestro, porque não para uma Rita Repulsa?! Se bobear o próximo vilão talvez se chame Filho da Póta, para facilitar a identificação do possível traidor! Mas pior que essa brincadeira com os nomes é a atuação de Elizabeth Banks como a vilã, é um show de gritaria e caretas que somadas as fracas motivações do personagem não parecem causar uma ameaça real aos protagonistas, nem mesmo quando ela "mata" um deles, fatos que se equiparam em desastre apenas ao design e efeitos especiais dos Zords e Megazord, que não justificam o orçamento de cem milhões de Doletas para a produção desse filme.

Aproveitando a citação do Megazord, a cena de batalha do robô gigante, que é um clássico dentre as séries super sentai, serve para comprovar a inversão de valores que o filme vem trazendo durante suas duas horas. Depois de a Ranger Rosa mandar o nude da colega, do amigo de Jason drogar um touro, de Billy fazer bulling reverso com o valentão da escola e Trini deixar sua mãe falando sozinha; nossos heróis saem da pedreira, que estava sendo invadida por uma legião de monstros de massa e vão para o meio da cidade na procura da vilã, causando destruição por todo lado, no pior estilo "homem de Aço"! (não seria mais correto levar os monstros justamente para pedreira?) onde as consequências da batalha não são mostradas (eram dois robôs gigantes lutando no centro da cidade, lógico que morreu gente) e ao final, ficamos apenas com o ponto de vista dos protagonistas, olhando de cima a população que os aplaude, mesmo depois que sua pequena cidade foi reduzida a escombros.

Bryan Cranston feito de cristais azuis. Ironia?
Pois bem, sei que fui muito duro com um filme baseado em uma série para criança de até dez anos, mas quem se propõem a dar ares sombrios e problemas pessoais mais sérios a uma trama, tem que conseguir que essa ideia se mantenha linear durante o filme todo e não vá deixando de ser importante como decorrer da história, assim como o farol moral que deveria partir dos protagonistas fique claro e não escondido em meio a desculpas de que "todo mundo posta fotos nua na internet". Espero que a possível sequência, que fica em aberto com o gancho que temos na cena pós-créditos, onde mais uma vez homenageando John Hughes, dessa vez com uma sequência que lembra "Vivendo a vida adoidado", temos um professor entediado fazendo a chamada e perguntando por Tommy Oliver ( O ranger verde da série clássica).

Então é isso! Baseado na aclamada série dos anos noventa, "Power Rangers" deu seu passo inicial, mesmo que tropego, para a crianção de uma franquia cinematográfica, se revelando ao final como um tufão com grandes problemas de design, motivação e coerência de duas horas, iniciado pelo pequeno bater de asas de um curta de 14 min e que para mim, pelo menos, foi um desastre.


Alpha, pode mandar o meteoro!!


                                              O famoso CURTA

segunda-feira, 24 de julho de 2017

KONG -A ilha da Caveira (2017) ou fuzilando um clássico em uma ilha sinistra



"O Loki, o Nick Fury e a Capitã Marvel entram em um navio junto com o Fred Flintstone para viajar para uma ilha onde mora um gorila Gigante...". Poderia ser o início de uma piada ruim, mas é a base do filme "KONG – A ilha da Caveira", escrito por Dan Gilroy, Derek Conoly e Max Borenstein; responsáveis, respectivamente por obras da magnitude de "Gigantes de Aço (2011)", "Monster Trucks (2016)" e "Godzilla (2014)", que insatisfeitos com suas colaborações solo, uniram forças para tentar levar a óbito uma franquia nascida em 1933.

O ano é 1973 e as forças armadas americanas estão começando a se retirar do Vietnam, em meio ao tumulto, Bill Randa (John Goodman), responsável pela organização Monarch, após prometer a aquisição de riquezas minerais que podem cair em mãos russas, recebe recursos do governo dos EUA para se dirigir a uma misteriosa ilha no pacifico. Temendo por sua segurança e dos cientista sob sua responsabilidade, Randa também solicita escolta militar e recebe proteção da equipe comandada pelo Coronel Packard (Jackson), que os leva até a ilha juntamente com a fotógrafa Manson Weaver (Brie Larson) e o especialista em sobrevivência James Conrad (Tom Hiddleston). No entanto, o verdadeiro interesse de Randa nada tem a ver com dinheiro, mas em mostrar ao mundo que monstros existem e que nós, humanos, somos apenas convidados ignorados em um mundo mais feroz que imaginamos e isso se revela quando o grupo pisa na nada amistosa ilha da caveira, o lugar de fotografia mais bela do mundo, mas que rivaliza em roteiro mais Trash com o King Kong do Peter Jackson.


O filme é bem Ruinzinho! Não chega a ser um Transformers ou algo do gênero, mas se esforça bastante. Para se ter uma ideia, a produção conta com duas cenas Gigantescas de ação, a primeira quando o grupo de cientistas chega na ilha e se depara com o King Kong e a segunda no desfecho do filme, que duram mais de vinte minutos cada, em uma história de duas horas;ou seja, são intermináveis 33% do filme resumidos a explosões, gritos e mortes, algo que certamente deixou Michael Bay orgulhoso, mas que tira do espectador a capacidade de se importar com os personagens da trama, que diga-se de passagem são muitos e muito mal aproveitados.

Somando-se as intermináveis cenas de ação, que transparecem uma necessidade de manter a história sempre em um nível de adrenalina e tensão máximo, o roteiro ainda deixa a sensação de que tudo que acontece poderia ser resolvido sentando, conversando e buscando informações de forma racional sem arriscar a vida das pessoas envolvidas. Vemos isso quando analisamos as decisões da equipe, que resolve atravessar uma tempestade para chegar a uma ilha desconhecida e cria pontos de encontro sem nem mesmo fazer um reconhecimento do terreno , o que era fácil, pois estavam de helicópteros!!! Essa dificuldade de raciocínio só se mostra maior, quando, ao serem atacados por um Gorila do tamanho de um prédio, resolvem revidar, ao invés de reagrupar e se retirar de um local pouco convencional, por assim dizer, em uma sequência de erros que nos faz entender porque os EUA perderam a guerra do Vietnã para meia dúzia de fazendeiros.

Além disso, o filme ainda sinaliza que toda pessoa com poder sobre uma organização é um sociopata irresponsável em potencial. Tanto Randa, que é vivido por John Goodman, quanto Packard, interpretado por Samuel L. Jackson, são dois malucos sem precedentes que qualquer pessoal com mais de dois neurônios não seguiria após cinco minutos de conversa, com a vantagem de que o personagem de Jackson, tem a desculpa de ser um militar que vê na guerra seu único motivo de estar vivo, enquanto o de Randa, que confessa ser o único sobrevivente de um navio atacado por um monstro quando jovem, um idiota que quer apenas provar ao mundo que não era maluco e que para tanto se mostra um maluco.

Quem tem a melhor levantada de sobrancelha?
O filme ainda conta com o maior desperdício de talento da história do cinema, colocando atores do nível de Tom Hiddleston e Brie Larson, sem contar com Toby Kebbell e os já comentados Goodman e Jackson, para interpretarem personagens unidimensionais e esquecíveis. Toby Kebbell, que protagonizou meu episódio favorito de "Black Mirror", segue seu vacilante destino após o tenebroso Quarteto Fantástico (2015) fazendo o papel de um piloto que acreditamos ter relevância até o momento que um lagarto gigante vomita seu esqueleto (sim é isso!), já Hiddleston e Larson, fazem o papel dos piores profissionais em suas áreas, ele o de um rastreador e especialista em sobrevivência, que não consegue salvar quase ninguém que está sob sua proteção e ela uma fotógrafa premiada que vai em uma ilha selvagem, cheia de monstros, encontra caveiras gigantes, dinossauros, entre outros animais misteriosos e se preocupa mais em tirar foto da tripulação do navio, sem contar que está sempre com uma cara de pasma e com a sobrancelha levantada no pior estilo Sandra Helena da novela "Pega-Pega".

Mas não se desespere ó leitor, o filme tem coisas boas, como a trilha sonora e a fotografia. A trilha sonora, como um filme que se passa nos anos setenta é recheada de rock clássico contendo "Paranoid" do Black Sabbath, "Bad moon Rise" do Creedence e até "Brother" do nosso grande Jorge Ben, em momentos bem oportunos do filme e que dão sentido as cenas que estão acontecendo ou situações que estão por vir, o que é complementado pela fotografia maravilhosa e palhetas de cores quentes que dão o ar tropical e fantástico da produção, mas que, infelizmente é um tanto comprometida pelo vício do diretor em repetir a exaustão em mostrar o pôr do sol na terrível ilha ( que faz parecer que a equipe passou meses no lugar ao invés de três dias) e o recorrente uso do recurso da Câmera lenta, proporcionando até cenas de humor, onde se esperava tensão, com destaque para o close em Jackson encarando o Kong e os soldados passando correndo pegando fogo e o personagem de Hiddleston cortando os mini pterodáctilos com uma espada.

Por do sol


Mas se você passou a semana toda forçando seu cérebro no serviço e quer só deitar no sofá e assistir monstros gigantes se digladiando, explosões arrasadoras, muitas mortes e uma fotografia linda com uma trilha sonora de respeito, nada tema, clique no play e se delicie com essa produção de cento e oitenta e cinco milhões de Dólares e dois salgados e um refri de roteiro e fique tranquilo, apesar de não honrar o nome de uma franquia de mais de oitenta anos, a produção não consegue ser pior (ou mais chato) que o tenebroso filme de Peter Jackson de 2005.

Pra fechar, achei bacana a decisão do roteiro em deixar Kong na ilha ao invés de leva-lo acorrentado para os EUA, até porque Kong estava na ilha desde antes da segunda guerra e Macaco velho não bota a mão em cumbuca (Pá-bum-tss), mas me entristeceu saber que esse filme terá uma sequência em 2019, onde o rei dos Kong enfrentará ninguém mais, ninguém menos que Godzilla e que eu terei de ir ao cinema pois meu filho é o fã mirim numero um do monstro japonês....pois que comece a preparação para o roteiro de Dan Gilroy, Derek Conoly e Max Borenstein e que Deus nos ajude!



terça-feira, 18 de julho de 2017

FARGO - A série (3° temporada)


Esse post é baseado em uma história real.
Os eventos ocorreram em 2010 em Minnesota.
A pedido dos sobreviventes os nomes foram alterados.

Por respeito aos mortos o restante foi retratado exatamente como ocorreu.




Como já disse em posts anteriores, estou saturado de filmes de Super-heróis. Tanto, que mesmo o novo filme do Homem-aranha, que estava aguardando para ver se a Marvel dava um novo frescor à franquia, após os dois meia-bocas "espetacular Homem-aranha", não consegui disposição para ir assistir. Porém, nenhuma frase define melhor a série da qual vou falar hoje, do que a proferida em um filme de Super-herói (ou anti-herói), no caso "Deadpool" de 2016, onde o protagonista, entre uma piada e um tiro, fala que: "A vida é um eterno descarrilhamento intercalada por alguns momentos felizes."

Parece brega (e é!) mas é impossível não pensar nessa frase, ao assistir à nova temporada da brilhante série "FARGO" adaptada para TV e escrita por Noah Hawley, baseada no filme homônimo dos irmão Coen e que depois de mais de um ano e meio de hiato voltou com tudo em uma terceira temporada que entrega um mundo cheio de caos brindado com pequenos momentos de alívio em uma produção que, longe do subtítulo brasileiro para o filme original, onde se lia "uma comédia de erros", se sobre sai com a qualidade de um drama de acertos.

Emmit & Ray
Nessa temporada (que dizem ser a última) voltamos para o gelado extremo norte americano, onde somos apresentados aos irmãos Emmit e Ray Stussy (ambos vividos por Ewan Mcgregor), o primeiro um rico empresário do ramo dos estacionamentos e o segundo, mais novo, um fracassado agente da condicional. Os irmãos Stussy possuem uma rixa devido a uma coleção de selos vintage, os quais seu pai deixou de herança para ambos, mas que o mais novo abriu mão em troca do carro do mais velho, que assim fundamentou sua fortuna em cima de um golpe. Esse amargor de ser enganado jamais abandonou a alma de Ray, assim como a ganância de Emmit nunca foi totalmente saciada, então, anos depois e após de receber um não, ao pedir o último selo para si, no dia de aniversário de 25 anos de casamento do primogênito dos Stussy, e sair da mansão de seu irmão, juntamente com sua namorada Nikki (Mary Elizabeth Winstead) humilhado, Ray resolve contratar um de seus clientes para roubar seu proprio irmão e pegar o que é seu por direito. No mesmo dia, Emmit recebe a visita do misterioso V.M Varga (David Thewlis), "representante" da empresa que lhe tinha emprestado dinheiro um ano antes para expansão, sem pedir nenhuma garantia e esse se revela um investidor, não tão ortodoxo, por assim dizer. A partir desse dia, uma onda de violência começará a dar tons de vermelho à branca neve de minnesota, forçando a chefe de polícia local, Glória Burgle (Carrie Coon) a sair de sua zona de conforto de policial do interior e encarar todo mal e destruição que a ganância e o egoísmo podem causar por onde passam.

Cara! Que temporada fantástica!! Noah Hawley se superou de novo trazendo para TV toda acescência dos filmes dos irmãos Coen, com sua violência, humor, solidão e impotência diante de um mundo abarrotado de burocracia e decisões idiotas; tudo maravilhosamente bem aprofundado com o auxilio de personagens carismáticos, uma trama inteligente que vai ganhando velocidade e força a cada episódio e atuações perfeitas da parte de um elenco de primeira linha.

Chefe Glória Burgle & Nikki Swango
No que toca a trama, a série não foge do espirito do longa lançado em 1996, mostrando a decisão de uma policial do interior, nessa temporada interpretada por Carrie Coon, em solucionar um assassinato que serve como ponto de partida para uma série de crimes de proporções e alcance cada vez maiores do que a visão de mundo onde ela habita e que revelam agora, muito além da força de um submundo sempre presente e, nessa temporada extremamente voraz, também os métodos escusos utilizados para o acumulo de riqueza e poder, assim como toda impotência causada pela burocracia do cotidiano e preguiça de quem só quer receber seu salário e ir para casa sem se incomodar com seu dever. Somando-se a isso a série ainda nos mostra o dano que a necessidade de se impor pode causar em todas as relações, em especial na protagonizada pelos irmãos Stussy, que é o mote para tudo de errado que vai acontecendo durante a temporada em uma sequência de erros de atitudes e comunicação que fazem o espectador ir da esperança a aflição de uma cena para outra.




Essa sequência de erros é muito bem orquestrada por Hawley e interpretada de maneira primorosa por Ewan Mcgregor, que faz os irmãos em conflito. McGregor está fantástico, dando nuances de personalidades distintas e completamente equivocadas em suas maneiras de agir, conseguindo nos convencer tranquilamente de que se tratam de pessoas totalmente diferentes embora a aparência; fato que se confirma quando o irmão mais novo se passa pelo outro e imita seus trejeitos e confiança para aplicar um golpe. Outra atuação que chama a atenção é a de Carrie Coon, que vive a policial Glória Burgle e que representa além da justiça em atuação, também a dificuldade de cumprir seu dever meio a um mundo de pessoas que não se importam ou buscam o caminho mais curto, sua história é sofrida e suas cenas tensas, tanto devido a indiferença ou desprezo que ela sofre no pequeno mundo onde vive, pois perdeu seu marido para um homem, cria um filho sozinha e está sendo destituída do cargo de chefe de polícia, como pelo fato de ter que investigar sem nenhum crédito uma série de crimes que apenas sua dedução dos fatos mostra como interligados e que vão se revelando maiores que ela imagina; Glória é tão apequenada frente ao mundo onde vive, que nem mesmo os equipamentos eletrônico parecem notar sua presença e suas sequências lutando para ser reconhecida por um aporta automática ou equipamentos sensíveis a presença dão o alivio cômico na medida certa a um personagem que tem o mundo em suas costas. Mas o personagem que rouba a cena, para mim, é o interpretado por Mary Elizabeth Winstead, que é a namorada de Ray Stussy, Nikki Swango, uma vigarista fã de carteado e que ao logo da temporada se revela muito mais do que um rostinho bonito, como uma estrategista digna de ocupar o trono do grande chefão e que proporciona cenas de ação fantásticas ao lado de um personagem resgatado da primeira temporada em três episódios que deixam muitos filmes desses últimos anos no chinelo.


V.M Varga (ao centro) e seus capangas
Quanto a história, de início achei repetitiva, pois ignorei o fato dela se fundamentar na mitologia da série, que tende a ser ciclica e a comparei com sua primeira temporada, mas no decorrer dos episódios, após conhecer melhor os personagens, a trama e ficar embasbacado pelo roteiro, me apaixonei. Hawley, sem querer ser pretensioso, entrega um retrato sangrento de nosso mundo, com aquele toque de ironia típica dos filmes dos Coen, onde os alvos, além do descrédito de algumas pessoas, a arrogância de outras e a estupidez de muitos, agora são a crença na falácia da liderança e a burocracia que engessa o movimento natural do mundo. Isso fica claro com os diálogos que se repetem durante a temporada onde as pessoas mais dependentes teimam em definir seus chefes ou entes queridos como líderes naturais, quando falando sobre estes para outras pessoas e quando vemos esses "líderes naturais" tomando decisões, o resultado é sempre uma semente para um problema maior; da mesma maneira a burocracia (a qual já me referi dezenas de vezes acima) aparece tanto como arma e esconderijo dos vilões, que transitam em meio a corrupção por brechas do sistema, tão bem estudadas que os tornam invisíveis, como empecilho para a investigação seguir em frente e ao final armadilha para resolver o caso e refletindo a pequenez de todos frente as regras do mundo.

Pois bem! "FARGO" voltou com tudo ! É uma pena que não passe em nossas terras tupiniquins, não sei se pelo fato de suas locações geladas não refletirem o nosso espirito tropical e alguém no FX ache que não vale a pena a transmissão por aqui, ou se não querem que todas as coisas de qualidade sejam vistas na parte de baixo do Equador, o que sei é que essa é uma produção que vale a pena ser procurada e assistida; uma obra fantástica, de roteiro impecável, atuações brilhantes e sequências de cair o queixo, a terceira temporada de "FARGO" consolida a produção como a melhor série dramática de TV da atualidade. Fica apenas o apelo para que Noah Hawley descanse um pouco e pense bem antes de dar um fim definitivo nesse maravilhoso descarrilhamento com espetaculares momentos felizes, sangue e humor no extremo norte americano.


                                  O trailer não faz justiça, mas é o que tem


terça-feira, 11 de julho de 2017

TRIPLO X - REATIVADO (2017) um desabafo



Quinze anos atrás, os X-games se popularizavam, a Mtv ainda ditava regras para a molecada e as tatuagens começava a se tornar parte do estilo das pessoas; nessa época, o som do momento era o Hip-hop e seu maior expoente era o Eminem, o sonho de consumo da gurizada era um playstation 2 e a Sheila Mello saiu nua na edição da Playboy de Janeiro e a Kelly Key na de Dezembro e, no cinema, eram os confusos tempos pós Matrix, onde cada diretor, produtor e roteirista sonhava em acertar no alvo da mesma maneira que os irmãos Wachowski.

Foi do meio desse caos que surgiu um filme que (pelo ponto de vista do estúdio) buscava misturar tudo que alegrava a gurizada, sejam tatuagens, música, esportes radicais, vídeo game, mulheres gostosas, muita ação e a mínima necessidade de pensar. Tudo isso protagonizado por um ator da nova geração, mas com todo aquele jeito de personagem dos anos oitenta. Assim, estreava em Setembro de 2002 "XXX" (triplo xis para os chegados), estrelado por Vin Diesel e Samuel L. Jackson. Um filme de espionagem, que trazia os resquícios de confronto da guerra fria e pretendia ser empolgante, estiloso e modernoso.

No entanto, uma década e meia depois, em dias de sequências, reboots e remakes, eis que do limbo das franquias surge, pelas mãos do diretor D.J Caruso e contando com a volta de Vin diesel, "XXX: Reativado" matando nossa curiosidade sobre, o que diabos aconteceu com o mítico Xander Cage e nos apresentando sua turminha do barulho e mais do obscuro mundo da espionagem "moderna".

Pois bem, em "XXX: Reativado" descobrimos que Xander Cage não foi à óbito como se soube em "XXX 2: estado de emergência" (esqueci que existia esse filme com o Ice Cube) e após um grupo terrorista roubar um item tecnológico apelidado de "Caixa de pandora", que tem a sutil capacidade de derrubar satélites que estão em órbita como se fossem mísseis em lugares onde o portador do item quer, e um desses satélites, supostamente, matar seu amigo e mentor Augustus Gibbons (Samuel L. Jackson), Xander volta a ativa para dar cabo do grupo de vilões e vingar a morte do amigo.


Então tá! O que esperar de um filme lançado nos dias de hoje, mas que é uma sequência de uma produção do inicio do século, que tem inspiração em elementos da guerra fria e exportes radicais, com um gostinho de filme dos anos oitenta e com todos exageros e cores do anos noventa? Pois é!! Garimpei de um lado, cavei do outro e para não dizer que não achei nada, digo que os momentos onde o filme soa como uma comédia (comédia involuntária, mas mesmo assim uma comédia), caso se consiga segurar o constrangimento e continuar encarando a tela da TV, são muito engraçados.


Começando pelo prólogo, onde vemos o personagem de Samuel L. Jackson recrutando mais um gênio para o projeto triplo X e o recruta é ninguém mais ninguém menos que o camisa dez da seleção brasileira de Futebol, Neymar Jr. A cena ganha ares de comédia, não só pelas caras e bocas que o jogador apresenta ao tentar parecer mais sério do que o normal, mas pela apresentação dos personagens e desfecho que a mesma tem.
Sobre a apresentação dos personagens, esse filme copia a horrível apresentação que se vê em "esquadrão suicida", que lista na tela, tudo que o personagem é, suas característica e pretensões, tal qual uma lista de vídeo game e , quando aparece o Neymar, diz que ele "achava que seria recrutado para os vingadores" ( Samuel L. Jackson entende?!) Pra quê? Para nosso capitão, camisa 10 e pegador de atrizes dizer,em tom humilde, que não é herói?! fato que se mostra falso, quando logo a seguir, quando o lugar onde ele estava almoçando com seu recrutador é assaltado, Ney jr nocautear o assaltante chutando um porta guardanapos na cabeça do meliante, o que é seguido por um grito de "Goooolll" da parte de Auguste Gibbons, que deveria ter morrido ali, naquela hora, antes de abrir a boca.

A cena que se segue é uma afronta a todo brasileiro. Segundos depois de vermos Neymar salvar a vida de Gibbons, concontramos Xander Cage pela primeira vez. Ele está escalando uma antena de TV no meio de uma floresta na república Dominicana e salta da antena em direção a floresta tendo apenas suas bermudas, regata, mochila e SKIS em seus pés... Isso mesmo, o desgraçado desce uma montanha na mata de ski, depois pega um skate e corre até chegar em uma área cercada por homens de metralhadora, que parecem ser milicianos ou traficantes e instalar o equipamento da antena em uma TV para que todos possam assistir satisfeitos... BRASIL (1) X ALEMANHA (7) !!! Maldito Xander Cage!!!


Se alguém se mexer eu toco Calipso !
Na sequência, após salvar o dia, pegar uma gostosa e tomar uma cerveja, nosso herói vai para a praça, onde sofre o mesmo teste que no filme de 2002 e descobre que seu recrutador preferido está morto. De posse dessa informação e sem querer o apoio das forças especiais americanas, Xander resolve convocar seu próprio grupo de "elite". São eles: Adele Wolf, uma sniper tão sorridente e tatuada quanto nosso protagonista e que passa mais tempo pedindo para dar um tiro, do que atirando em alguém; Tennyson Torch, um motorista de fuga e dublê que quer bater o recorde de acidentes (e que é o ponto alto da equipe, pois se trata do ator que faz o Cão de caça em GoT e que está muito engraçado) e o jovem "Nicks", que como arma em seu currículo está o fato que já pegou a Lady gaga e tem o dom de transformar qualquer festinha de garagem em uma Rave.. talentos esolhidos a dedo para enfrentar um grupo composto por Donnie Yen (mestre de Kung Fu) ,Tony Jaa (mestre de Muay Thay), Michael Bisping (mestre de MMA) e Deepika Padukone (mestra em ser gata). Seria esse grupo de Xander um grupo de "contra-inteligência"? Só pode ser!

Depois de reunir essa turminha muito louca, xander parte para Londres, para pedir ajuda para o melhor racker do mundo para rastrear o grupo do mal. E como não poderia ser diferente, em um filme de espionagem, o especialista é UMA especialista e "força" nosso herói a satisfazer meia dúzia de ajudantes sedentas de sexo, para poder lhe entregar a informação, o que não faz sentido nenhum, pois depois descobrimos que nenhum desses terroristas manja nada de computação e que poderiam ser facilmente rastreados pela equipe de apoio do governo, transformando toda cena em apenas uma desculpa para mostrar o quanto o protagonista é Bonzão com as mulheres, algo que convence tão pouco, como a pretensão de transformar o insipido Vin diesel em alguém carismático e legal, o fazendo sorrir o tempo todo. Duas péssimas escolhas de roteiro, que só o ator acreditou, tentando colocar em prática ao forçar uma paquera com uma repórter brasileira.


O mar é o mais carismático nessa foto
Papo vai, papo vem, alguns beijos e muito tiro, porrada e bomba depois, descobrimos que os terroristas, na verdade são agentes recrutados para o projeto XXX e que o vilão é um político americano querendo resolver as coisas pelo medo (como poucos!) o cara é eliminado e DO NADA, a responsável pela caçada aos terroristas se mostra uma vilã maligna do mal!! Não sei se dormi minutos antes, mas realmente não entendi porque ela se tornou maléfica... e nem por que toda a equipe do governo fez o mesmo, chegando ao ponto de o avião que levava nossos heróis ao redor do mundo quase cair e os soldados continuarem tentando matar o fantástico Xander Cage, sem medo de partirem para a terra dos pés juntos.


Depois disso, Ratátátá, bum, pow, soc, iiiáaáá.....!! e a ação acaba e sem nenhuma atuação digna, colocando em posição de constrangimento atores de ação do cinema asiático no naipe de Tony Jaa e Donnie Yen e reafirmando a breguisse da franquia. Vemos as duas equipes, que outrora eram rivais e inimigas, agora reunidas como uma família, tendo o majestoso Xander, como seu líder , restando no coração de quem sobreviveu as quase duas horas de cenas aleatórias sem roteiro, o desejo verdadeiro de que as próximas missões de Xander Cage sejam tão secretas, mas tão secretas, que não sejam mais filmadas.

Depois de tudo ainda descobrimos que o personagem do Samuel L. Jackson não morreu, foi tudo parte de um plano para trazer os traidores à luz e reativar Xander Cage, tudo isso em um diálogo que faz tantas menções ao Nick Fury e aos vingadores (com Samy Jackson trajando um sobre tudo de couro, se fingindo de morto, de cabeça raspada e até um óculos com um tapa olho) que só faltou o Vin Diesel gritar "EU SOU GROOT"!! Tenho certeza que a Marvel só não deve ter processado essa produção para não ter seu nome ligado a algo tão horrível.


E assim desperdicei duas horas da minha vida, que senti ainda mais falta, ao assistir "zootopia" logo em seguida e me deparar com um roteiro infinitamente melhor construído, personagens mais profundos e carismáticos, referências bem colocadas e inteligentes, assim como trama envolvente...tudo isso em um filme que deveria ser para crianças... mas isso é outra (e melhor) história, sem tatuagens, sorrisos forçados e , definitivamente, sem os sete a um da Alemanha.




segunda-feira, 26 de junho de 2017

VIDA (2017)


Nesse contestado 2017 que já se encontra pela metade, ainda estou aguardando a estreia de alguns filmes que jogaram minha expectativa nas alturas desde que assisti aos seus primeiros trailers, mas enquanto estes não chegam, vou seguindo os conselhos do célebre cantor Latino e "se não encontro os filmes certos, me divirto com os errados!".

Pois fazendo tal qual esse genial músico brasileiro, que assisti nesse final de semana, "Vida", filme escrito por Rhett Reese e Paul Wernick, a mesma dupla responsável pelo roteiro de "Deadpool" e "Zumbilândia" e estrelado por Ryan Reynolds e Jake Gyllenhaal, que por pouco mais de uma hora e meia, não só matei (e matei mesmo) minha nostalgia em relação aos clássicos do "terror no espaço", como fui soterrado de referências destes.

"Vida" conta a história de uma equipe de seis astronautas enviados até a estação espacial internacional, para estudar uma forma de vida unicelular descoberta nas amostras de terreno retiradas de Marte. Essa espécime, que é batizada de Calvin, é composta de células fotossensíveis, tecido muscular e nervoso , ou seja, é simplesmente, músculos, olhos e cérebro e , cresce extremamente rápido. Em um acidente, o ser é dado como morto e reanimado pelo tripulante responsável, ao fato que reage com hostilidade e passa a atacar a tripulação. Resta agora aos sobreviventes, fazer o possível e o impossível para evitar que a criatura chegue até a terra.

Pois bem, há quem cante que "Vida, é um grito de gol, é um banho de mar, é inverno everão", mas quem não tem TV a cabo e é obrigado a assistir aos telejornais da Band, sabe bem que "a Vida bate forte,irmão!" e esse filme, reciclando os conceitos apresentados nos clássicos do cinema de horror espacial, em especial o primeiro "Alien", assim como muitos dos filmes de John Carpenter, onde o foco no desespero em encarar o desconhecido e a morte em meio a solidão dão o tom da trama , consegue mostrar de forma divertida (entenda "diversão" como quiser) todo terror que a vida pode nos reservar.


Pode-se mesmo tratar o filme como uma alegoria sobre a vida real, em que se seguindo ao meio do desconhecido, oscilamos por momentos de total expectativa e frustração, que podem ser seguidos de esperança ou terror em decorrência de nossas escolhas. E um fator que corrobora para essa mensagem passada, mesmo que de forma rasa pelo filme, são os personagens de Jake Gyllenhaal e Rebeca Ferguson, o primeiro um médico que trabalhou na Síria e que perdeu sua esperança na raça humana, mas que toma para si a missão de se sacrificar para evitar que a criatura chegue até o nosso planeta e destrua tudo o que ele não acredita mais e, a segunda, que é a responsável pelo isolamento do ser na nave, representa ideia falha de que estamos sempre preparados, mesmo para o desconhecido; isso sem mencionar a esperança, que é encarnada pelo personagem do cientista paralítico, que vê na descoberta da nova forma de vida, uma possível cura para seus problemas.

No entanto, o que vida trás de mais divertido são suas referências aos filmes antigos. A criatura rondando o grupo de viajantes espaciais, lembra o tempo todo "Alien" e não só pela aparência cheia de tentáculos que remete ao monstro do filme de Ridley Scott ao ficar presa no rosto do John Hurt o filme de 1979, como também pela ideia inicial de matar a criatura com um lança chamas e pelo fato desta entrar pela boca de uma das vítimas e crescer dentro dela, sem contar que, somando-se ao rato que serve como cobaia no laboratório da estação, o alienígena também é o oitavo passageiro.

Porém, o filme não consegue se sustentar além de suas referências e diversão violenta, devido a velocidade com que as coisas são apresentadas. Mesmo com uma hora e cinquenta, parece não haver tempo para que criemos elos com os personagens, sabendo muito pouco de suas histórias, relacionamentos ou expectativas e, quando estes começam a morrer, por maior que seja o sacrifício ou angustia em sua morte, acabamos por não nos importarmos com eles e isso diminui o impacto que os acontecimentos deveriam ter sobre o espectador.

Outra coisa que não funciona como deveria na trama é a criatura. Embora ela tenha um conceito extremamente interessante de ser feito para matar (músculo+cérebro+olhos e uma BAITA inteligência), está longe de possuir o carisma de um "Predador" ou de um "Alien", nem mesmo de causar o estranhamento que a criatura de "O enigma de outro mundo" consegue causar em quem assiste ao filme e isso faz com que o coloquemos no nível de uma ameaça genérica, o que , por um lado é bom, pois surpreende a tripulação do filme, que o subestima (e até a nós mesmos ao final do filme), mas o torna esquecível quando os créditos sobem.


Pois então, "Vida" é um filme mediano, mas que consegue divertir quem assiste devido a chuva de referências que trás e alguns momentos de tensão e terror que matam a saudades de quem, assim como eu, é fã do estilo. Não chega a ser um filme para ficar guardado na memória, mas não é totalmente esquecível, principalmente quando se pensa no final que mistura tragédia total com comédia nonsense (pelo menos eu achei isso). Com certeza não foi o filme mais certo lançado nesse ano cheio de expectativas, mas como um sábio me disse e já citei acima, "enquanto não encontro os filmes certos..." , segue a expectativa e que venham "Homem-aranha", "Atômica Blondie" e "Baby Driver" e que com estes, a vida não nos frustre ou aterrorize!!




sexta-feira, 23 de junho de 2017

CORRA! (2017)



Certa vez, li em algum lugar que a leitura de romances é um exercício de empatia, pois faz o leitor se colocar no lugar dos personagens, encarando, como se fossem seus, os problemas e situações apresentados na trama e, em consequência disso, quem lê mais, tem menos medo do próximo, porque adquire maior facilidade em vê-lo como um igual. Guardei esse argumento para mim e sempre que, em uma roda de amigos, eu citava um livro e alguém perguntava o porquê de eu ler tanto, dizia sem pestanejar: "É um exercício de empatia!". No entanto, não lembro de nenhuma vez em que tenha sido questionado por citar um filme, talvez porque o cinema tenha se transformado em diversão pura e simples, como se tivéssemos nos tornado mal acostumados pelas grandes franquias, blockbusters milionários e universos expandidos a não enxergar que o cinema, assim como a literatura, também é uma forma de nos colocar no lugar do outro, nos colocando como passageiros de suas experiências e, nos enriquecendo como pessoas.

Por sorte, de tempos em tempos, surge uma produção que nos lembra o verdadeiro poder do cinema, como é o caso de "Get out", ou como foi traduzido no Brasil: "Corra!", trhiller escrito e dirigido por Jordan Peele e estrelado por Daniel Kaluuya e Allison Willians, que estreou no Brasil em Maio, mas que só agora tive o prazer de assistir e que me deixou boquiaberto tanto com a história que conta, como com o que o filme conseguiu revelar sobre mim mesmo.

"Corra!" conta a história de Chris Washington, um fotógrafo (negro) que é convidado por sua namorada Rose (que é branca) para passar o final de semana em sua casa de campo e conhecer seus pais e irmão. Mesmo tenso pela diferença étnica e social que existe entre ele a a família da namorada, Chris aceita o convite e é extremamente bem recebido pelo casal de progenitores da namorada, Dean e Missy. Mas as coisas começam a ficar estranhas, quando ele se vê presente em uma misteriosa reunião na casa, contendo um grande número de pessoas da alta classe, todas extremamente interessadas em seu gosto por esporte, visão de mundo e constituição física, e tudo só piora, quando Chris percebe que as pessoas negras presentes no local (não mais de três, dois empregados e um jovem convidado que se veste como um senhor de idade) agem de maneira mecânica e artificial. Resta agora a Chris, tentar entender o que está acontecendo naquele lugar afastado e misterioso e, fazer o possível para dar o fora dali.


Brother! Que filmaço! Fazia um tempinho que eu não assitia a um filme que me prendesse na poltrona, com os dentes serrados de tensão e mergulhado no que está acontecendo em tela, méritos do roteirista e diretor Jordan Peele, que nos entrega uma história inteligente, que consegue ser pesada, sem deixar de ser divertida e até humorada quando necessário; resultado, não só do aparente background de cinéfilo, que o diretor parece ter, ao trazer conceitos que lembram os clássicos de Hitchcock, mas também seu histórico pessoal de escritor e ator de comédia, fatos que podem ser confirmados ao assistirmos um pouco de seu trabalho em seus antigos programas do canal "Comedy central", que expõem toda sua agilidade e competência como roteirista; no entanto, seu talento como diretor, exceto no filme "Keanu", uma comédia nonsense onde ele atua e co-dirige algumas cenas, sem fugir de seu terreno mais conhecido, nunca havia sido exposto como agora; uma grata surpresa em uma área cada vez mais carente de cineastas autorais e competentes.

Somando-se ao talento do diretor, outro fator que favorece o filme são as atuações, principalmente do protagonista, que é interpretado por Daniel Kaluuya e por seu par romântico a atriz Allison Willians. O ator britânico, já havia chamado minha atenção por seu papel em Black Mirror, principalmente por sua capacidade expressiva; o cara é craque em transmitir sentimentos sem precisar utilizar uma única palavra e em uma trama onde a suspense e a estranheza são ingredientes de destaque, um ator que consegue transmitir no olhar a perturbação e medo que sente, facilita o andamento da história de maneira visível. Já Allison Willians, de quem eu nunca havia ouvido falar, me surpreendeu pela naturalidade com que compõe seu personagem e pela química que desenvolve com Daniel, assim como a quebra dessa química no arco final da história, quando a personagem tem uma virada e a própria forma de atuar da atriz parece seguir aquele novo modo de agir, sendo que o momento final da história (que para mim é o ponto alto) me parece ser tão completo por deixar apenas os dois brilharem.
Ei!! Afrodescendente!! você acha que tem mais ou menos vantagens na sociedade moderna?

Apesar das ótimas atuações e direção, o destaque é a história do filme. Para começar, a trama contém toda força necessária que um filme de suspense que aborda o racismo deve ter para o momento atual de um mundo cada vez mais preconceituoso e extremista, principalmente no que toca os EUA. Basta prestarmos o mínimo de atenção nos diálogos dos personagens, ou nas frases soltas no jantar da família ou no encontro na casa e vamos, aos poucos montando o cenário de preconceito que parece cristalizado em toda parte, seja quando uma convidada da casa de campo pergunta se os negros são melhores (na cama), ou quando o irmão de Rose, pergunta por que Chris não se interessa por MMA, pois com sua constituição física se tornaria uma fera, ou mesmo quando outro convidado diz que o preto está na moda; todas essas pequenas migalhas vão desenhando uma situação onde o negro vais sendo descrito como uma coisa, ou um animal, que, segunda a visão do não-negro (presente no filme) tem suas únicas utilidades em suas possíveis vantagens físicas, mas como pessoa, são totalmente dispensáveis, como no discurso dado pelo pai de rose, quando conhece o protagonista e este lhe conta que na vinda, haviam atropelado um cervo, ao que o futuro sogro diz que esses animais estão por toda parte, poluindo e destruindo o ecossistema e que quando sabe que alguém deu um fim neles fica feliz, pois é menos um para incomodar, em uma brilhante alegoria feita pelo roteiro em que o cervo (símbolo clássico de animal caçado) é comparado aos negros e, o genial é que tanto o próprio cervo, quanto cada palavra citada pelos personagens do filme não está lá por acaso, nem mesmo a ideia de que que apenas as vantagens físicas dos negros é a única coisa que importa.


Mas mesmo abordando e expondo essas situações e fatos que todo negro já presenciou (como diriam os racionais: Quem é preto como eu já tá ligado qual é...), o filme não tenta ser panfletário (não que ser panfletário seja errado), se tornando genial e tão especial justamente pela pitada de comédia (muito disso apresentado pelo ator Lil Rel Howery, que faz o papel do melhor amigo do protagonista e que tenta mostrar a ele a roubada onde está se metendo) que serve para exorcizar o peso dessas questões sociais abordadas de maneira periférica no filme sem as colocar em segundo plano, lembrando em muito o clássico "O grande Ditador" de Chaplin, que foi um dos primeiros filmes a utilizar o cinema e o humor para combater o extremismo e preconceito. Esse humor, herança da carreira do diretor de seus tempos de comediante de TV, se soma a sua experiência de vida, ele mesmo filho de um casal multiétnico e casado com uma mulher branca, que deve ter presenciado e vivido muitas cenas semelhantes a do jantar ou do encontro presentes no filme e comprovam a importância da representatividade no cinema, ao colocar escrevendo e dirigindo, alguém que realmente sente na pele um pouco do que a história tenta transmitir.

Jordan Peele
E falando em transmitir uma mensagem, como disse no início do texto, esse filme revelou para mim, que até em mim que sou negro, o preconceito está presente. Percebi que eu mesmo já vivi muitas das cenas iguais as vividas pelo protagonista, onde o mesmo se via questionado, coagido ou observado como algo diferente (não como uma pessoa) e assim como ele, sempre levei esse comportamento que vem da parte do outro como plenamente aceitável, como quando o policial de trânsito pede os documentos de Chris, mesmo ele não sendo o motorista, ou quando, no final do filme, após tudo que tinha que dar errado (ou certo) acontece e vi chegar um carro da polícia, meu primeiro reflexo foi pensar: "Ferrou! Agora acabou pra ele!" uma frase que diz mais do que eu espero do mundo em que vivo e aceito como "normal", do que da trama saída da mente de um talentoso roteirista e que reafirma o verdadeiro sentido do cinema ao apresentar o ponto de vista de uma pessoa, fora dos padrões habituais do cinema popular, a toda uma platéia e gerando empatia com a história de Chris Washington e catarse em relação a sua história e atitudes.

Pois bem, mais do que um filmaço de suspense, "Corra!" é uma obra obrigatória. Bem escrito e dirigido por uma mente cheia de frescor e com muito a agregar ao cinema, com grandes atuações e momentos de tensão e ação dignas do respeito de fãs de Hitchcock e Tarantino e, acima de tudo, possuidor de uma mensagem forte, embora sutil, sobre nós mesmos e a sociedade onde vivemos. Traz a visão de um grupo que quando não é totalmente estereotipado é muito pouco representada no cinema e o coloca em seu devido lugar de Pessoas e, faz através de alegorias e diálogos brilhantes, que olhemos para dentro de nós mesmos e reconheçamos nossos próprios preconceitos e falta de empatia, reafirmando com talento o verdadeiro sentido do cinema que, tanto quanto divertir e maravilhar, é também de nos fazer viver várias vidas e nos enriquecer como pessoas.