terça-feira, 27 de setembro de 2016

OBLIVION (2013) - Quando a ficção científica é boa #esquerda_rewiew 4


Um fato que, de uns tempos para cá, vem perturbando meus pensamentos, é imaginar como será nossa comunicação com alienígenas. Comecei a pensar sobre essa situação, faz uns dois meses, depois de rever o ótimo filme "Contato", que é baseado no livro do mesmo nome do grande Carl Sagan e o assunto passou a me seguir desde então, com o trailer de "A chegada", com Amy Adams, que explora a difícil primeira comunicação entre humanos e uma raça de extraterrestres, assim como toda questão da aparição de um disco voador na segunda temporada de "Fargo", onde o personagem de Ted Danson, questiona sobre se o grande problema da raça humana é não saber se comunicar, finalizando com o fato de ter lido "Um estranho numa terra estranha" de Robert A. Heinlein, que conta as desventuras de um humano criado por marcianos e que, trazido para a terra, não consegue compreender os conceitos e intenções humanas.

Estava com todos estes devaneios na mente (sei lá eu porque), quando me deparei com um filme, que a muito eu tinha descartado, por acreditar que se tratava de mais um raso caça níqueis estrelado por Tom Cruise, mas que ao assistir, encontrei uma ficção científia de qualidade, com uma trama bem elaborada e repleta de conceitos bacanas, se trata de "OBLIVION", escrito e dirigido por Joseph Kosinski e lançado pela Universal em 2013, que me fez lembrar o porquê eu adoro tanto esse gênero e colocou meu pensamento sobre comunicação com extraterrestres em outro patamar.


O ano é 2077 e o planeta terra foi destruído durante uma guerra entre os humanos e uma raça alienígena conhecida como Saqueadores. Durante o confronto, os invasores destruíram a lua, iniciando uma série de terremotos e tsunamis, causando destruição e bilhares de mortes, em respostas a raça humana utilizou então seu arsenal nuclear para vencer a guerra o que deixou o planeta inabitável, forçando a humanidade a construir a "Tet", uma estação espacial que, mais tarde, passou a servir de posto intermediário entre nosso planeta e Titã, a Lua de Saturno que se tornou o novo lar da raça humana, no entanto, para que a missão de Titã tivesse total sucesso, alguns humanos foram enviados à terra, encarregados de ajudar a fornecer recursos naturais essenciais a vida nas novas instalações, entre eles Jack Harper (Cruise), um técnico de drones, que trabalha na torre 49 junto com sua amante e oficial de comunicações Vika Olsen (Andrea Riseborough).

Tanto Jack como Vika, tiveram suas memórias removidas para não comprometerem sua missão na terra e passam todos os dias cumprindo suas obrigações de reparo de drones e vigilância das torres de drenagem de água e segurança do perímetro. No entanto, Jack , não se conforma com a ideia de ter de deixar o planeta e, somado a isso, começa a sonhar repetidamente com uma mulher e ter flashs de memórias de um tempo antes da guerra, mais de cinquenta anos antes dele mesmo nascer e essa confusão em sua mente vai crescendo conforme ele sofre a tentativa de captura dos remanescentes dos saqueadores e se agrava quando, após encontrar um sinal sendo enviado para fora do planeta e se depara com os destroços da Nave Odisseia, onde ele vem a encontrar exatamente a mulher com quem vinha sonhando (Olga Kurylenko) e que, mais tarde, lhe conta que era parte de uma missão secreta e que poderá revelar qualquer coisa só depois de estar der posse da caixa preta de sua nave, e , é nessa ajuda a encontrar o item desejado pela misteriosa sobrevivente, que Harper acaba sendo capturado pelos saqueadores, que se revelam totalmente diferentes do que lhe tinha sido informado pelo comando da Tet e esse contato mais do que sua percepção, mudará para sempre a realidade onde Jack acreditava viver.


Vika
Cara! Depois que assisti esse filme me senti muito culpado, por te-lo ignorado na época do lançamento. A história é extremamente interessante e divertida, com reviravoltas que te pegam de surpresa e, o mais legal, é que todas essas surpresas e mudanças ocorrem apenas depois do meio do filme, o que gera um clima de suspense em tentar imaginar o que está acontecendo realmente no território da torre 49.

Quanto a atuação, não tem nada de mais, Tom Cruise faz o papel de Tom Cruise, atirando, correndo, sorrindo e correndo novamente, enquanto as atrizes, elas fazem o papel de mulheres que contracenam com o Tom Cruize (fora a Emily Blunt, que mostrou pra ele quem manda em "no limite do amanhã") , sem demérito, mas mesmo com os motivos da personagem de Andrea Riseborough e da importância da aparição da personagem de Olga Kurylenko, ambas são ofuscadas pela trama e pelo Gigantesco Plot Twist que o filme tem bem no meio e que, para seguir minha análise, vou ter de contar.


ALERTA DE SPOILER




É TUDO MENTIRA!!!! Não teve guerra nenhuma entre humanos e alienígenas, os humanos não venceram e foram para Titã e muito menos a Tet é uma estação espacial. A verdade é que a Tet é uma máquina consciente vinda ninguém sabe de onde e que tem como unica finalidade consumir (isso mesmo, como você aí que troca de telefone todo ano). A história verdadeira é que em 2017 a Nasa detectou esse objeto alienígena perto de Saturno e resolveu enviar um grupo de astronautas para verificação e contato (Aí é a parte forçada, pois se hoje não conseguimos mandar pessoas para Marte, imagina para saturno? E porque não mandaram uma sonda?) , dentre os oito enviados astronautas, estavam o comandante Jack Harper e a oficia Vika Olsen e a Dra. Julia ,que era esposa de Harper (bum minha cabeça explodiu!!) , chegando próximos a Tet, Harper e Vika decidem desacoplar o módulo onde Julia e o resto da tripulação hibernava e são levados para dentro da Tet, eles acabam sendo clonados aos milhões e a Tet, após destruir a nossa lua e causar as catástrofes naturais descritas acima, manda um exército de "Tom Cruises" invadir e finalizar o serviço de extermínio dos humanos. Após isso, a Tet cria as torres de vigilância e coloca um casal de Harpers e Vikas em cada um, mentindo que suas memórias foram apagadas, prometendo que um dia irão para Titã e dizendo que as zonas fora das linhas marcadas são radioativas, quando na verdade, essas zonas são os territórios das outras duplas de clones. Enquanto isso o módulo com a Dra Julia ficou vagando no espaço durante sessenta anos e só foi trazida de volta, graças ao sinal que os humanos remanescentes (aqueles que no inicio de filme acreditamos que são os alienígenas) enviaram.

Quando essa maluquice toda é revelada, o filme ganha ares de distopia total. Não existe mais esperança para o protagonista, que entende que nem mesmo os sentimentos que ele nutre pela personagem de Olga Kurylenko são reais, restando a ele o caminho desenhado pelo personagem de Morgan Freeman (que se apresenta como o líder dos sobreviventes humanos) e isso torna o arco final do filme bem pesado e ao mesmo tempo muito bacana.

Um dos Drones. Inspiração em Matrix
O filme apostou em alguns conceitos que lembram muito Matrix. A ideia de uma inteligência artificial que ilude e manipula humanos criados em laboratório para conseguir o que quer, o cara sábio que dá a pista para o protagonista encontrar a verdade (Morgan Freeman está até mesmo sentado na mesma posição que Lawrence Fishburne em Matrix quando faz isso) o fato desse inimigo estar quase que inatingível e possuir drones armados para caçar os sobreviventes, tudo lembra muito o filme das irmãs Wachowski, com uma pitadinha de como os clones deveriam se chocar por saberem que são cópias de outra pessoa que faltou em "A ilha" de Michael Bay.

No entanto, mesmo com esses conceitos que o filme pega emprestado, ele não perde sua qualidade, pelo contrário, ele usa tudo como uma homenagem e mantém sua ótima história e enredo como destaques e consegue prender o expectador atento a todas revelações que vão sendo feitas até o derradeiro embate entre o protagonista e a Tet.

A TET
A Tet, mesmo sendo apresentada como uma espécie de Matriz (de Matrix) mas atuando no plano físico, consegue ser uma ideia bem assustadora e marcante, lembrando em muito o Brainiac (inimigo do Superman) que é uma inteligência artificial alienígena, que racionalizou que o maior problema dos humanos são...os humanos e resolveu dar fim no problema; com a diferença que a Tet é egoísta e quer consumir os recursos da terra para se manter, como sua origem é desconhecida, pode-se pensar que ela foi criada por uma civilização muito avançada, se rebelou contra a mesma e a destruiu e partiu em busca de mais, algo que , embora longe de nossa realidade, pode ser pensado em um futuro humano, quem sabe?!

Claro que não vou contar o final do filme, mas o que posso dizer é que lembra em muito o final de "No limite do amanhã", também com Tom Cruise (sempre ele), mas em "Oblivion" temos uma mistura de redenção, tristeza , esperança e "WTF???". Mas pelo todo da produção, em especial por como a história é apresentada, gostei bastante do filme e espero que o ator continue emprestando sua carinha para produções de ficção científicas tão bacanas. Então aproveita que o filme está passando toda hora na TV a cabo e para para dar uma olhada, se você gosta ficção científica, garanto que vai se comunicar muito bem com o que a trama apresenta e que para mim foi outro nível em questão de contato e comunicação com alienígenas que o cinema vem apresentando ultimamente. Um filmaço, que por muito tempo, para coincidir com o título do próprio filme, eu tinha esquecido.







quarta-feira, 21 de setembro de 2016

ARQ (2016)



As vezes acho que o que acontece na minha vida está se repetindo eternamente. Comecei a ter essa sensação depois dos trinta e essa percepção só tem crescido nesses últimos cinco anos; com os mesmos problemas no trabalho, mesmos problemas nos relacionamentos, mesmos problemas de grana, mesmas histórias contadas nos aniversários e churrascos da vida; acho que se eu não tivesse meu filho do lado para acompanhar seu crescimento, eu poderia ter certeza de que estou dentro de um loop temporal e que em determinada época do ano (Shazan!!) o tempo volta para um exato dia e lá vamos nós outra vez.
Só que nem todos tem a sorte de possuir um totem, como um filho, um peão que não para de girar, ou perceber uma falha na matrix, para saber se o que está vivendo é real, sonho ou repetição; e, esse é exatamente o caso que acontece com os personagens do filme "ARQ", escrito e dirigido por Tony Elliott e estrelado por Robbie Amell e Rachael Taylor, que a Netflix produziu e disponibilizou em seu catálogo no último dia 16/09.

O filme começa assim: Robbie Amell é Renton, um jovem, bonito e malhado cientista que acorda com um susto em seu quarto as 06:16, ao lado da não menos gata Hannah (Rachael Taylor), ele houve barulho na porta e de repente três homens com mascaras de gás entram e um deles desfere uma coronhada no rosto de nosso protagonista e o arrastam pelos pés em direção a outro comodo; Renton se agarra nos pés do corrimão da escada e tenta fugir, mas acaba tropeçando, bate de cabeça no degrau e ( katapow!!) acorda com um susto em seu quarto as 06:16, ao lado de Hannah , ele houve barulho na porta e de repente três homens com máscaras de gás entram e um deles desfere uma coronhada no rosto de nosso protagonista....

O que foi escrito na humilde sinopse que antecede esse parágrafo não foi um erro de digitação, o que ocorre com Renton (ou Ren, para os mais chegados) é um loop temporal. Sendo assim, Ren percebe ,após "morrer" na escada, que o dia que ele está vivendo vem se repetindo e, não importando o que faça, ele sempre morre e acorda as 06:16 ao lado de Hannah na cama de seu quarto. Ren começa a suspeitar de que o "Arq", um projeto que buscava gerar energia ilimitada e do qual fez parte quando trabalhava na maior corporação mundial, a Torus, e que roubou quando saiu fugido da empresa, está, de alguma maneira fazendo com que o dia se repita. Sabendo desse eterno restart, o protagonista passa a usar as informações do dia repetido para buscar uma chance contra os invasores, mas o que Ren vai poder fazer quando todos os invasores, repetição após repetição, começarem a lembrar também de que o dia está se voltando?

"ARQ" remete a outras produções que também exploram a ideia de loop temporal, como o clássico "O feitiço do tempo", onde Bill Murray fica preso no dia da marmota em uma cidade do interior americano, ou ao episódio "segunda-feira" do Arquivo X, onde após uma assalto frustrado a um banco, um ladrão detona explosivos presos a seu corpo, matando Mulder e Scully e, fazendo com que a segunda-feira se repita diversas vezes, ou mais recentemente, com "No limite do amanhã" onde após entrar em contato com alienígenas, o personagem de Tom Cruise, passa a voltar no tempo sempre que morre. No entanto, o diferencial de "ARQ", talvez seja pensar no micro, tornando a história menos grandiosa e mais intimista, concentrando o filme em apenas um cenário e tendo somente seis atores em ação. Essa proposta menos grandiosa dá ao filme espaço para explorar bem os personagens e apostar em polt twists que aos poucos vão revelando, além da personalidade de cada um, as peculiaridades do universo onde o filme se passa.



Achei o filme divertido e interessante. Confesso que a principio fiquei um pouco confuso, pois somos jogados no meio da situação sem nenhum aviso prévio, mas o final da trama, tanto justifica totalmente essa imersão repentina, quanto acrescenta qualidade ao roteiro e a opção de montar o filme da forma que foi feito. Gostei especialmente do fato de o roteiro se prender ao momento vivido pelos personagens e a busca por resolver a situação onde eles estão presos, deixando todos problemas de fora da casa como um pano de fundo que justifica a invasão e confronto, algo parecido com o que acontece no filme "Colateral" onde Tom Cruise (toda hora esse cara) é um assassino contratado por mafiosos que persegue e mata testemunhas, sendo o que o levou até ali é ignorado, ou o livro "Battle Royale" de Koushun Takami, onde o importante é o que acontece na ilha em que estudantes devem se matar até sobrar apenas um e o estado totalitário que está por trás de tudo é apenas mencionado em pequenos trechos, sem importância para a trama.

Hannah e Ren
Mas embora a situação fora da casa não tenha maior importância para a trama de "ARQ", achei todos os conceitos apresentados e que revelam o estado da sociedade mundial ,do universo do filme, extremamente interessantes. Para começar, os três antagonistas estão usando máscaras de ar e nos é informado durante a história, de que o ar está tão poluído, que é impossível andar pelas ruas sem uma proteção adequada, da mesma forma sabemos através de um noticiário, que passa durante uma das tentativas de fuga (ou todas) de que todas as aves foram extintas e que a "Austrália continental" virou um buraco de "cascalho radioativo" graças a um bombardeio nuclear. No entanto, o que chama a atenção é saber que a "Torus", maior conglomerado de empresas do mundo e onde o protagonista trabalhava, é tão poderosa, que praticamente engoliu os EUA e detêm o poder sobre a cidadania e liberdade das pessoas, sendo o único opositor a essa potência, um grupo terrorista autointitulado "O bloco". Essas informações, que transitam ao fundo da história dão ares de distopia ao universo onde a trama se realiza, o que me agradou em muito, por sincronizar perfeitamente com o desfecho que a história tem.

Bem, como eu disse, gostei bastante de "ARQ" e poderia falar bem mais sobre todos os por menores do filme, mas acho que uma hora ou outra eu acabaria me repetindo (piadinha). O filme é uma produção simples e divertida, que consegue segurar o expectador com o mistério e tensão de uma situação inusitada, aborda um quase gênero de ficção científica de forma divertida e interessante e tem um final que mistura desespero com coragem. Um ótimo trabalho de Tony Elliott, de quem eu só conhecia a direção de alguns episódios de "Orphan Black" e uma produção digna da netflix, que tem apostado em todos os gêneros com a mesma qualidade. Então, quando bater uma vontade de ver um filme repetido, mude um pouco a sua ideia e assista "ARQ" e dê chance para o que é um pouco diferente, porque ninguém quer viver em um loop temporal, assim como eu, pois se eu pudesse falar da minha vida, eu começaria assim:

As vezes acho que o que acontece na minha vida está se repetindo eternamente....




quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A BEIRA DA LOUCURA (1994) #Zerocult 4


Imagina um filme com o clima dos contos de Lovecraft, onde tudo gira em torno de um escritor de terror totalmente inspirado em Stephen King, dirigido por um mestre do terror e produzido no meio dos anos noventa, mas com todo espirito dos anos oitenta? Parece estranho demais para ser concebido, não?! Mas existe!! Se trata de "À beira da Loucura" (In the mouth of madness), distribuído em 1994 pela New Line, dirigido pelo Genial John Carpenter e estrelado por Sam Neill, que, em um dia de chuva onde até faltou luz, me trouxe toda aquela sensação que o falecido "cinema em casa" do SBT me trazia quando eu era um guri.

O filme acompanha os passos de John Trent (Sam Neill), um investigador de seguros, que é contatado por uma editora para encontrar um famoso escritor de terror chamado Sutter Cane, que desapareceu um mês atrás, deixando um livro inacabado que já tinha data de lançamento e direitos vendidos para o cinema. Na pista do escritor, John Trent acaba chegando na pequena cidade de "Rob's End" acompanhado de uma funcionária da editora, onde além do escritor, ele encontrará uma verdade tão grande e destruidora que vai abalar pra sempre sua sanidade (uuUUUuuu) .

Que - filme – maluco! Para começar pela escalação de Sam Neill como protagonista, que havia estrelado Jurassic Park, um dos melhores e mais marcantes filmes do início dos anos noventa, onde ele interpretava Alan Grant, que aparecia como um tipo de Indiana Jones da paleontologia em uma atuação memorável, aí nesse filme, que foi lançado apenas um ano após o filme do Spilberg, ele parece que sofreu uma amnésia e age da maneira mais canastrona possível, certo que o roteiro e a direção pedem aquele tipo de atitude, mas seus trejeitos, risos e choros (ainda mais depois que o personagem enlouquece) rivalizam em muito com o Coringa do Jared Leto.


Falando da direção e roteiro, talvez o grande responsável de o filme ter caído no esquecimento, seja o fato (além é claro que nesse mesmo ano estrearam filmes que se tornaram clássicos imediato, como "Pulp Fiction", "O rei Leão", "Forrest Gump", "O corvo", "Entrevista com Vampiro" e "Assassinos por natureza") de que tanto o estilo de como a história é contada, assim como a forma da direção, estarem fora de seu tempo. A direção de John Carpenter, embora boa, mas já não na melhor fase, parece ainda presa aos anos oitenta, trazendo alguns vícios daquela época onde o diretor se destacou com filmes como "Halloween", "Enigma de Outro mundo" e "Eles Vivem" para um tempo onde as pessoas procuravam algo diferente, com argumentos e questões mais profundas e isso fica claro até no uso já tardio de efeitos práticos que tentam repetir a experiência presente nos filmes citados anteriormente do diretor, sendo que isso acaba datando a produção. O roteiro também fica a desejar, parecendo copiar o espírito de alguns dos contos de Stephen King, onde os personagens são envoltos em uma situação muito maior que eles e da qual é impossível sair, mas a forma caricata como esses personagens se mostram, não cria o mesmo laço com que King consegue prender seu leitor, o que transforma uma história que poderia ter um ar de maior tensão e suspense em uma mistura de terror com comédia, mas sem ser muito aterrorizante e nem tão engraçado.



Apesar dos erros, uma coisa que gostei do filme foi o estranhamento que ele consegue passar ao espectador. A história, por ser contada por um louco, é uma maluquice em espiral e conforme vai se encaminhando para o final o clima te deixa meio tonto, no melhor estilo Lovecraftiano, onde eu só achei uma falha mostrarem os monstros, pois se deixassem a narração da acompanhante do protagonista, com o olhar do mesmo mirando a escuridão, acho que imaginação faria um trabalho bem melhor do que aquele bando de monstro de borracha cobertos de óleo, mas isso não estraga por completo o lance da loucura e bizarrice.

Tô doidão
Outra coisa bacana e que também colabora nesse estranhamento é o clima oitentista. As Ruas e becos cobertos de lixo, a umidade da cidade grande, o clima ensolarado e campestre da cidade do interior, tudo isso lembra muito a "sessão da tarde" e "cinema em casa", sem contar que a própria interação dos personagens é total dos anos oitenta, com o protagonista dando em cima da funcionária da editora desde o primeiro minuto que se encontra com a mesma e ela meio que aceitando, a mulher ser a descontrolada que enlouquece de primeiro, sem contar que em um momento de pavor, o protagonista simplesmente mete um soco na cara da mulher para ela desmaiar e ele poder fugir com ela, é muita loucura para uma hora e meia de filme.

Apesar de suas falhas e insanidade, me diverti assistindo "À beira da Loucura". Um filme que trás um pouco da estranheza dos contos de Lovecraft, aliadas as ambientações e terror de um Stephen King e ( por que não?) um pouco das comédias pastelão das tardes de dia de semana. Uma produção interessante, que mesmo estando fora de seu tempo (esse filme deveria ter sido gravado em 1985), ainda trás o último suspiro da genialidade de John Carpenter e só por isso, deixar de assisti-lo seria, para eu que sou fã, atestar minha total insanidade.





quinta-feira, 8 de setembro de 2016

ÁGUAS RASAS (2016)

Menos é mais. Essa proposta que indica que o contrário do exagero é a elegância, dificilmente cabe em filmes do verão americano, com seus efeitos especiais de última geração, trilha sonora grandiosa e publicidade onipresente; no entanto, os filmes de 2016 vem pecando tanto com a expectativa do público em relação aos blockbusters que obras menores vem ganhando espaço e chamando a mais atenção, entre estes, ÁGUAS RASAS do diretor Jaume Collet-Serra, que estreou despretensiosamente dia vinte cinco de Agosto no Brasil e se destacou pela utilização de novos conceitos cinematográficos e pela trama bem construída cheia e de tensão.

Em Águas rasas, acompanhamos Nancy, uma jovem estudante de medicina, que após a morte de sua mãe, por um câncer contra o qual lutou durante anos, decide partir em viagem até uma praia deserta no México, que marcou a juventude de sua mãe, para surfar nas mesmas águas das histórias que ouvia quando era criança e se conectar com parte de suas origens. É passando o dia nessa praia, após visualizar uma baleia morta próxima a costa, que Nancy se depara com um tubarão branco, que a ataca e a deixa encurralada a poucos metros da praia. Agora resta a Nancy buscar uma forma de sobreviver a ameaça, lutando tão bravamente quanto sua mãe lutou contra a doença.

O filme não é o mais profundo do mundo (sem trocadilho), trata-se de uma história de sobrevivência que mistura elementos de suspense e terror no estilo "Tubarão" de Steven Spielberg, com a ideia de superação e solidão, como a presente no "O Naufrago" de Robert Zemeckis, sendo que os destaques da obra ficam por conta da boa atuação de Blake Lively, da direção pontual de Jaume Collet-Serra e de como a trama é montada e desenvolvida.

Quanto a Blake Lively, eu só lembrava dela como a protagonista de Gossip Girl e mesmo assim muito por cima já que eu não assisti a série e , por conhecer quase nada do trabalho da atriz me surpreendi com sua atuação, que, embora não seja digna de um prêmio, convence ao transmitir o pavor e tensão que a situação exige, ainda mais por ela atuar mais de noventa por cento da história sozinha, uma situação que sempre foi passada a atores de carisma e talento já reconhecidos, como o próprio Tom Hanks em "O Naufrago", mas que Blake Lively conseguiu tirar de letra.


Para a atriz, que não tem a maior das experiências e expressão dramática conseguir se destacar em um filme que atua praticamente sozinha, é preciso uma direção muito bem calibrada, e, é aí que entra Jaume Collet-Serra. O diretor espanhol, que apareceu para o grande público com o terror adolescente "Acasa de Cera" de 2005, consegue apresentar um filme que lembra os filmes de terror dos anos oitenta, mas incluindo elementos modernos e dos thillers de ação que também dirigiu, como o "Noite sem fim" de 2015, com Liam Neeson e assim entregar um filme com atos muito claros que se destacam pela luz, fotografia e som diferentes entre si e que somam a montagem para construir um filme com suspense e terror na medida.

No entanto, o que mais se destacou, além do já citado é como a trama é montada visualmente. Podemos enxergar a divisão dos atos do filme pela luz e fotografia, começando a história com uma iluminação muito clara e com imagens extremamente bonitas como as dos canais de viagem da TV a cabo, para reafirmar o ar de paraíso que a protagonista acredita ter encontrado, depois, já na água, somos presentados a imensidão solitária do mar e ao antagonista, que ao aparecer transforma o ambiente em soabriu e sinistro, destruindo a ideia inicial da protagonista de ter encontrado um lugar perfeiro, por último, temos a história se fechando em um ambiente hostil, onde a protagonista e o antagonista se enfrentam em uma fotografia escura e focada em closes, reforçando a ideia de cerco e a não possibilidade de fuga. Essa montagem bem dividida me agradou bastante e conseguiu me prender em cada momento como se cada arco da trama fosse um conto dentro de uma historia maior, um exemplo de montagem que a Warner , com seus filmes bagunçados de super-heróis deveria aprender a fazer.

Águas Rasas é um divertido filme, que surpreende pela parte técnica e pela trama bem construída. Dentro dos filmes de verão que decepcionaram tanto, surge como uma opção que, embora não nos faça sair refletindo sobre a sociedade ou em defesa dos animais, não deixa aquele amargo na boca de ninguém. Um exemplo raro de que até em blockbusters menos pode ser mais e que um filme não precisa ser profundo, para poder contar uma história que mereça ser assistida.







segunda-feira, 5 de setembro de 2016

TERRA PROMETIDA (2016)



Enquanto todos aguardavam a estreia da nova temporada de “NARCOS”, a Netflix disponibilizava dia primeiro de Setembro, data da invasão alemã à Polônia, a série brasileira “Terra Prometida”, produção idealizada por Renato Fagundes e Luís Noronha, que narra histórias da Alemanha nazista através dos olhos dos Judeus e a repercussão da guerra e da imigração europeia no Brasil durante aquele período. 

Desenhos Belli Studio
A série busca dar um olhar mais moderno e menos maniqueísta a um dos períodos mais amargos da nossa história. Apresentando ao expectador uma obra inovadora, que mistura a reprodução de histórias verdadeiras através de animação, com cenas reais da época no melhor estilo documentário, lembrando, por vezes, o premiado “Valsa para Bashir” de Ari Folman, por seguir os passos do diretor israelense, ao humanizar os envolvidos no confronto, em especial os soldados e imigrantes, mostrando o terror e insanidades causadas pela Guerra e ignorância.

Terra prometida” foi transmitido originalmente pela TV cultura em Julho deste ano, chamando a atenção por se tratar de um ponto fora da curva dentre as obras audiovisuais brasileiras, misturando a informação do documentário com a dramatização ilustrada.

O documentário nos traz imagens de documentos históricos como, por exemplo, o telegrama enviado a Albert Einstein, onde o governo brasileiro rejeita o pedido de entrada de uma de suas amigas, e, de vídeos raros da época, onde podemos ver um pouco do espírito da sociedade alemã, desde a entrada no poder no partido nazista, até sua queda em 1945 e a repercussão da guerra em terras brasileiras, desde a simpatia pelo eixo por parte de Getúlio, até a entrada na guerra ao lado dos aliados.


Complementando a parte documental da obra, a série apresenta trechos em animações baseadas em histórias reais de diversos personagens que vivenciaram os fatos ocorridos na segunda guerra, tanto no Brasil, quanto no fronte de batalha. A produção desses desenhos é trabalho da Belli studio de Blumenau, responsável por ilustrar algumas séries da Discovery Kids, como “O peixonauta” e “Meu Amigãozão” e o estilo simples com que as histórias são retratadas remetem tanto a busca por uma verdade mais leve, quanto ao escapismo que tais situações pedem frente a crueldade e tristeza dos fatos ocorridos.

A série é excelente, exorcizando um período sombrio de nossa história e dando voz e rosto a muitas figuras esquecidas. O episódio que trata do ocorrido com os pracinhas logo após o fim da Guerra e o que fala sobre Aracy Guimarães Rosa, que conseguiu vistos para centenas de refugiados elucida quem acreditava que a história brasileira naquele confronto ficava aquém dos filmes de Hollywood e das histórias de nossos avós.

Pracinha ferido voltando da Guerra recebendo medalha
A obra vem coroar o momento cinematográfico brasileiro que parece querer deixar de lado o estilo panfletário de “cine-ditadura” e “cine-favela” e as comédias sem graça que ninguém precisa. Seu roteiro, que avança e recua no tempo para mostrar diversas histórias ocorridas na segunda guerra, foi escrito por Haná Vaisman, Gabriella Mancini e Rossana Maurell, que contaram com a ajuda de historiadores para tornarem a trama mais próxima ainda da realidade. A direção ficou por conta de Paschoal Samora e a produção teve o apoio do fundo setorial do audiovisual via Ancine e BNDES, sendo uma obra conjunta da Conspiração Filmes e Synapse produções.

Terra Prometida” é uma aula de cinema e inovação e, está com seus capítulos para a apreciação na Netflix desde o dia primeiro de Setembro, se você gosta de história, documentários e animação (ou todos) essa é a oportunidade perfeita para assistir algo de valor e conteúdo feito aqui e por artistas brasileiros.


Não perca tempo, são só seis episódios de 25 minutos. Recomendo.