sexta-feira, 18 de março de 2016

LADY SNOWBLOOD (1973)



Japão, 1874, o ano 7 da Era Meiji. Inspirado pelos progressos europeus, o país passa por fortes transformações, os samurais estão sendo extintos e costumes ocidentais começam a ser absorvidos; é nesse cenário, onde entre o período de tempo de atuação de Kenshin batosai, o samurai X e luta de Tom Cruise em "O último Samurai", em uma prisão de Tóqui, nasce uma menina, uma criança do submundo, fadada a saciar a sede de vingança de sua mãe e inspirar Quentin Tarantino em seus filmes, seu nome é Yuki, mas todos a conhecem como Lady snowblood.

Dirigido por Toshyia Fujita, baseado no mangá Homônimo de Kazuo Koike e estrelado por Meiko Kaji, o filme foi lançado no Japão em 1973 e conta a história de Yuki ( Ah vá!), que é concebida como a personificação do desejo de vingança de sua mãe, que anos antes tem a vida destruída quando o marido é enviado como professor para um remoto vilarejo e lá um grupo de quatro golpistas cobram proteção ao espalhar entre os agricultores que homens de branco vagam pelo Japão alistando à força no exército os filhos das famílias de lavradores, dotado do maior azar do mundo, o marido de Kashima Sayo ( a mãe de Yuki) se depara com o grupo quando está chegando no vilarejo e trajando um indefectível terno branco acaba sendo assassinado sumariamente juntamente com seu filho, para que o bando de golpistas demonstre a eficácia de sua "proteção" aos campesinos, do mesmo modo passam a violentar a mulher, que mais tarde ainda é levada por um integrante do grupo como uma espécie de escrava sexual para Tóquio. Na capital, Sayo mata seu raptor e é presa por assassinato e condenada à prisão perpétua, passa então a se envolver (no sentido bíblico) com todos os homens que tem contato, seja ele monge budista, carcereiro ou officeboy da cadeia pretendendo ter um filho que termine o que começou e é assim que durante uma nevasca, ao custo da vida da mãe, nasce nossa protagonista, que vai buscar dar cabo aos três assassinos que restaram.


O filme traz toda aquela aura de vingança que se tornou pop com os filmes do Park Chan-wook (oldboy), onde a história é construída sobre o alicerce da filosofia grega e sabedoria oriental, em que é mostrado que quando um plano de vingança é executado ninguém saí inteiro. Para começar pela protagonista que não é vista como uma mulher, mas como uma arma viva, uma pessoa que sacrificou toda sua vida buscando estar preparada para cumprir sua missão de matar os responsáveis pela tragédia que ocorreu em sua família; Yuki nunca ri ou parece ter empatia e todos sentimentos que parece ter são o ódio e a frustração que a atriz transmite através do olhar, apenas no final do filme, em sua hora derradeira a personagem esboça um sorriso, que me pareceu muito mais de compreensão e alívio, do que de alegria.
Outra coisa bem legal é o fato de a vingança se concretizar vinte anos depois do que a inspirou e esse espaço de tempo agir nos antagonistas de forma transformadora, ou aditivado seus defeitos ou destruindo suas vidas. Embora os "Vilões" não sejam muito aprofundados quando aparecem jovens, vamos notando que uma mudança neles ocorreu até o dia que Yuki entra em suas vidas e a maior mudança parece acontecer com Takemura Banzo, que Yuki encontra doente e alcoolatra vivendo as custas do trabalho da filha, que se prostitui mas que o pai acredita vender cestos, ele parece que carrega o peso dos pecados do passado e sua transição de algoz para vítima corrobora para a frase que transita em todo filme "Oldboy" de 2003 "Seja pedra, seja grão de arei, na água todos afundam"... ou seja, arrependido ou não o cara tá lascado.
Destinos parecidas são reservados aos outros dois golpistas, O ganancioso Gishiro e a maliciosa Okono. Esses dois ainda enriquecem a história quando incluem a questão da frustração no enredo, imagina tu ser treinado desde pequeno para uma determinada missão, matar três pessoas e acaba descobrindo que uma morreu em um acidente e quando tu vai atrás da outra essa se mata... frustrante não? Mas é o que acontece, depois de Okono se revelar, Yuki vai atrás dela para dar fim a sua vida e após vencer seus seguranças, encontra o corpo enforcado de seu alvo, não tendo outra atitude perante a essa situação do que cortar o corpo em dois e se entregar a frustração.
No Caso de Gishiro, Yuki sofre uma decepção ainda maior ao se deparar com a lápide do líder dos assassinos, atirando sobre esta toda sua fúria contida, sem imaginar que o líder dos assassinos de sua família, para escapar da justiça que o perseguia por tráfico de ópio, fingiu sua própria morte e só é descoberto porque se vê obrigado a passar uma mensagem a uma pessoa próxima essa pessoa leva Yuki para sua última missão dentro do palácio de Gishiro. O embate final é muito bacana e nele os fins justificam os meios, ao custo até das pessoas que ela ama. A cena da morte de Gishiro é simples e marcante, tenho certeza que inspirou uma história do Justiceiro que li quando era pequeno e a frase "Olho por olho" , com close nos olhos de Meiko Kaji , antes do banho de sangue, nos põe um sorrisinho maroto nos lábios.

O final faz jus a todo embasemento sobre o qual é construído o enredo do filme, ou seja, se for procurar vingança cave duas covas, uma para seu alvo e outra para você. Yuki cumpre seu papel de vingadora, mas perde seu objetivo de vida, como representante viva do niilismo, não resta nada para ela a não ser a morte e essa chega não só de seus ferimentos, mas também do punhal da filha de Takemura Banzo que busca vingança pela morte do pai e assim o ciclo de vingança segue seu caminho e vemos a neve manchada de sangue e os gritos de dor e ódio da Lady Snowblood.

Achei um filmaço! Fico pensando que talvez eu nunca tivesse chegado a esse filme se não fossem as referencias do Tarantino. O visual do filme é muito bacana combinando cenas em estúdio que parecem fake, mas dão um ar de originalidade, com cenas em locação aberta que parecem meio amadoras, mas que constroem a narrativa do filme bem colocada entre as produções dos anos 70. As cenas de luta são divertidas, com muito, mas muito sangue mesmo e a trilha sonora é marcante, com a própria Meiko Kaji cantando. Repito, um filmaço diversão garantida e vingança saciada.


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