quinta-feira, 12 de outubro de 2017

"GUERRA DO VELHO" de John Scalzi

   


    A vida é uma guerra onde, ano após ano, vamos sendo expostos a todo tipo de atrocidades e frustrações. É nela onde criamos laços com outros como nós, mas logo nos habituamos a perdê-los e, se temos sorte, chegamos ao final da última batalha com boas histórias, alguns arrependimentos e muita saudade. Mas, e se aos setenta e cinco anos, tivéssemos uma nova chance de começar do zero, nos atirando as cegas em uma viagem sem volta, onde a única certeza é uma nova vida com muito mais aventura e violência, você toparia?
     O “E porque não?!” para essa questão, é o que dá início a trama de  “guerra do Velho”, livro do escritor John Scalzi, publicado no Brasil pela editora Aleph e que, como uma rajada de MU-35, chegou para quebra meu hiato para falar sobre o que eu mais gosto: ficção científica.

    O livro conta a história de um futuro onde a raça humana chegou à era das viagens interestelares e passou a colonizar diversos planetas, tendo contato com outras civilizações, das quais muitas hostis. É nesse universo que conhecemos John Perry, um publicitário aposentado e viúvo de 75 anos, que se alista nas forças coloniais de defesa (FCD) e parte para o espaço em uma viagem sem retorno para defender nossas colônias, sem imaginar quantos terrores e maravilhas presenciaria após sua última decisão no planeta Terra.


   
Edição da Apleph
Gostei bastante do livro, mas tenho que confessar que minha primeira impressão da história foi negativa e se estendeu assim quase até a metade da trama. Algumas das coisas me desagradaram foram, as muitas semelhanças com “Tropas Estelares” de Robert A. Heinlein e a mentalidade extremamente aberta e “pra frentex” de senhoras e senhores de 75 anos, mas superei a primeira ao focar mais nas diferenças entre as histórias dos autores do que suas semelhanças e a segunda me colocando no exato lugar do protagonista e seu grupo de amigos, que receberam ao final da vida uma nova chance de se aventurar e conhecer coisas novas, em uma situação como esta, se apegar a preconceitos e costumes do passado, não melhoraria a vida nova de ninguém.

   Mas a coisa que mais me desagradou, foi o fato de que tudo acontecia de maneira extremamente perfeita para o protagonista; ele é o cara mais simpático e agradável do mundo e que acaba se cercando dos velhinhos mais bacanas, inteligentes e descolados já na viagem até a nave que os levará ao lugar de seu treinamento; após as melhorias nos corpos dos recrutas (das quais falaremos adiante) é ele quem pega a recruta mais gostosona, é ele quem vira o queridinho do sargento que os treina e que, por isso, é eleito líder de pelotão, é ele quem, em sua primeira batalha, descobre como vencer os inimigos mais perigosos das FCD, é tudo muito perfeito... Aí eu me toquei que o livro é narrado em primeira pessoa e que o protagonista é publicitário, ou seja, ele estava colocando um pouco de “tempero” em si mesmo para se vender como o maior herói que já existiu, em um detalhe tão sutil e brilhante de Scalzi, que mudou minha percepção da história após eu nota-lo.

   



Mas fora esses desagrados iniciais com o livro, “Guerra do Velho” apresenta conceitos muito bacanas e sua história vai crescendo em uma medida tão acertada, que se torna bem difícil para um fã de ficção científica se decepcionar com o que o autor apresentou ao final das trezentos e sessenta páginas. Para começar temos toda a ideia de tecnologia das FCD, começando com a resposta para, como alguém consegue lutar em uma guerra, após os 75 anos de idade? Pois bem, no universo do livro, a raça humana teve contato com outras raças a quase um século e com isso, acesso a muitas tecnologias que se tornaram segredos das colônias, uma dessas tecnologias, é a transferência de consciência e é isso que possibilita a ida dos recrutas à guerra.  Na história, quando se chega aos 65 anos de idade, a pessoa decide se quer fazer parte das FCD dez anos mais tarde e nisso, vários testes são realizados e amostra de sangue e pele retirados, o que os futuros soldados desconhecem (pois nenhum cidadão da terra sabe nada do que ocorre nas colônias) é que um novo corpo, repleto de alterações e melhorias, vai sendo maturado e deixado a sua espera, para quando este  resolver de uma vez sair de seu planeta natal. E o corpo é incrível! Com olhos de Gato para enxergar melhor na penumbra, com corpo na melhor forma atlética possível, com sangue que transporta mais oxigênio e coagula mais rápido para evitar hemorragia, um computador e assistente pessoal instalado no cérebro e uma pele verde rica em clorofila para ajudar a obtenção de energia.

   
Scalzi
 Mas o que mais me agradou foram os conceitos referentes aos alienígenas que as FCD vão de encontro para garantir a segurança dos colonos Terráqueos no universo. Os primeiros a aparecer em batalha e grandes rivais misteriosos da humanidade, são os aliens conhecidos como “Consus”, uma raça extremamente avançada e detentora de tecnologias infinitamente a frente das que aparecem no livro, mas que se limita a ir a campo de batalha com as armas no mesmo nível dos rivais que encontram. Sua aparência é descrita como semelhante a de um inseto meio humano, com quatro braços, sendo que os de cima são duas lâminas extremamente afiadas que eles também utilizam como arma e suas entradas nos planetas são sempre realizadas com rituais e cerimônias, tornando as intensões e razões desses inimigos misteriosas. Também temos os Covandus, seres humanoides de algumas polegadas, que conseguem um relativo sucesso contra a raça humana utilizando sua força aérea em miniatura, ou o misterioso fungo da colônia 622, uma entidade coletiva inteligente que dominava o planeta e que esperou o momento oportuno de atacar e matar todos os colonos adentrando pelas vias aéreas dos coitados e excretando ácido em seus pulmões, fato que faz com que a raça humana desista do planeta em questão, ou ainda os antropófagos Rraeys, criaturas de características que lembram aves e que enxergam na raça humana uma iguaria sem igual; são estes últimos os responsáveis pelo massacre do planeta Coral, o ponto de virada do livro e que dá início a uma sequência de batalhas e lutas que alavancam a trama com muita ação.


   Pois bem, Eu poderia escrever parágrafos e mais parágrafos sobre o livro, citando a relação do protagonista com seus amigos, seu crescimento dentro das FCD, explorando a possível ditadura e, quem sabe, distopia por de trás do governo colonial, ou simplesmente falando sobre as “Brigadas Fantasmas” o time de elite das FCD, mas como na maioria dos livros que resenho, não fiz questão de me aprofundar para que quem conhecer por aqui e se interessar pela obra, não tenha suas expectativas totalmente estragadas por esse texto. Deixo aqui só a certeza de que "Guerra do velho” é um livro divertido e que apresenta um universo extremamente interessante e para quem, assim como eu, se incomodar com um protagonista que não erra, digo para ter paciência; para quem enxergar semelhanças com outras obras, calma, há muito mais originalidade do que homenagens. Faça então como os recrutas da FCD e deixe de ser velho leia a obra de John Scalzi e mergulhe em uma viagem sem volta repleta de aventura, ação e violência, tal qual as batalhas da vida, mas com garantia de muito mais diversão do que frustrações.


domingo, 24 de setembro de 2017

EXTINCTION (Apocalipse (2015))


     Como dito no post anterior, o mês de setembro, para mim, é quando tudo que tem que dar errado, se concretiza. No entanto, nesse ano não foi só para a minha pessoa que setembro foi terrível, pois, depois de quatro furacões, três terremotos e de um esboço de guerra nuclear entre EUA e Coréia do Norte, descobri que o mundo poderia ter acabado na data de ontem (23/09/17) ao colidir com o planeta Nibiru (que deve ser o planeta natal do ET Bilu). Mas, por mais sorte do que juízo, o planeta vagante nos deu um bolo e a terra ganhou mais alguns anos para agonizar na mão dos humanos e, para comemorar, resolvi procurar por um filme que me transmitisse todo espirito desse bendito mês que parece que não tem fim.

  
Foi assim que encontrei “Extinction” (2015), ou como ficou chamado aqui na terra do mico-Leão dourado, “Apocalipse”; produção roteirizada e dirigida por Miguel Angel Vivás, que apresenta um mundo, onde uma infecção transformou grande parte da população em criaturas raivosas e antropófagas (para não dizer zumbis), mas onde a raça humana conseguiu se organizar e arranjou uma maneira de exterminar os monstros,  reduzindo a temperatura do planeta até níveis árticos e assim despachando os mortos-vivos por congelamento. É nesse mundo, nove anos depois desse extremo, que encontramos Patrick (Mathew Fox (de Lost)), Jack (Jeffrey Donovan) e sua filha Lu, as últimas três pessoas vivas da cidade de Harmony, que, por problemas do passado não se falam, mas são obrigados a unir forças quando uma nova raça dos monstros surge depois de anos, agora adaptada para o frio e muito mais mortal.

    Olha, o filme não é a melhor coisa que vi nesses últimos tempos, mas também não é a pior. A trama é uma mistura de “Eusou a lenda” ( Do will Smith e não do livro), com elementos de “A noite dos mortos vivos” (Do Tom Savini, não do Romero) e dentro do que se propõem, consegue funcionar de certa forma trazendo o sentimento de solidão do primeiro filme  citado acima, ao apresentar a rotina de Patrick, que depois de nove anos sozinho, não age diferente do personagem interpretado pelo sobrinho preferido do Tio Phil, falando sozinho, sendo metódico em seus horários e na busca por mantimentos e mesmo adotando um cachorro como melhor amigo e confidente. Já Jack e sua filha Lu, são a síntese do isolamento e do medo do que pode estar rondando a casa, maravilhosamente bem desenvolvido por George Romero no clássico de 1968 e homenageado por Tom Savini em 1991.




   Misturando em si a essência de duas boas e conhecidas histórias, o filme garante alguns sustos e cenas tensas, em grande parte pelo elenco reduzido, que facilita com que o espectador se importe com cada um desses poucos sobreviventes , nisso a jovem atriz Quinn McColgan, que interpreta Lu, consegue se destacar ao transmitir (com a ajuda do roteiro) toda a ingenuidade de uma criança que nasceu em uma sociedade destruída e cresceu apenas na companhia do pai.


  
Lu ,Jack e Patrick
Só que o mesmo roteiro que nos faz acreditar em uma menina de nove anos,  nos deixa confusos quando ignora o que houve com aquela sociedade e em especial, como diabos eles conseguiram baixar  a temperatura do planeta?? pois eu assisti ao filme duas vezes e se foi dito, me escapou totalmente (Talvez seja uma consequência do inverno nuclear depois da guerra  EUA x Coreia do Norte). Da mesma forma, a produção toma algumas decisões e depois desiste das mesmas sem mais nem mesmo, como quando o personagem de Jack parece estar enlouquecendo e uma voz começa a influencia-lo, vinda de seu aparelho de rádio amador  dizendo para que ele não aceite mais desaforos do vizinho Jack, o que é ignorado sem mais nem menos antes da metade do filme. Soma-se ainda a isso algumas conveniências de roteiro, como o fato de os protagonistas só conseguirem contato com outros grupos de sobreviventes, 9 anos após o isolamento e justamente quando a nova raça de zumbis começa a surgir; mas se não existissem certas conveniências na trama (assim como na vida) a história não se moveria, então é possível ligar a suspensão de descrença e deixar o filme seguir.



   Pois bem, "Extinction" foi a descoberta mais acertada para representar o meu mês de Apocalipse. Um filme mediano, que conta o drama de dois ex-amigos que no meio de um apocalipse Zumbi e com o planeta congelando, se isolam em suas casas remoendo as dores do passado enquanto o mal lá fora só cresce. Uma produção que mesmo com pouca grana e com muitos clichês, consegue ser competente (embora por vezes arrastado) em criar um clima de tensão, solidão e mostrar que, mesmo nas situações extremas, os problemas de relacionamento ainda são os mais difíceis de resolver. Então, se assim como eu, você teve um mês daqueles que lembra lembra um filme de terror, assista a "Extintion" (ou Apocalipse), um filme muito mais divertido e bem menos aterrorizante do que um mundo com quatro furacões, três terremotos e um mês de setembro de quarenta dias.

   





sexta-feira, 22 de setembro de 2017

TURBO KID (2015)




     Todo ano nessa época é igual, um clico parece se fechar e tudo que pode dar errado na minha vida, realmente dá. Tanto que, intimamente, eu costumo chamar Setembro de “o mês do Apocalipse”. No entanto, esse ano decidir não me abalar muito e celebrar o mês de tumultuo com uma temporada de filmes que tem tudo a ver com ele, ou seja, destruição, caos, estranheza e ...apocalipse.

    E para dar uma melhorada na energia, hoje vou falar sobre um filme que oscila entre a comédia e o Gore de maneira despretensiosa e que descobri muito sem querer no catálogo daquele serviço de streaming famoso, que adora estragar adaptações de mangás e do defensor de Kunlun, trata-se de “TURBO KID”, filme canadense de 2015, escrito e dirigido por Anouk Whissel, François Simard e Yoann-Karl Whissel; e, estrelado por Munro Chambers e Laurence Leboeuf , todas pessoa que nunca havia ouvido falar antes e que duvido que ouvirei novamente.

   
O Filme conta a história de um garoto (Chambers) que vive sozinho em um mundo pós-apocalíptico. Ele é fã de quadrinhos, em especial de um personagem chamado “Turbo Rider” e sobrevive catando e revendendo quinquilharias no mercado que se organizou após o fim da sociedade. No retorno de uma dessas vendas, que ele conhece Apple (Laurence Leboeuf), uma estranha e animada garota, com quem vai nutrir algo mais que uma amizade. Mas em mundo onde a sobrevivência fala mais alto, a força é a única lei, então, em uma incursão pelo “lixão” (como denominam o que restou da cidade), Apple é capturada e levada até Zeus  (Michael Ironside) o chefe da gangue que domina o lugar; Porém, O Garoto vai descobrir que as histórias em quadrinhos que lia eram uma homenagem a um herói real, que morreu lutando contra a causa do apocalipse que os atingiu e, munido da maior arma de seu herói, o garoto se tornará Turbo Kid e partirá para resgatar Aplle e derrotar o Infame Zeus.

        Não se assuste se a sinopse do filme parece brega, realmente era para ser assim. “Turbo Kid” é uma homenagem despretensiosa ao cinema de baixo orçamento dos anos oitenta, sendo um dos primeiros a seguir a moda ditada pelos "Guardiões da Galáxia" (2014) de James Gunn, porém se assemelhando mais com os filmes anteriores do diretor, como "Super" e "Projeto Belko" devido a sua mistura de humor e ação visceral, do que com o milionário Blockbuster da Marvel studios. 



     Já no inicio do filme, quando somos apresentados ao universo da trama, temos um pequena mostra do que está por vir, quando depois de ouvirmos um narrador contar um pouco do que houve com a sociedade, recebemos o mórbido aviso “Bem vindos ao futuro, bem vindos a 1997”, como se filme fosse realmente uma produção oitentista. Logo após isso conhecemos o protagonista e visualizamos sua rotina de catador, que após encontrar algo que possa trocar por água e comida, segue seu caminho em um vídeo clipe super para cima, típico dos filmes da sessão da tarde, com o garoto voltando para casa em sua bicicleta cross e ouvindo rock carregado de sintetizadores e teclados em suas fitas cassetes enquanto desvia das cabeças de pessoas desavisadas cravadas em estacas pelo caminho.

     
Vilões e Heróis de Bike
Mas não pára por aí, além da influência musical e visual dos anos oitenta, o filme também traz diversas referências, como a temática frequente de mundo sem água, como no clássico trash "Crepúsculo de Aço" (1987) estrelado por Patrick Swayze e falta de combustível, tal qual "Mad Max". Sobre a falta de combustível, o roteiro toma uma decisão totalmente crível, que é , na falta de motores a explosão, todos andam de bicicleta; o que faz sentido e ao mesmo tempo dá um ar cômico a trama, com todo mundo pedalando pra lá e para cá. Já no tocante a falta de água, a história toma contornos mais mórbidos, apresentando uma máquina que transforma pessoas em água pura, que é o que Zeus o vilão está fazendo e para tal
capturou Apple, assim como Frederic, o chefe da Gang Rival, que se tornará um futuro aliado de Turbo Kid.


      Mas não é só isso ( o Gerente enlouqueceu) mais tarde descobrimos que o que levou a destruição da sociedade é mais um clichê dos tempos dos permanentes e roupas multi coloridas, que são ... os robôs! Sim, meus amigos, quem destruiu o mundo como conhecemos, foram os seres mecânicos  revoltados, em uma homenagem nada discreta ao "Exterminador do futuro", com a vantagem de que nesse mundo alguns robôs ficaram de boa com as pessoas e até se apaixonam por elas (ops!)

     
Melhor Arlequina
No entanto, sem só de referência vive esse filme, ele também influenciou outra trama, ainda mais trash que ele mesmo. Sim senhores, Turbo Kid também é cultura e com a personagem da Apple, deu base a outra personagem também empolgada e insana, mas que diferente da original canadense,
alcançou muito mais sucesso (embora seu filme seja muito pior), trata-se da Arlequina de "Esquadrão suicida", que até hoje brilha nos coraçõezinhos dos DCnautas, sem que muitos desses saibam que um anos antes, em um filme com um décimo do orçamento, uma atriz desempenhava exatamente o mesmo papel E O MUNDO PRECISA SABER DISSO!!!


      Além de tudo, o filme tem uma sequência final de combate que mistura comédia pastelão, violência em excesso e sangue sem fim, que me fizeram aplaudir de pé sem saber exatamente por qual das razões.

        
      Pois então, "Turbo kid" está lá, flutuando tranquilamente entre outros diversos títulos naquele bendito serviço de streaming; discreto e impassível, mas certeza de diversão garantida. Um filme que mostra que não é preciso gastar malas e mais malas de dinheiro em um filme para que ele seja divertido e nem atola-lo em efeitos especiais para chamar a atenção, basta uma boa ideia e alguns atores desconhecidos para aceitar o trabalho. Um filme que caminha entre o cômico e o Gore, mas abraça com força os clichês da década de 1980 sobre o apocalipse e que me arrancou muitas risadas nesse meu mês tão sombrio.




quarta-feira, 6 de setembro de 2017

ATÔMICA (2017)



O Ano é 1989; Nos E.U.A, Bush pai assumia seu cargo de presidente; Na China, um estudante desconhecido parava uma coluna de tanques durante o protesto na praça da paz celestial; A Rússia se retirava do Afeganistão e no Brasil, Raul Seixas morria e Pedro Bial fazia sua mais relevante reportagem informando que o muro de Berlin caia, dando fim a vinte oito anos de divisão alemã. É durante esse período tão conturbado de nossa história que se passa a trama de um dos grandes filmes de 2017 e que aguardei ansioso desde seu primeiro trailer, trata-se “Atômica”, Thriller de espionagem e ação dirigido David Leitch e estrelado pela maravilhosa Charlize “Furiosa” Theron que estreou no final de Agosto para fechar o mês com um tiro certeiro e abrir Setembro com o pé na porta.

O filme conta a história de Lorraine Broughton (Charlize Theron), uma agente da MI6 que, após o assassinato de um colega em Berlin, que possuía uma lista contendo o nome de todos espiões em operação dos dois lados do muro, é enviada para Alemanha e incumbida de recuperar o material, que além de tudo possui a identidade de um perigoso agente duplo.
Às vésperas da reunificação alemã e contando com a parca ajuda do chefe da estação local, o pouco ortodoxo David Percival (James McAvoy), Lorraine terá de usar todo seu charme e talento como especialista em combate corpo a corpo e evasão para sobreviver ao derradeiro e mais sangrento jogo de espiões da guerra fria.



Cara, sabe aquele filme que consegue ser tão equilibrado, mas tão equilibrado que se você largar em uma corda ele fica paradinho? Pois Atômica é isso. Atuações convincentes, cenas de luta e perseguição de tirar o folego, reviravoltas na trama, fotografia e figurino bonitos, locações caprichadas e trilha sonora matadora, tudo muito bem organizado dentro de menos de duas horas de filme e que merecem ser creditados tanto à competência do diretor David Leitch, que vem crescendo no mercado de filmes de ação, quanto ao talento de Charlize Theron, que mais uma vez rouba a cena com sua atuação e carisma.

Quanto ao diretor, fica fácil reconhecer sua assinatura gráfica e estilo ágil quando comparamos "Atômica" com outro de seus filmes que foi bastante comentado, que é "John Wick" (2014), com a diferença que na nova produção Leitch mantém a ação frenética mas prende os pés no chão, o que não o impede de ousar, passeando com a câmera por ângulos que colocam o espectador quase como se fosse um passageiro durante uma perseguição de carros ou estivesse no meio das cenas de luta e tiroteio, nos presenteando com longas tomadas sem cortes e planos abertos que acabam por detalhar cada intenção dos presentes na tela sem a necessidade de quase nenhum diálogo, essa confirmação de estilo me fez, mais do que ficar empolgado com a história que estava assistindo, me sentir aliviado ao pensar que a sequência do filme do Deadpool está em mão competentes e capazes de superar a divertidíssima produção comandada por Tim Miller em 2016.

Já Charlize Theron está realmente magnifica, arrancando o fôlego de quem assiste ao filme e os dentes e sangue de seus inimigos na trama. A atriz Sul africana se reinventa mais uma vez e consegue deixar no passado seus papeis anteriores, como a marcante "imperatriz Furiosa" de "Mad Max" e Aileen Wuornos de "Monster" que lhe rendeu um Oscar; suas cenas de ação em nada ficam devendo às dos protagonistas de outros prestigiados filmes de espionagem e ação como "Jason Bourne", "John Wick" ou "James Bond", sendo que as coreografias de luta, os planos aberto e luz explorada pela produção parecem dar vantagem a Theron que, transparecendo força e sobriedade na atuação, se distancia de forma gigantesca de outras atrizes que também costumam viver papeis outrora interpretados apenas por homens e que, quase sempre, mostram uma postura quase caricatural repleta de caras e bocas pouco convincentes, como Angelina Jolie em "Tomb Raider" e "Salt", Mila Jovovich em "Resident Evil" e mais recentemente , Scarlett Johansson em "Ghost in the shell", sem contar que a atriz Sul Africana ainda abusa do charme e da beleza como armas fatais no jogo de espiões que sua personagem se envolve de forma infinitamente mais convincente do que mostrado em qualquer filme do gênero antes. Fatos que afirmam Charlize Theron, com "Atômica", como um dos grandes nomes femininos do cinema de ação.

O filme ainda tem a trilha sonora carregada com músicas da época em que se passa a trama, como arma secreta para mergulhar ainda mais o expectador dentro do universo explorado, tocando pontualmente canções consagradas como "Cat People" de David Bowie, "99 Luftballons" de Nena, "Father Figure" de George Michael, "Blue Monday" do New Order, entre outros grandes sucessos que ambientam o expectador naquele mundo e dão o ritmo e direção do filme com um artificio que parece ter se tornado moda desde "Guardiões da Galáxia" e que nesse filme funciona tão bem quanto, embora fique mais em segundo plano do que no filme da Marvel de 2014.

E Falando em Marvel, é importante lembrar que "Atômica" também foi baseada em uma HQ. A obra original, intitulada "A cidade mais fria" (Berlin, dividida pela Guerra fria, entendeu a referência?) foi escrita pelo inglês Antony Johnston e desenhada pelo ilustrador inglês naturalizado brasileiro Sam Hart e que pelo o que ouvi falar, posto que não li a HQ, é bem diferente do filme, principalmente no tocante a ação, o que , a meu ver dá mais crédito ao produção, por conseguir entregar uma releitura da história, que pega seus principais elementos acrescentando outras questões e escolhas, sem descaracterizar por completo sua intenção de mostrar um jogo de espionagem durante do declínio da cortina de ferro. Um exemplo que fica para os adaptadores de obras originais (em especial aos serviços de Streaming que acham que podem reinventar a roda adaptando animes e Mangás).


Então é isso, Com cenas de ação e perseguição de tirar o fôlego, uma trama cheia de reviravoltas onde ninguém sabe em quem confiar e carregado de estilo, "Atômica" chegou aos cinemas para reafirmar o poder da mulherada e divertir na medida certa. Traz uma protagonista que rouba a cena a cada segundo que surge na tela e um diretor que se firma a cada filme como uma das grandes promessas dessa leva que vem ganhando espaço, somando-se como principais responsáveis por cumprir cada expectativa que os trailers fizeram surgir em mim e me deixando ansioso pelas próximas produções da dupla. Então, que venha Deadpool 2 e que Charlize Theron continue a se reinventar e brilhar sempre... mas o mais importante, não confie em ninguém. 




quarta-feira, 30 de agosto de 2017

CÃES SELVAGENS (Dog eat dog) 2016


 Troy, Diesel e Mad Dog são três ex-detentos a pouco saídos de San Quentin que sonham em dar um último grande golpe. A oportunidade surge quando o Grego, um pequeno mafioso conhecido de Troy, encomenda a eles o sequestro do filho de um rival que deve dinheiro a um de seus associados; com certa relutância, mas pensando no dinheiro, o grupo aceita o trabalho e a partir daí todo o caos que sempre os cercaram toma suas vidas por completo.

   Assim é “Dog eat dog” de 2016, ou como ficou chamado na terra das mineradoras nas reservas florestais, “Cães selvagens”, filme baseado no livro homônimo lançado em 1995 do escritor (e ex-presidiário) Edward Bunker, que ficou mais conhecido por sua participação especial no filme “Cães de Aluguel” do diretor Quentin Tarantino , no papel de Mr. Blue, e , tem como diretor e roteirista Paul Schrader, conhecido por roteirizar grandes clássicos dirigidos por Martin Scorsese, como “Táxi Driver”, “Touro Indomável” e “A última tentação de Cristo” e que ainda faz uma pequena participação interpretando o mafioso Grego.

   Essa mistura dá todo um estilo à produção que consegue unir cenas de violência crua a momentos de puro sarcasmo e humor. A montagem e fotografia do filme lembram além de Tarantino, em muito os primeiros filmes de Guy Ritchie, pela agilidade e por abordar o pequeno sub-mundo e seus atores semi-profissionais. Já as atuações, na medida em que o filme permite, são muito bacanas, começando por Willem Dafoe que interpreta Mad Dog e que além de parecer um maluco (como sempre) nos proporciona uma das cenas de abertura mais viscerais e violentas dos últimos anos, nos mostrando com que tipo de gente que a história vai tratar; Outro que surpreende é Nicolas Cage, que consegue fugir de seus últimos papéis entregando um sutil, almofadinha e violento Troy que, em oposição ao personagem de Dafoe, começa morno e fecha o filme com um banho de sangue.



   Infelizmente, mesmo sendo roteirizado por um mestre e claramente inspirado no estilo de grandes diretores, o filme se perde dentro de si, não sendo possível perceber no decorrer da produção, o que realmente os personagens querem e as consequências mais profundas de seus atos. Precisei recorrer a sinopse do livro (pois não o li) para entender o que realmente movia os personagens e qual suas intenções no primeiro momento, acabando por descobrir, que no livro, a ideia do grupo de criminosos era aplicar golpes em traficantes, agiotas e bookmakers, pelo fato destes não poderem procurar a ajuda da lei para os proteger (daí o nome da história: "cão come cão"!), algo que é mostrado de relance no inicio do filme, mas que parece tão solto na história quanto a última conversa entre os personagens Diesel e Mad dog, que é do nível de uma novela do mesmo canal que passa Chaves.


   Mas mesmo com seus defeitos, “Dog eat dog” é um filme corajoso por suas cenas de violência, onde nem crianças nem velhos são poupados e pelo estilo misturado que causa uma estranheza divertida e certa nostalgia por filmes mais focados na história e não em efeitos especiais ou as atuações mais dramáticas e sérias do mundo, garantindo sensações que resultam em boas risadas, caretas de dor e paralisia por constrangimento, três ingredientes essenciais para fãs de cinema, sejam estes selvagens ou nem tanto.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

BABY DRIVER (2017) ou Em ritmo de fuga.



Já cantava o Rapper Xis que "A Fuga cinematográfica é pra quem pode" e eu comprovei essa afirmação do glorioso ex-participante da casa dos artistas essa semana, após assistir ao melhor musical de ação já escrito pelo diretor Edgar Wrigth e que me fez ter vontade de pegar meu velho Pálio 99 e sair cantando pneus pelas estradas da vida (isso se o carro passasse de oitenta km/h e se eu não o tivesse vendido). Trata-se de "Baby Driver", ou como ficou chamado aqui abaixo da amazônia meridional "Em Ritmo de fuga"; thriller estrelado pelo jovem Ansel Elgort, Jon Hamm, Jamie Foxx e grande elenco , que fez com que duas horas da minha vida passassem correndo tamanha diversão e se juntando a "Get Out" como uma das poucas coisas acima da média que vi no cinema nesse amargo 2017.

O filme conta a história de "Baby" (Ansel Elgort), um jovem motorista de Fuga que trabalha para uma organização criminosa especializada em grandes roubos que é comandada por "Doc" (Kevin Space). Após se ver livre da dívida que possuía com seu empregador, devido a ter roubado seu carro anos antes e , aparentemente , perdido uma valiosa carga; Baby, agora buscando um recomeço ao lado de Deborah (Lily James), é obrigado a fazer mais um trabalho com uma nova equipe composta pelo casal Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eiza Gonzales) e o violento vida loka Bats (Jamie Foxx), sem saber se conseguirá ser tão rápido em fugir de sua vida antiga, como consegue ser quando é perseguido pela polícia.


Que filme bacana! Edgar Wrigth confirma seu talento como roteirista e diretor com uma obra que consegue ser original, mesmo fundamentada em uma tradição do cinema que são os filmes de roubo e fuga, ao inserir uma trilha sonora que se identifica quase como um personagem da trama, flutuando entre diegética e não-diegética o tempo todo e criando tensão e êxtase a cada cenas, chegando a ajudar a aprofundar e revelar um pouco da história do protagonista, inaugurando o gênero "musical de ação", do qual, por ser o primeiro, o próprio filme é o melhor.
Ainda sobre Wrigth, podemos dizer que o filme não funcionaria se não fosse por sua direção. O tom da história, que por momentos chega a ser violenta, mas não perde o bom humor; a montagem ágil e a fotografia remontam de forma clara aos demais filmes do diretor e tornam impossível que outra pessoa guiasse a obra sem que fosse o próprio Wrigth. Outro ponto positivo que faz com que o filme funcione é o ator Ansel Elgort, o cara é muito carismático e consegue transmitir esse carisma mesmo quando fica em um canto, de óculos escuros, em silêncio e ouvindo música (como na cena onde é provocado pelo personagem de Jon Bernthal) , ou quando toma a decisão de agir pensando em si e na namorada, ao final do filme.

Falando em ação, o Wrigth faz jus a sua linhagem de diretor inglês da nova geração, apresentando uma história ambientada no pequeno submundo, tal qual os primeiros filmes de Guy Ritchie e Matthew Vaughn, onde não existem grandes famílias criminosas, ou crimes megalomaníacos, mas o que não impede a apresentação de muita violência e, isso é mostrado de maneira , hora sutil, como quando um personagem simplesmente fala que se não o verem mais é porque ele morreu e , mais tarde, prestando a atenção, descobrimos que realmente isso aconteceu e quem fez; ou, de maneira crua, como quando Baby dá um fim no antagonista mais perigoso e sangue jorra na tela. Essa oscilação de tensão é essencial na construção da crescente do filme, que chega a seu auge quando o protagonista resolve dar um fim em sua antiga vida e enfrentar as consequências disso e , quando acontece, já estamos por completo a seu lado e vibramos com cada coisa que dá certo para ele.



Mas as verdadeiras estrelas do filme, sem dúvida, são as perseguições de carro. Tanto que até mesmo eu, que não sou nenhum aficionado por veículos automotores, fiquei com vontade de acelerar no meio do trânsito (vontade que me foi saciada jogando "Need for Speed" com meu filho (no play 2)). Embaladas pelas músicas presentes nos ipods do protagonista, temos cenas de ação onde a principal arma é o volante de um carro e as cenas são tão bem conduzidas, que mesmo longas, não parecem repetitivas ou cansam, outro mérito da montagem e direção.

Mas nem tudo é perfeito em "Baby Driver". Uma coisa que senti falta é um aprofundamento maior nos demais personagens, em especial ao do par romântico de Baby, Deborah. Não sabemos nada sobre ela, a não ser que teve uma mãe doente e que ela trabalha em uma lanchonete (e odeia isso), seu personagem é quase vazio de pretensões ou ambições, a não ser a única que combina com o protagonista, que é fugir da vida que leva, mas nada explica o que a leva a espera-lo (spoiler) por 5 anos, quando baby acaba preso ao final do filme. O próprio Doc e seu bando também sofrem desse mal, acabei o filme querendo saber mais sobre a história do personagem do Kevin Space, que chega a levar o filho de oito anos para investigar o lugar de um roubo, ou entender como o personagem de Jon Hamm, que , conforme Batts conjectura, poderia ter sido um alto investidor de Wall street, acabou assaltando bancos com sua striper preferida a tira colo. Mas, mesmo assim, quando a vemos a história do filme como um conto referente a um momento especifico na vida do protagonista, esquecemos esses por menores e vemos que, apesar de sua presença, não diminuem em quase nada a qualidade da produção.

Pois bem, eu poderia escrever um texto com o triplo do tamanho deste, falando de como o filme é divertido e destrinchando cada cena, mas isso acabaria com a experiência de quem pretende assistir ao filme, então vou seguir o exemplo de Baby, o protagonista do filme, e simplesmente acelerar e fugir dessa responsabilidade. Posso apenas dizer, que repleto de cenas maravilhosas de perseguição, ação na medida certa e um trilha sonora de causar inveja ao diretor James Gunn, "Baby Driver" cumpre a expectativa que criou desde seu primeiro trailler e coloca mais uma vez o diretor Edgar Wrigth como destaque pela sua obra autoral. Então se eu fosso vocês não perdia a oportunidade e colocava a melhor música nos fones, os óculos escuros e as luvas de couro e acelerava para o cinema para assistir esse filme que passa correndo de tão bom que é.

                                                      Trailler



                              Acima, 6 minutos da abertura do filme, só para babar



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

SLEIGTH (2017) ou, o truque metalinguístico do boy magia



Muitas pessoas adoram um easter egg, aquelas mensagens escondidas dentro de filmes que fazem referências a outras obras do mesmo universo ou que remetem a outra produção memorável. Tem gente mesmo que se dedica a procurar essas mensagens secretas e nos premiam com surpresas como a do cartaz de "Batman vs Superman" no filme "Eu sou a lenda" de 2007, ou as diversas referências que evidenciam a união dos filmes de um grande diretor, como no caso que inspirou o curta "Código Tarantino", protagonizado por Selton Melo e Seu Jorge. Já eu, que sou metido a diferentão, me sinto maravilhado quando percebo um filme que usa metalinguagem para questionar a si mesmo e se aprofundar nos dilemas do autor ou no tema que se propõem a abordar. E foi esse maravilhamento, com algo tão sutil, que me prendeu no filme "Sleigth" do diretor Justin Dillard, que estreou em Abril na Gringa e chegou até mim por pura mágica.

O filme conta a história de Bo, um jovem mágico de rua que usa seus talentos com truques para sustentar a irmã caçula após perder seus pais. Sem conseguir dinheiro suficiente de maneira honesta, ele acaba complementando sua renda através do tráfico de drogas, trabalhando para um conhecido nas noites de Los Angeles. No entanto, após conhecer uma garota especial e tentar forçar sua saída do mundo crime adulterando as drogas de seu fornecedor, para assim conseguir mais dinheiro e fugir, Bo é descoberto, tem sua irmã capturada e precisa pagar com juros o prejuízo que que causou a seu empregador ilícito, restando a ele a espera de um milagre financeiro ou a utilização de seus dons para salvar a vida da irmã.

O filme está longe de ser a melhor coisa que o cinema nos proporcionou esse ano, não indo muito além de um drama social com pitadas de ficção cinetífica e um toque de filme de super-herói; seu ritmo é lento e os personagens periféricos são pouco desenvolvidos a ponto de acreditarmos que a única razão da personagem da gatissíma Seychelle Gabriel se apaixonar pelo protagonista seja realmente mágica. Mas, como eu disse acima, o filme me prendeu pela metalinguagem que utiliza para falar de si mesmo desde seus trailers até sua conclusão e isso me entregou satisfação com a produção a ponto de ser relevante para ser resenhada.

O filme todo é uma espiral de metalinguagem, começando por seus trailes. Seus primeiros vídeos promocionais são um embuste, fazendo com que acreditemos que a trama aborda a história de um rapaz que, de alguma maneira, possui super-poderes; o que não é de todo mentira, mas que não ocupa nem quinze minutos da trama e após assistirmos a produção, percebemos que a intenção dos responsáveis era utilizar um truque ("sleigth" em inglês) para que olhassemos para outro lado enquanto tinham a pretenção para falar muito mais das dificuldades de um jovem talentoso em criar a irmã sozinho em meio a um ambiente de violência e descaso social, do que do nascimento de um super-herói.


Já no filme em si, o constante close nas ferramentas do protagonista, onde vemos tanto equipamento para manutenção de eletrônicos como um enorme poster de Houdini, o mítico mágico rei das fugas, fazem referência ao próprio protagonista, ele mesmo procurando uma maneira expetacular de se livrar das correntes que o prendem na situação que se colocou, sendo sua inteligência e talento a chave para isso. Outro fato é que temos alguns diálogos que abordam os talentos especiais do protagonista e sua moral, o que no decorrer da história vão ser mostrados (ou não), como quando conversando com sua namorada, Bo conta que se apaixonou por mágica ao conhecer um ilusionista de rua que atravessava a própria mão com uma faca e que lhe disse que só revelava seus truques a companheiros de profissão, o que ocorreu anos depois quando ele voltou a encontrar o mágico e este lhe disse como fazia, o que é , também, um espelho de como o próprio Bo, consegue fazer; esse diálogo vai fazer ainda mais sentido ao final da história, quando após dizer para , agora sua companheira, que estava trabalhando em um truque novo, vemos apenas a surpresa no olhar dela, ao espiar a oficina do protagonista por uma fresta na porta, como se o segredo não pudesse ser revelado para nós, mero público.

Mas como já comentado, nem todos os truques que dão movimento ao filme funcionam. Se somando ao pouco desenvolvimento dos coadjuvantes e ao ritmo da história que por vezes cai abruptamente, a trama possui alguns arcos que não se concluem e isso interfere direto com o fechamento do próprio protagonista, como no caso de seu relacionamento de fornecedor de drogas e cliente com a personagem de Cameron Esposito, que é a gerente de uma boate. Em determinado momento, Bo sem saber mais o que fazer para conseguir o dinheiro do resgate da irmã, furta uma determinada quantia do cofre da cliente e foge, quebrando um elo de confiança que havia entre os dois personagens desde o início do filme, mas as consequências dessa quebra não são mostradas e ficamos sem saber o que houve com a moça e tão pouco vemos arrependimento ou questionamento por parte do protagonista ao final. Outra situação semelhante é a ocorrida com o antagonista da história, que passa quase toda trama falando em respeito e utilizando de métodos agressivos contra quem ousa desafia-lo (chegando a mandar amputar a mão de um rival) , mas que após o embate final se mostra um covarde e assustadiço bandido de faz de conta, quase não colocando empecilhos na atitude do protagonista para salvar a irmã, fatos que somados ao final da história, onde vemos Bo continuando a fazer mágicas na rua, demonstram que o personagem não teve o crescimento que deveria após tudo que viveu, o que torna toda a jornada vazia.

Entretanto, em meio a muitos furos de roteiro e altos e baixos na trama, me diverti com o truque que o filme faz consigo mesmo buscando nos enganar como se a própria história contada fosse um mágico. Seu tom é bacana, lembrando a estrutura de um pequeno conto, sem pretensão de se estender além do que quer mostrar, o que em épocas de franquias gigantescas e universos que não terminam de se expandir nunca por vezes cai bem. Então se assim como eu, roteiros que se aprofundam dentro de si mesmos te agradam e não ser enganado pelo trailer não te ofende, ALACAZAM, esse é um filme que talvez você goste de assistir.