segunda-feira, 16 de abril de 2018

UM LUGAR SILENCIOSO (2018)




  
  O barulho do trânsito, gargalhadas na mesa do lado, o telefone tocando, as pessoas falando alto, um copo se estilhaçando no chão, o filho chamando a todo o momento, o cachorro latindo, a música alta do vizinho. A vida é um turbilhão de sons tão altos e constantes que depois de certa idade, o silêncio começa a se apresentar como uma das mais belas melodias que se pode apreciar. Mas, e se a busca por essa ausência de som deixasse de ser uma fuga opcional e se tornasse a regra básica para sobrevivência?

  Pois o silêncio é o tenso fio condutor da trama de “LUGAR SILENCIOSO”, filme estrelado por Emilly Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe e John Krasinski (que também roteiriza e dirige o longa) que estreou no último dia cinco de Abril aqui no Brasil e que vem deixando os espectadores sem palavras.

 
Krasinski e Jupe (não fala!)
O filme, que se passa em 2020, mostra um mundo devastado por misteriosas criaturas cegas e extremamente brutais, que atacam qualquer coisa que emita um ruído mais alto que um sussurro. Nesse mundo, encontramos uma família que, fugindo da cidade, parte para o campo para tentar sobreviver da melhor forma possível sem emitir um único barulho; mas os traumas de uma tragédia e a expectativa da chegada de mais um filho podem por em risco essa frágil segurança e atrair para perto seus maiores medos.

    O longa é uma grata surpresa em meio a mesmice de filmes de super-heróis e blockbusters descerebrados, apresentando uma trama original, concisa e extremamente tensa, que faz o expectador passar todo filme preso na cadeira com medo até de fazer barulho ao engolir a saliva. Comer aquela tradicional pipoca então, nem pensar!

   A história é simples, mas bastante profunda e lembra um conto curto no melhor estilo Stephen King ou H.P Lovecraft! Na verdade, guardados os estilos e peculiaridades desses autores, a história de “Um lugar silencioso” me parece uma acertada mistura de temas que esses dois autores sempre exploraram em suas obras; com toda ambientação e apresentação do cotidiano e os conflitos da família lembrando o que King mostra em algumas de suas obras, como em “O nevoeiro” ou “O cemitério”, e, o recorrente contato com o estranho e desconhecido, sempre presente nos contos de Lovecraft, que paralisa e enlouquece qualquer um.



  A trama lembra em parte, o filme “Sinais” do diretor Shyamalan, pela locação situada em uma remota fazenda ou pela situação de abandono em que os protagonistas se encontram e que não tem a origem revelada; porém seu clima de tensão remete mais ao novo estilo de suspense, que me parece ter em “Corra!”, de Jordan Peele, o maior expoente, devida à uma atmosfera  opressora que não dá pausa, apenas oscila.

   Essa semelhança com o sucesso de 2017 do diretor Jordan Peele, ainda parece mais justificada quando traçamos um paralelo entre os diretores, ambos conhecidos por suas carreiras em papéis em comédias (Peele por “ Key & Peele” e Krasinski por “The Office”) e surpreendentes na entrega de roteiros originais e marcantes, além de uma direção extremamente competente.

     
Blunt & Simmonds (quietinha)
Ainda falando de competência e surpresa, talvez essas sejam as palavras que definam o elenco, que brilha de acordo com a intensidade que a história permite. Começando pela a atuação do próprio John Krasinski, por ainda tê-lo na memória como o debochado Jim Halpert de “The Office” e o vê-lo convincente como um sério e preocupado pai que, em um mundo sem esperança, se propõe a fazer qualquer coisa para manter sua família segura. Outra maravilhosa surpresa é a atriz adolescente Millicent Simmonds, que é realmente surda, e que contando com suas expressões e muito talento consegue transmitir todo medo e revolta por viver em um mundo sem futuro e nele carregar uma culpa capaz de dilacerar qualquer pessoa.  Até mesmo jovem Noah Jupe, que tem o papel menos profundo na trama, consegue passar verdade com o pavor que mostra nos olhos ao se deparar com os monstros que cercam a fazenda e fazer com que nos preocupemos com ele. Já Emilly Blunt, por sua vez, só me surpreendeu, quando descobri que a química que ela apresentava na tela com Krasinski se devia ao fato deles serem casados na vida real, de resto ela repete a competência que a destacaram em filmes bacanas como “Sicário” e “No limite do Amanhã”.   

    Gostaria de falar muito mais do filme, mas sou consciente que FALAR demais sobre essa obra, pode estragar a experiência. Só posso dizer que “Um lugar silencioso” se tornou para mim um novo clássico de maneira quase instantânea. Apresentando uma história que não debocha da inteligência do espectador, mas que nem por isso é rasa ou pouco relevante. Aposta na tensão constante, mas reserva momentos de pura emoção e sentimento, agradando tanto pela química que mostra entre seus personagens, quanto pela inovação com que a história é contada. Um conto de terror com traços dos grandes mestres, mas que fala por si mesmo até quando ninguém em cena profere um único som e que, de maneira sútil, nos faz sermos gratos pelos sons de vida em nosso redor.



domingo, 8 de abril de 2018

PANTERA NEGRA (2018)






    Tenho imensa dificuldade de escrever sobre o que, a mim, se encontra muito acima da média. Por esse motivo, dentro dos estilos que me atraem mais, nunca escrevi sobre o livro “1984” e os filmes “Batman: Cavaleiro das trevas” e “Capitão América: Soldado invernal”. No entanto, existe casos tão extraordinários que mesmo sabendo da minha inabilidade em abordar os porquês de sua real relevância, é impossível não registrar minha rasa opinião.

  Uma dessas exceções é o filme de maior sucesso do ano, que, além de levantar a autoestima de um público que se via apenas como coadjuvante, vem colecionando recorde atrás de recorde e mostrando que o tido como “exótico” ou fora do padrão, quando trabalhado com talento e honestidade podem ser a receita do sucesso. Trata-se de “PANTERA NEGRA”, o décimo sétimo filme da Marvel, Dirigido por Ryan Coogler e estrelado por Chadwick Boseman, Lupita Nyong’o, Michael B. Jordan e grande elenco, que chegou de forma sorrateira e mostrou suas garras ao mundo.


O filme dá sequência a história do príncipe T’challa (Boseman), o Pantera negra, apresentado em “Capitão América: Guerra Civil”, com o herói retornando à seu reino, a misteriosa e desenvolvida, embora dissimulada como país de terceiro mundo, Wakanda; para enterrar seu pai, morto durante a trama do terceiro filme do líder dos vingadores,  dar inicio aos rituais de sua coroação e  tratar de assuntos  de interesse do estado como  a captura do inimigo número um do país, Ulysses Klaue (Andy Serkis). É durante essas suas  obrigações que T’challa  se vê diante de um antagonista à sua altura e uma verdade capaz de o fazer questionar os valores que fazem um rei.

  O Filme consegue dar sequência aos já habituais sucessos da Marvel, ao mesmo tempo em que inova ao apostar em uma trama mais séria mirando em assuntos  como a questão da crise dos refugiados, racismo e representatividade, mas sem com isso perder nada em diversão e ainda, de quebra, apresentando uma mitologia jamais antes mostrada com o valor merecido, e que disse a quem quis ouvir, com o sucesso do filme, que deve continuar sendo explorada.

   Essa mitologia, que dá  protagonismo as cores e ritmos da África, é em grande parte o segredo do sucesso do filme. A cultura africana, que sempre foi, de forma preconceituoso, tida como algo de segunda linha e de menor valor para uma sociedade que sempre foi norteada por padrões europeus e que vem sendo descoberta como rica e digna de orgulho pelas novas gerações, se une a ficção científica e uma trama de espionagem para colocar na tela um filme onde o negro é protagonista de sua própria história e capaz de a resolver sem o intermédio de nenhum salvador externo seus problemas e os de quem os cerca.

   Mas para uma trama que fuja tanto do padrão habitual fazer o sucesso que o filme vem fazendo, ainda mais dentro do universo dos super-heróis onde a representatividade ainda é mínima, é necessário um elenco capaz de fazer com quem assista ao filme acreditar no que está vendo. E isso é uma das maiores certezas do filme e o segundo motivo que levaram “Pantera negra” a se tornar uma das dez maiores bilheterias de todos os tempos. Com atores do nível de Chadwick Boseman , Lupita Nyong’o,  Michael B. Jordan, Danai Gurira, Daniel Kaluuya,  Forest Whitaker entre outros, representando personagens imponentes e orgulhosos, sem dizer que tridimensionais e sem a mínima carga de submissão a uma sociedade que os subestima, fica ainda muito mais fácil ao filme divertir, ao mesmo tempo que passa uma mensagem sutil de amor  próprio e orgulho das raízes, sem precisar diminuir caricaturar ninguém que é diferente.

  Sabendo do segredo do sucesso do filme, que, como já disse, a meu ver, são resultado da química entre a mitologia apresentada e o elenco de talento, não posso deixar de falar também de outras três peças chaves em “Pantera Negra”, que são o protagonista que se impõem sem precisar sabotar os demais personagens, O vilão que consegue passar uma mensagem a ponto de ser compreendido e a força das personagens femininas que sustentam a trama.

   Sempre fico feliz quando a trama não mima o protagonista, precisando diminuir os que o rodeiam para eleva-lo e, em “Pantera Negra”, isso acontece abertamente. A história protagonizada por T’challa se mantém forte, mesmo quando ele não se encontra em destaque, mas quando o mesmo está em cena, consegue impor sua força a ponto de se tornar marcante, tanto através dos conceitos e valores que formam o personagem, quanto pela imagem do herói e da  atuação bem a vontade que Chadwick Boseman consegue transmitir.

  Quanto ao vilão Erick Killmonger , interpretado por Michael B. Jordan (que mesmo com tudo que faz, o vejo mais como antagonista), O fato de começar em um papel secundário dentro dos próprios opositores do protagonista na trama  e ir crescendo a ponto de se tornar um oponente à altura do herói e com motivos críveis, como a vingança pelo pai e a revolta por ver seus iguais abandonados por Wakanda, quase fazem que esqueçamos seu extremismo e violência, só relembrando nas cenas finais do filme, mas que são abafados, ao término da história, por uma das frases que o filme deixou marcada, colocando Killmonger como um dos antagonistas memoráveis do cinema atual.

"Jogue-me no oceano com meus antepassados que pularam dos navios, porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão." Killmonger

   Em terceiro, mas não menos importante, temos a força feminina presente na trama. E que força! Não é preciso muita atenção para ver que as mulheres dão o movimento ao filme. Seja com a inteligência de Shuri, a irmã caçula do agora Rei T’challa, que cria diversos dispositivos de espionagem ao herói, além de ser o personagem responsável pelo bom humor e uma pitada de inocência na trama, colocando alguns sorrisos e nós  na garganta de quem assiste ao filme. Do mesmo modo temos Nakia (Lupita Nyong’o) que embora interesse romântico do herói, não se limita ao papel de donzela apaixonada e além de colocar a mão na massa, trabalhando como espiã e guerreira, ainda trás para o herói, questionamentos quanto ao posicionamento do país frente aos problemas do mundo e tomando para si a responsabilidade de defender o reino, quando Killmonger surge e T’challa some. Também não podemos deixar de falar das Dora Milage, A guarda pessoal do rei de Wakanda, composta só por mulheres, que tem na general Okoye (Danai Gurira) seu principal nome; é ela que tem grandes cenas de ação, como no Cassino clandestino e na perseguição de carros pelas ruas de Seul, mas que também empresta força dramática ao demonstrar, após metade do filme, o peso da dedicação total ao estado que o cargo exige e que simboliza o sacrifício de algumas escolhas exigem, situação que  fala ainda mais alto observando sua condição feminina e os desafios e obstáculos que nosso mundo impõem às mulheres fortes.
  
Nakia & Shuri
    “Pantera Negra” é um sucesso de público e critica. Surpreendeu o mundo ultrapassando a marca de um bilhão de dólares arrecadados ao redor do globo e reafirmou o orgulho de um publico acostumado a se ver no cinema como elenco de apoio ou vilão, quase sempre marginalizado ou precisando de ajuda. Tornou-se uma marca no cinema e símbolo de orgulho ao mostrar para sociedade que filmes de pessoas negras, onde a eterna luta para se destacar contra o preconceito não é o assunto principal, mas sim uma trama onde o negro, visto como pessoa, seja dono de sua história com altivez e orgulho, dá destaque ao estúdio e muito lucro, sem contar que gera a empatia em quem, antes não acostumado a assistir um grande filme ambientado na África (mesmo um África imaginária) agora enxerga com mais facilidade o negro em todas as facetas, seja de vilão, herói, piadista, cientista, rei ou soldado mas principalmente longe do estereótipo.

    Por essas e outras acredito que “Pantera Negra” já é o destaque do ano, mesmo que tenha estreado em Março e se causou certo desconforto em algumas mentes mais reacionárias que não conseguem admitir o empoderamento do negro devido a uma África fictícia, mas que vibram com sete reinos mágicos e Asgards encantadas, a mim só trouxe felicidade por tudo que expus no texto acima, me ajudando a desbloquear minha capacidade de escrever sobre algo que, a mim, está acima da média dentre seus iguais e afirmando a certeza de querer assisti a mais histórias de Wakanda e seu protetor nos cinemas em breve.  

 Wakanda Forever!



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

KINDRED - LAÇOS DE SANGUE (de OCTAVIA E. BUTLER)




     Se não enxergarmos o que é tido como diferente presente em todas as áreas da sociedade o encararemos como um erro, onde apenas a bolha onde vivemos será percebida por nós como verdade absoluta; por isso eu digo: Representatividade é tudo!

   Mas não é a simples presença física de pessoas de diferentes cores, opções sexuais ou religião que garante o rompimento da bolha onde nos incluímos, mas a possibilidade de se criar empatia a ponto de nos reconhecermos nas pessoas de aparência e opções diferentes de nós mesmos e nisso, a cultura como um todo tem um papel essencial, mas em especial o cinema e a literatura em suas facetas tidas como pop. Tudo isso talvez seja  uma verdade quase intuitiva, mas que ficou mais clara para mim, quando me deparei com uma obra de sci-fi clássica, que utilizando de clichês de ficção científica e fantasia, me entregou uma mensagem poderosa sobre os males que o preconceito cristalizou em nossa sociedade, em uma trama fruto da mente de uma pessoa que viveu muitos desses males.

    Pois hoje falarei (muito por cima) dessa obra, ou melhor, desse livro que se enquadra perfeitamente no seleto grupo dos “rompedores de bolha” e que me conquistou desde seu prólogo. Trata-se de “Kindred - Laços de Sangue”, um clássico da escritora afro-americana Octavia E. Bluter, que depois de quase quarenta anos de seu lançamento original, finalmente chega o Brasil pela editora Morro branco, me prendendo em suas páginas não só pela sua mensagem dura mas necessária, quanto por sua escrita refinada e ágil.

  
   O livro conta a história de Dana, uma escritora, que após se mudar com o marido Kevin (também escritor), para a casa nova, se vê vítima de um misterioso fenômeno de viagem temporal, retornando para a Baltimore escravagista pré-guerra civil americana, uma época nada fácil para uma mulher negra como ela (principalmente uma que possua educação e espírito). Conforme o fenômeno vai se repetindo Dana descobre que o mesmo é fruto de uma misteriosa ligação com um antepassado, seu tataravô Rufus Weylin, filho de um proprietário de escravos, que quando sente sua vida ameaçada a invoca para que essa o ajude. Além do estranhamento da situação, Dana viverá o dilema de ter que defender seu antepassado, que é fruto da época de abusos onde nasceu, para que ela mesma tenha seu nascimento assegurado, enquanto é obrigada a testemunhar a abertura da feriada que a escravidão causou e que o preconceito e a ignorância não deixaram cicatrizar até os nossos dias.
  
      Esse livro me causou inúmeras sensações, a maior foi a da descoberta de Octavia E. Bluter e todo seu talento. A autora, não vulgarmente chamada de A grande dama da ficção científica, realmente me impressionou com sua forma de escrever limpa e pé no chão (e em um livro de sci-fi!), conseguindo transmitir não só toda a dor do período escravagista de maneira sutil, como a própria aflição de seus personagens negros do século XIX, que transitam no livro como não pessoas, posses de outros e fadados a passar o resto de seus dias contendo seus sentimentos e indignações; mas também, nos entregado na sub-trama, a cicatriz social que a  escravidão deixou ao apresentar no tempo atual (1976) uma mulher negra  casada com um homem branco (Dana e Kevin), que sofrem o desprezo de suas famílias devido a esse casamento, ainda nada comum nos EUA dos anos mil novecentos e setenta, indicando, sem precisar escrever nada que aprofunde a situação, a marca de um racismo, mais velado do que explicito, que continua presente até os dias de hoje; sem falar da maneira totalmente realista que a autora descreve o relacionamento e rotina do casal, nos tornando cúmplice de seus segredos e testemunha de seus sentimentos.

     A leitura também me fez refletir quanto a pouca quantidade de autores não-brancos e não-masculinos que eu posso dizer que li e o que eu perdi com isso. Fora os clássicos como Machado de Assis ou Alexandre Dumas e “Batle Royale” de Kouachum Takami, quase todos livros da minha lista são de Europeus ou Euro-americanos e no que se trata de mulheres não é muito diferente, mulheres negras então, não havia nenhuma. Octavia E. Bluter veio para mudar isso ao se apresentar para mim, como um desses autores que quando terminamos de ler uma de suas obras, sentimos vontade de ler todas, nos induzindo à representatividade através do puro talento.

    A história da autora e a consciência da sociedade onde vivia e que lembra um pouco como enxergo a nossa, sem contar o fato de, pela primeira vez, tive a oportunidade de ter contato com uma obra de ficção científica escrita por uma pessoa da mesma etnia que eu, realmente me tocou, pois como disse no início, representatividade é tudo! Mas esse fato sobre “Kindred” que é importante para mim e para poucos, se encontra além do livro, dentro dele há uma história de drama e aventura, desenvolvida de maneira magistral que fala sobre como somos adestrados para aceitar os abusos e não perceber muitos de nossos próprios privilégios. Isso acontece através da relação de Dana e Rufus, a primeira uma mulher negra educada e culta do século XX, se vendo exposta a todo tipo de violência do período da escravidão e que vai se quebrando frente a esse novo mundo; o outro, uma figura do século XIX, que, conforme Dana vai retornando no tempo e acompanhando seu crescimento, vai se corrompendo e se mostrando cada vez mais consciente de seu papel.

     
Octavia E. Butler (1947-2006)
 
É por meio de Dana e Rufus, e suas interações com as pessoas em sua volta e como estas relações vão mudando com o tempo, que a autora nos demonstra a força que o mundo que nos rodeia tem sobre nós. A relação com o poder é inversamente proporcional no que tange aos dois personagens e, enquanto Dana vai se acostumando com as ordens, por mais que se convença de que é para o bem de seus antepassados e seu próprio, se quebrando no processo, ao ponto de terminar o livro transformada em outra pessoa; Rufus vai se acostumando com sua posição de poder e privilégio e mudando de um menino compreensivo e sensível, para um adulto egoísta, que não enxerga as pessoas diferentes dele como outros seres humanos e se vê como superior. O Alvo desse egoísmo e que acaba se tornando um dilema para o próprio Rufus é, Alice, uma filha de escravos, que ele nutre uma paixão desde jovem e cuja relação se equilibra entre sentimento verdadeiro e coisificação; Alice também acaba por sofrer devido a influência de Dana, que sabendo que descende desta com Ruffus, ajuda o mesmo a conseguir o que ele deseja, transcrevendo a amarga existência de um indivíduo que é desumanizado sem chance de ser ouvido ou ter opção, restando o final nada feliz para Alice e a Justiça (ou vingança) para Rufus.

    A Autora ainda inclui, em uma das regressões no tempo, a presença do marido da protagonista, que serve como “olhos brancos bem intencionados”, que enxergam as barbaridades da época e se indigna, mas, por não possuir a mesma ligação com a situação que a protagonista, acredita que as coisas poderiam ser ainda pior. De forma genial, Kevin está lá para representar os brancos que são despidos de preconceito (e ele faz isso se pondo em risco muitas vezes), mas não possuem a mesma história de vida de quem sofreu o preconceito na pele; algo tão comum como o próprio preconceito e que, no livro, deixa profundas cicatrizes ao personagem quando este volta para seu tempo natal.

     Eu poderia falar durante páginas e mais páginas sobre “Kindred”, mas preferi não me aprofundar mais para não acabar com a experiência de ninguém, o que posso dizer  é que este é um livro essencial para quem é, além de fã de fantasia e ficção científica, amante da literatura. Uma obra de escrita ágil, personagens fortes e marcantes, questões amplamente relevantes e que ainda hoje são debatidas. Fruto de uma mente a frente de seu tempo, que usando os conceitos Pop levou a todos um retrato da ferida que legitimou o preconceito racial nos EUA (e no mundo), assim como, por meio de seus personagens, mostra a facilidade de se quebrar frente ao poder, ou não enxergar seus privilégios. Um livro que me fez sentir mais do que satisfeito, como me presenteou com outro autor para ler toda obra; uma mulher que, depois de 424 páginas, posso dizer que me representa na ficção científica e como bem se sabe, representatividade é tudo!




domingo, 4 de fevereiro de 2018

O ABUTRE (do Homem-Aranha) e a importância de um bom vilão





      Já faz um tempinho que ando deixando de lado os filmes e séries de Super-heróis. Para eu perder meu tempo com um filme desse estilo, ele tem que conversar muito comigo e já que isso não vem ocorrendo , não fiz a mínima questão de assistir “Justiceiro”, passei longe “Defensores” e “Punho de ferro”, corro da série do “Flash”, desligo a TV quando passa “Arrow” e, só assisti “Thor: Ragnarok” depois que todo mundo concordou que era uma comédia e “Liga da Justiça” para dar minha última chance a DC/Warner. Mas virou e mexeu e um dos filmes que me empolgou quando anunciado (mas que não tive paciência para ir conferir no cinema) surgiu na minha TV em um sábado ocioso, trazendo a mim uma surpresa que valeu suportar as mais de duas horas de sofá em um dia de trinta e três graus . Trata-se de “Homem-Aranha: de Volta ao lar” e um dos melhores vilões do universo cinematográfico da MARVEL (e Sony) até o presente momento.

   Pois bem, Sobre o Homem-aranha, não há nada que eu possa acrescentar ao falar do filme do amigão da vizinhança, a não ser afirmar que essa nova produção é infinitamente melhor que as protagonizadas por Andrew Garfield (que se diziam espetaculares) e que as piadas características do selo Marvel fazem muito mais sentido nessa trama do que em uma história do Capitão América ou do Thor (embora esse último seja bacana, como eu disse na resenha), mas o que mais chamou minha atenção é o personagem interpretado por Michael Keaton (O Abutre), que no meio de situações incríveis e fantásticas consegue transmitir a credibilidade que anda faltando aos antagonistas presentes nesse estilo de filme.

  E o que o Abutre tem?


   Para começar, pela primeira vez, vemos a Marvel entregar um vilão com pretensões tangíveis e não com planos megalomaníacos. O abutre não quer dominar o universo, ou escravizar um mundo; muito pelo contrário, quanto menos notarem sua presença melhor para ele, pois seu único desejo é pagar as contas em dia e poder proporcionar uma vida descente a sua família ( tá bom , talvez uma casa na praia e um carro novo também!), o que, somando a visão empreendedora abordada desde o início do filme quase o define como um conservador; excluindo o fato que sua personalidade agressiva em excesso não lhe proporciona limites caso necessite  passar sobre uma lei ou matar um desafeto.

  
Essa agressividade, natural da personalidade do personagem e também dominante no ambiente em que o mesmo vive, fazem esse conservadorismo cair por terra  quando o vilão dá seu discurso, que mesmo servindo para distrair o herói em uma das cenas mais importantes do filme, não deixa de falar um pouco sobre sua própria visão de mundo onde reconhecemos um pouco da filosofia de Raskolnikov (de “Crime e castigo”) que fala da força e superioridade dos homens que tomam para si o que querem, com uma pitada da anarquia sonhada por Thiller Durden (de “O club da luta”) quando ele parece virar as costas para o que a sociedade diz ser o certo.

   Outro fator que agrega ao Abutre ainda, é o fato dele não precisar de poderes ou uniforme para ser ameaçador. Isso fica bem claro quando o vemos resolver as ameaças de um ex-parceiro no inicio do filme e, principalmente, quando ele descobre quem é o Homem-Aranha e tem uma conversa breve, mas cheia de tensão com o Jovem Peter Parker, que não consegue sequer encará-lo. Sua abordagem lembra em muito as apresentadas por outros vilões marcantes, como Tony Soprano ou Walter White, e que eram ameaçadores não por sua força física ou algum poder especial, mas pelo respeito e temor que suas presenças impunham.

    Por esses detalhes, considero o Abutre a melhor coisa, nessa nova versão do cabeça de teia até aqui, que a Sony trouxe para agregar o universo Marvel nos cinemas, com seus pés na realidade, embora todo o resto sobrevoe o mundo fantástico dos quadrinhos, o vilão dá novos ares, embora  rarefeitos até o momento, aos antagonistas de filmes de super-heróis de que um bom vilão faz um bom herói.

   Que mais vilões críveis e carismáticos venham nos próximos filmes .




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A FORMA DA ÁGUA (2017)

  


    Uma coisa que observo como exigência em uma história de ficção científica ou fantasia para julga-la como relevante a ponto de perder meu tempo com ela, é seu paralelo com a nossa realidade. Quando é um filme, por exemplo, não vou jogar quase duas horas de minha vida no lixo para acompanhar carros que se transformam em robôs e montam em dinossauros mecânicos para lutar por um cubo mágico! Mas se a história tiver o mínimo de conexão com os problemas sociais ou políticos de um período histórico e a trama me encantar, vou assistir até cansar e serei o primeiro a fazer a campanha a seu favor. E é justamente por isso que venho hoje publicar o primeiro post de 2018, para recomendar um filme de fantasia e que fala de solidão, diferença, preconceito e amor; escrito e dirigido por um cara fenomenal, que aguardei com ansiedade desde seu primeiro trailer e que superou minhas expectativas, trata-se de: “A forma da água”, filme do mestre Guillermo del Toro que abriu o ano me deixando quase sem ar.

"Você me tira o fôlego"
Ambientado nos E.U.A no meado dos anos sessenta, o filme conta a história de Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda e solitária que trabalha como faxineira em um laboratório do centro de pesquisa aeroespacial, para onde é levada uma misteriosa criatura anfíbia e humanoide descoberta na Amazônia e que as autoridades americanas pretendem usar como cobaia durante a corrida espacial. Eliza, que é responsável, junto com sua colega Zelda (Octavia Spencer), pela limpeza da sala onde a criatura fica isolada e aos poucos vai criando uma relação que passa de amizade a algo mais. Quando Eliza descobre o destino reservado ao misterioso ser, recorre à ajuda de seu vizinho e confidente, Giles (Richard Jenkins) e do inesperado apoio do cientista Bob Hoffsteler (Michael Stuhbarg) para ajudar o homem-anfíbio a fugir, mas não sem antes ter de enfrentarem toda hipocrisia e maldade personificadas na figura de Strickland (Michael Shannon) o responsável pela cobaia e que não vai poupar esforços até que as coisas sejam feitas de seu jeito.

        O filme é um conto de fadas, temperado com critica político-social e pitadas de terror (e um pouco de safadeza). Essa crítica já fica clara desde a apresentação dos personagens principais, onde o diretor subverte os estereótipos presentes nas histórias clássicas, em que normalmente temos os protagonistas enquadrados no que se aceita como padrão, e apresenta destaque e relevância a figuras para quem antes eram reservados papeis secundários. Não satisfeito com isso, a trama é ainda ambientada durante a década de 1960, os anos de luta pelos direitos civis dos afro-americanos e auge da guerra fria e, cerca a protagonista com uma amiga negra, um confidente gay e um (spoiler) espião russo como aliado inusitado, de maneira que nos remete a fuga do que sempre é aceito como padrão e ao questionamento sobre o quanto o “diferente” é por vezes, errônea e simplesmente, visto como errado e o mal que isso pode causar.

"Que peixão!"
Nessa situação de quebra de paradigma, o que mais se destaca são as figuras do mocinho e do vilão. Enquanto o “mocinho” é uma criatura anfíbia que lembra o monstro da lagoa negra do filme de 1954, ou o Abe Sapien do filme “Hell Boy” e que não consegue ao menos se comunicar com exatidão, mas demonstra empatia e gratidão; o vilão é um pai de família, com sonhos mundanos de trocar de carro e casa e, dono de sua própria moral (não muito higiênica), mas desprovido da percepção do mal que seus atos e palavras podem causar a quem o cerca, fazendo com que o expectador vá aos poucos deixando de observar as aparências físicas de ambos e se conecte com suas essências. O mesmo corre com o restante do elenco, que vão se destacando na medida em que vamos entendendo que, dentro da época e contexto em que a história se passa todos eles são criaturas tão estranhas quanto o homem anfíbio, fato que nos faz crer na motivação daquelas pessoas para arriscarem tudo pela liberdade daquele ser, que de certa forma representa a fuga para liberdade de cada um dos envolvidos.

O ponto forte do filme é justamente essa critica que a história faz ao utilizar personagens que vão de encontro ao tradicional primeiro esquadrão das tramas consagradas como protagonistas e elenco de apoio, e, utilizando como cenário um dos momentos mais duros da história moderna para assim fazer uma alusão ao momento atual de nossa sociedade, sem com isso perder o foco na trama e apresentar um filme delicado, doce e divertido. No entanto, há uma reutilização de conceitos por parte do autor, que por mais que se enxergue como sendo a assinatura do mesmo, criam a atmosfera de que muito do que se apresenta já foi visto anteriormente em suas produções.  Uma dessas repetições, que já citei acima, é a aparência do homem anfíbio, que remete muito ao personagem Abe Sapiens dos filmes “Hell Boy”, que foram dirigidos por Del Toro e que, coincidentemente (ou não) era interpretado pelo mesmo ator, o multi-maquiado Doug Jones. Outra coisa é o fascínio do diretor pela solidão, que em quase todos seus filmes, e esse não é diferente, se concretiza ao apresentar o protagonista como um Órfão, tal como ele fez em “A espinha do Diabo”, “Orfanato” e até “Hell Boy” e “Blade”. Mas essas reutilizações de temas ou similaridades com outras produções de Del Toro, não são um defeito representando no filme e não atrapalham ou diminuem a qualidade do que o diretor consegue entregar nas duas horas de fantasia que apresenta.


Fiquei impressionado com “A Forma da água” e como Guillermo Del Toro continua conseguindo falar tão bem sobre os sentimentos humanos utilizando a fantasia e a ficção científica, deixando sua assinatura (mesmo com algumas reutilizações) no roteiro, produção e estilo; mergulhando-nos (sem trocadilho) em uma trama que consegue subverter os contos de fada e falar muito de nossos dias utilizando o passado como cenário e, com isso, dando um novo fôlego ao cinema nesse início de ano e principalmente para mim, que estou cansado do mais-do-mesmo. Então, se quiser fugir de sua vida rotineira e afundar em uma fantasia repleta de critica social, romance e uma produção caprichada, não perca tempo e se atire de cabeça na “Forma da água”.



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

BRIGHT (2017) quando o senhor dos anéis encontra um dia de treinamento.



   
   A grande maioria das histórias de fantasia se passa em uma espécie de idade média, com seus castelos, espadas e campos de batalha, mas como será que essas sociedades repletas de seres mágicos, como elfos, duendes, dragões e orcs se encontraria mil, ou dois mil anos, depois das histórias clássicas imaginadas por Tolkin, C.S Lewis ou Martin e se deparassem com problemas como o preconceito, corrupção e desigualdade social? Pois a resposta para essa pergunta é o pano de fundo da mais nova produção da Netflix, “BRIGHT”, filme escrito por Max Landis, dirigido por David Ayer e estrelado Por Will Smith e Joel Adgerton que estreou no último dia vinte e dois trazendo um pouco mais de magia para os últimos dias de 2017.

  
  O filme acompanha o policial humano Ward (Will Smith) e seu parceiro e único policial Orc, Nic Jakoby (Joel Adgerton), que estão voltando a trabalhar juntos após Ward ter sido baleado por um Orc devido ao descuido do parceiro (mais ou menos), o que destruiu a pouca confiança que havia entre os dois anteriormente. No primeiro dia de retorno as patrulhas da dupla, eles acabam se deparando com uma guerra secreta entre um grupo conspirador que quer ressuscitar um antigo líder Elfo renegado e extremistas humanos que querem impedi-los e acabar com o poder dos Elfos no mundo; no meio disso, surge uma misteriosa Elfa (Lucy Fry) de posse de uma varinha mágica, uma relíquia capaz de realizar todos os desejos de quem a possui, o que atrairá a cobiça das gangues de Orcs e humanos, dos elfos renegados, da força tarefa mágica e da polícia corrupta, transformando o que era para ser uma noite de patrulha rotineira em uma corrida pela sobrevivência não só da improvável dupla, como do mundo como eles conhecem.

   
    O filme traz o retorno de David Ayer para o terreno que lhe deu destaque, abordando as dificuldades de convivência entre os diferentes, a dualidade da polícia e o mundo do crime, tudo com o toque de fantasia proporcionado pelo cérebro nerd de Max Landis e o resultado é um filme que, apesar de seus problemas no aprofundamento do ambiente e contextualização de alguns acontecimentos, é bem divertido.

  
Toda elegância de um Elfo
Entre as coisas boas que o filme tem, está a apresentação de uma história fantástica para debater nossa realidade social, no caso o racismo, que é referenciado através do preconceito sofrido pelo povo Orc, que vive em guetos e é vítima de violência policial, lembrando em muito os problemas vividos pelos alienígenas do filme “Distrito 9” de Neill Blomkamp, mas em “Bright”, diferente do filme de 2009 do diretor Sul-africano, esse preconceito não se deve ao egoísmo em dividir a terra com uma raça extraterrestre, mas ao fato de que a dois mil anos atrás, os Orcs terem se aliado ao “senhor das trevas” o líder renegado Elfo que citei acima e que tentou dominar o mundo utilizando magia, o que gerou ressentimento nos humanos e Elfos. E o peso de todo esse preconceito é duplamente sentido por Jakoby, que é desprezado pelos humanos por ser um Orc e por sua própria raça por não ser “de sangue” ( Não pertencer a nenhum clã) e ser policial; sendo que é através de sua jornada, tentando se encontrar entre os interesses de seu trabalho como policial e seu lugar na comunidade Orc, que trilhamos as ambiguidades do universo criado por Landis até experimentarmos a catarse que dá todo sentido ao filme em seu final, quando vemos o policial Orc reconhecido em ambas situações (spoiler na cara!).

     Outra coisa bacana é ver o estilo de David Ayer de tiro, porrada e bomba, funcionando novamente depois do tenebroso “Esquadrãosuicida”. Mesmo com a aura fantástica, o filme não perde a tensão e ritmo de thriller policial com a dupla protagonista vivendo uma verdadeira odisseia através dos guetos de Los Angeles e proporcionando ao expectador grandes momentos de tiroteios, perseguições de carro e até lutas marciais. Soma-se a isso ainda o carisma de Will Smith, que apesar de protagonizar o filme, não apaga a relevância de ninguém que divide a tela consigo e a trilha sonora, que nesse filme de Ayer, é muito pontual e acertada.

  
Orcs de Gueto
Mas o filme tem seus problemas e, embora nenhum o deixem menos divertido,  expõem pontas soltas que  apontam falhas na edição que começam a se tornar uma assinatura negativa do diretor. O maior exemplo desses erros á a motivação dos infermi (os Elfos renegados) para perseguir Tikka, a Elfa fugitiva que os protagonistas encontram com a varinha mágica, ela conta uma história maluca que fugiu porque não queria ajudar a trazer o vilão dos mortos, que mandaram uma assassina para acabar com ela e bla bla bla, mas durante o filme vemos a personagem de Noomi Rapace, que é quem manda matarem Tikka, sendo uma Badass ninja Elfica que ainda tem uma dupla de seguranças no mesmo nível e que no final diz que seu alvo é sua irmã! Então, porque mandou outra pessoal (menos hábil) dar cabo da irmã e  COM A SUA VARINHA MÁGICA? Falando nos Infermi, uma coisa que ficou faltando foi uma aura ameaçadora do, apenas comentado, senhor das trevas; pois vemos citações sobre ele nos muros pichados, o preconceito com os Orcs se deve a ele, o temor da magia se deve a ele, o que move o filme é a possibilidade de seu retorno, mas... Não o sentimos como uma possível ameaça e isso diminui, ainda mais, as motivações dos vilões. Somado a isso, ainda podemos falar da parca presença do “escudo da luz”, o grupo de extremistas que luta contra o avanço dos elfos renegados e que tem como o membro mais relevante, um sujeito que aparece do nada, todo sujo, brincando de espada no centro da cidade e que só serve para explicar um pouco do que está acontecendo, parecendo mais uma falha na edição (ou uma conveniência de roteiro) do que uma participação que some à história.

   Mas as pontas soltas, que parecem ter escandalizado meio mundo, chegando a dizer o absurdo de que esse filme era PIOR que “esquadrão suicida”, não me incomodaram em nada. Conhecendo o serviço de streaming responsável pelo filme e o trabalho de Max Landis, enxerguei no pouco aprofundamento sobre o passado do mundo onde a história se passa e os demais jogadores da trama, como a força tarefa dos magos (que faz uma investigação paralela sem muita relevância, mas que se sugere ter grande relevância), como a porta aberta para um universo estendido, o que se mostrou provável ao lembrar que a Netflix anunciou uma sequência, mesmo antes de o filme estrear e que pode satisfazer quem não teve suas expectativas alcançadas com essa primeira história.


    “Bright” é uma história divertida e inusitada que consegue segurar o expectador na cadeira por quase duas horas e tem o potencial necessário para o surgimento do primeiro universo expandido com o selo original Netflix. Apresenta alguns problemas de edição e continuidade, e, muita coisa que a trama apresenta não fica totalmente exposta, mas, pensando bem, é um filme onde um policial humano e outro Orc, lutam para não deixar uma varinha mágica cair nas mãos de gangues de criaturas míticas, quem estava esperando um novo “cidadão Kane” ou “poderoso chefão” deveria rever suas expectativas. Então, se assim como eu, você também sempre teve a curiosidade de ver como os mundos fantásticos evoluiriam até a era dos celulares e redes sociais, dê uma chance a “Bright” e coloque um pouco mais de magia (e tiro, porrada e bomba) no final de seu ano.



sábado, 23 de dezembro de 2017

RICK & MORTY: Episódios essenciais para começar a explorar o multiverso.




Um mês! Esse foi o tempo que fiquei sem escrever nada. Eu sei que nesse período o mundo ficou sem graça com a ausência da exposição do meu gosto duvidoso e opinião rasa, mas o fato é que depois que vi e escrevi sobre a “liga da justiça”, pareceu que eu estava  entrando novamente em um ciclo que começou lá em 2012 com ”Vingadores", então resolvi dar uma pausa. Só que, durante essa parada me deparei com uma produção fantástica, que me seduziu pela curiosidade e acabou me viciando e prendendo durante esses trinta dias com seus conceitos brilhantes, humor negro e (por que não?) niilismo libertador. Hoje volto da dimensão C-137 para falar um pouco da série animada "Rick & Morty" e indicar três episódios de cada uma das três temporadas para escancarar de vez o portal interdimensional  para quem ainda não conhece a série se jogar sem medo.


A essa altura, se você é da mesma dimensão que eu, já deve ter ouvido ou lido alguma coisa sobre “Rick & Morty”, até porque a série é a mais nova moda no cenário pop-geek-nerd, se tornando tema de podcasts, estampas de camisetas e sendo terreno para inúmeras teorias pela internet afora, mas fingindo que ninguém sabe do que eu estou falando acho que, antes de tudo, vale uma apresentação:

     
   “Rick e Morty” é uma série americana criada por Dan Harmor e Justin Roiland, exibida na gringa pelo canal Adult Swin e que se originou de um curta de animação chamado "Doc e Marty", que parodiava o filme “De volta para o futuro”. Na série, acompanhamos as aventuras de Rick sanchez, um cientista genial que descobre uma maneira de viajar entre múltiplas dimensões e que, depois de dez anos desaparecido, retorna para morar de favor com a família de sua filha Beth, uma cirurgiã de cavalos que e é casada com Jerry Smith, um publicitário inseguro e impressionável, desde que engravidou na adolescência de Summer,  esteriótipo da adolescente moderna; fechando a família temos Morty, o filho caçula de 14 anos, influenciável e assustado que se torna parceiro de seu avô Rick nas mais insanas e geniais aventuras través das infinitas possibilidades do multiverso.

A série é brilhante! Usa de todo o potencial que as animações possuem desde sempre para apesentar conceitos muito bacanas de ficção científica, abusando do humor negro para criticar a sociedade e nos fuzilando com dezenas de referências por episódio, sem contar que consegue (em quase todo episódio) apresentar duas ou até três histórias simultâneas com o mesmo peso e força e isso tudo em vinte minutos por episódio!

Mas sem mais delongas, vamos ajustar a pistola de portais e indicar esse nove episódios essenciais:




Temporada 1:

Episódio 1Piloto: É impossível que qualquer série siga em frente sem apresentar um piloto descente, e no caso de “Rick e Morty” não é diferente. O primeiro episódio da primeira temporada é um resumo de quase tudo que acabamos por encontrar nas três temporadas que o segue. Nele, somos apresentados tanto a rotina mundana da família Smith, com Jerry e Beth sendo chamados à escola do filho pelo fato dele faltar quase todos os dias, assim como ao multiverso e aos primeiros exercícios de humor negro da trama, com a dupla protagonista indo até outra dimensão para pegar mega-sementes, que Morty tem que contrabandear escondendo no reto e Rick guiando o neto de volta através de alfândegas alienígenas e travando uma verdadeira guerra para retornar a terra.

Frase:
- Atire neles Morty!
- Mas não quero machucar ninguém Rick
-Atire Morty, eles são robôs
(Morty atira e o sujeito cai sangrando)
-RICK ELES NÃO SÃO ROBÔS!!
-É uma figura de linguagem Morty, eles são burocratas, eu não respeito eles.


Episódio 6 – Cronembergs: Nesse episódio Morty pede uma poção do Amor para Rick, para conquistar sua paixão, Jéssica, no baile da escola; só que, por puro descaso, o genio da família não avisa ao neto que a única contraindicação é se seu alvo estiver gripado… só que a festa onde Morty pretende seduzir a colega, é o “baile anual da Gripe”!! Surge daí uma confusão em cadeia que começa com todas pessoas do mundo se apaixonando por Morty, depois todos acabam se transformando em louva-deus e mais tarde em “Cronembergs” (referência ao diretor de filmes como “a mosca” e “Scaners”) monstros deformados que misturam diversos animais, resultando que Rick e Morty acabam fugindo para outra dimensão, onde suas versões estão mortas tomando seus lugares e abandonando sua família antiga. Foi o primeiro episódio que me chocou e me conectou com o niilismo que o comportamento indiferente de Rick acaba aos poucos expondo e que vai se destacando cada vez mais por episódio.

Destaque para o silêncio e choque de Morty ao final quando (ao som de: “Look On Down From The Bridge”) ele percebe que não há volta e que agora é hóspede de outra dimensão e parte de outra família.


Episódio 8-TV interdimensional: Assim como muitas séries de TV “Rick e Morty” possuem um episódio especial por temporada, no caso da obra de Harmor e Roiland, esse especial consiste na família Smith assistir a TV interdimensional, um aparelho criado por Rick onde canais infinitos de dimensões infinitas estão disponíveis. O episódio se divide em pequenas histórias que passam na TV como programas assistidos pelos protagonistas e que foram improvisados pelos autores, gravados em áudio e depois desenhados (o que dá o ar supremo do no sense) enquanto que Jerry, Beth disputam para assistir, através de uns óculos que acompanha suas versões de outras dimensões, como seriam suas vidas caso Summer não tivesse nascido.

Esse episídio tem um final espetacular, pois dá sequência aos acontecimentos do episódio 6, deixando claro que, apesar de se tratar de uma animação, nada ali é zerado e tem consequências, quando Morty, sabendo da tristeza da irmã, quando esta descobre que seus pais tentaram aborta-la e que a vida destes em outra dimensão foi um sucesso, devido a sua ausência, diz a frase que me fisgou de vez:

Frase: "...Não fuja, ninguém existe com um propósito, ninguém pertence a nenhum lugar e todo mundo vai morrer..”


Temporada 2:

Episódio 3 – Unidade: Com uma história que abusa das referências a clássicos do terror, como “invasores de corpos” e “Alien”, além de, ao final, mostrar toda a solidão que pesa sobre o genial Rick Sanchez, O terceiro episódio da segunda temporada é um dos meus favoritos. Nessa aventura, Rick, Morty e Summer recebem um pedido de socorro e são atraídos a uma nave que se encontra à deriva no espaço, onde sobreviventes de uma raça alienígena informam que todas as pessoas de seu planeta foram assimiladas por uma entidade que está unindo todos os seres em uma única consciência; logo a seguir, descobrimos que essa “Unidade” é uma ex-namorada de Rick e partimos para o planeta dominado por ela, onde a simples presença do protagonista e seus netos põem em risco todo o propósito de ordem da entidade e ameaça a segurança de todo o planeta.

Destaque para o momento onde a Unidade percebe o mal que a presença de Rick causa e resolve se afastar de seu ex-namorado de vez, e como ela É todas as pessoas do planeta, esconde os habitantes e Rick vai sabendo o motivo de seu afastamento através de cartas que vão sendo atiradas a ele pela rua.

Referência à "Invasores de corpos" no episódio "Unidade"

  Episódio 4 – Mostrem o que tem: Uma cabeça gigante entra na atmosfera da terra causando todo tipo de desastre natural e começa a repetir a frase “mostrem o que tem!”; enquanto os demais personagens da série se refugiam em uma igreja para orar por salvação, acreditando que se trata de Deus, Rick e Morty vão até o pentágono (na maior referência ao filme “Doutor Fantástico”) explicar que se trata de uma raça alienígena que se alimenta de… um Hit musical! A partir daí a dupla fica encarregada de criar uma música para satisfazer o desejo do visitante, enquanto o restante da família se envolve na criação de uma seita extremista chamada “cabecismo”, que tem o alien como um suposto deus.

          “ Morty: -Rick, você é músico?
           Rick: - E quem não é?
           Morty: -Eu!!
           Rick:   - Não com essa atitude!”
 
MOSTREM O QUE TEMMM!

Episódio 6 – Keep Summer Safe / mundo na Bateria: Rick, Morty e Summer estão em uma dimensão para assistir a um filme, quando ao tentar ligar a nave, descobrem que estão sem bateria. A dupla de protagonista parte para dentro da bateria, onde Rick criou uma civilização que tem o objetivo de abastecer a energia de sua nave e celular, só que esta desenvolveu uma sociedade e também está criando uma civilização dentro de outra bateria para ter menos trabalho; enquanto isso, Summer é deixada na nave e Rick ordena para que a máquina a deixe segura. Parte daí, na sociedade dentro da bateria, a discussão sobre escravidão e utilização do empenho do outro para trabalhar menos, enquanto que Summer testemunha todo tipo de atrocidade proporcionada pelo computador da nave para poder cumprir a ordem dada por seu avô.

      “-Você tem um planeta inteiro gerando energia pra você”? Isso é escravidão!
         -É sociedade, eles trabalham uns para os outros, compram casas, geram filhos…
      “-Isso parece escravidão com umas coisinhas a mais!”
"manter Summer segura!"

Temporada 3:

Episódio 1 – Fuga da prisão: No final da segunda temporada Rick se entrega à federação Galática (órgão que o tem como um terrorista) e é preso, o primeiro episódio da terceira dão sequência a esses eventos e se divide em duas histórias, sendo uma guiada por Rick, que começa em uma viagem por suas memórias e segue até sua espetacular fuga da cadeia e a outra acompanhando Morty e Summer em um “plano” para libertar o avô.
Esse episódio se destaca não só pela extrema violência e reviravoltas que a trama dá, levando mesmo Morty a visitar sua família original na dimensão destruída no episódio “Cronembergs” e Rick a trocar de corpo umas quatro vezes, como pela qualidade do roteiro e dos conceitos bacanas que apresenta o que lembra um bom filme de ficção científica e deixa claro a que veio a terceira temporada.


Episódio 2 – Realidade pós-apocalíptica: Meu segundo episódio favorito. Nele, Rick e seus netos partem para uma realidade pós-apocalíptica que mistura “Mad Max” e “Game of Thrones” atrás de um tipo raro de minério que fornece energia. Para conseguir roubar uma grande pedra desse material que os nativos levam consigo em suas caçadas e matanças, o protagonista e seus ajudantes resolvem ficar na dimensão e deixar androides para substituí-los em casa, surge daí um relacionamento entre Summer e “Hemorragia” um dos líderes do grupo nativo, enquanto Morty descarrega toda sua raiva reprimida em uma arena, depois de que tem as memórias musculares do braço de um inimigo do grupo, que morreu em batalha, injetados em si.
Destaque para como se destrói qualquer espírito guerreiro ou relação ao final do episódio, quando Rick, depois de criar uma sociedade classe média baseada na comodidade, o que transforma os guerreiros sanguinários em meros “telespectadores”, transforma a vida da neta em uma rotina, a convencendo a ir embora e depois parte, levando consigo a fonte de energia da evolução que ele criou para aquela realidade, o tão cobiçado minério.


Episódio 7 – Contos da Cidadela: Esse é o meu episódio favorito e nem conta com a presença dos protagonistas, ou mais ou menos. Nessa história, voltamos a Cidadela dos Ricks, um lugar onde Ricks de várias realidades se uniram para formar uma sociedade onde vivem apenas Ricks e Mortys e que é apresentada no décimo episódio da primeira temporada e destruída no primeiro episódio da terceira, quando Rick escapa da cadeia. O episódio conta como a cidadela está se reestruturando depois de sua quase extinção e a trama acompanha cinco histórias, Um Morty que quer ser presidente, Um Morty que é assessor do candidato, Um Rick e Morty policiais, Um grupo de Mortys que foge da escola para viver uma última aventura e um Rick Operário cansado de sempre se dar mal. O Episódio, além de ser melhor do que quase TODOS os filmes que vi esse ano, ainda usa e abusa de referências a filmes como “Conta Comigo”, “Dia de treinamento”, “Dia de Fúria”, entre muitos outros, para dar sequência aos acontecimentos da primeira temporada e conectar ainda mais a história, isso tudo, repito, em apenas vinte e um minutos!!

Frase: “Discursos são para campanhas, agora é a hora de ação!”


Bom, mesmo o texto tendo ficado gigantesco (e mais raso que as expectativas de Jerry Smith), nada que foi dito chega aos pés do que a série apresenta ou substitui a experiência de assistir cada episódio. Com um humor absurdo que explora todo potencial de animação, crítica inteligente e sínica e, toda a força de um niilismo de deixar Nietzsche orgulhoso, “Rick e Morty” vieram para revolucionar o universo das séries e prender os fãs de ficção científica no universo C-137. Então a dica está dada (como se ninguém conhecesse) e se Morty Sanchez Smith estava certo no T1-Ep8 e ninguém existe com um propósito, ninguém pertence a nenhum lugar e todo mundo vai morrer, vamos assistir TV e dar uma chance ao novo.


Fica a dica e fica tranquileba !