terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

KINDRED - LAÇOS DE SANGUE (de OCTAVIA E. BUTLER)




     Se não enxergarmos o que é tido como diferente presente em todas as áreas da sociedade o encararemos como um erro, onde apenas a bolha onde vivemos será percebida por nós como verdade absoluta; por isso eu digo: Representatividade é tudo!

   Mas não é a simples presença física de pessoas de diferentes cores, opções sexuais ou religião que garante o rompimento da bolha onde nos incluímos, mas a possibilidade de se criar empatia a ponto de nos reconhecermos nas pessoas de aparência e opções diferentes de nós mesmos e nisso, a cultura como um todo tem um papel essencial, mas em especial o cinema e a literatura em suas facetas tidas como pop. Tudo isso talvez seja  uma verdade quase intuitiva, mas que ficou mais clara para mim, quando me deparei com uma obra de sci-fi clássica, que utilizando de clichês de ficção científica e fantasia, me entregou uma mensagem poderosa sobre os males que o preconceito cristalizou em nossa sociedade, em uma trama fruto da mente de uma pessoa que viveu muitos desses males.

    Pois hoje falarei (muito por cima) dessa obra, ou melhor, desse livro que se enquadra perfeitamente no seleto grupo dos “rompedores de bolha” e que me conquistou desde seu prólogo. Trata-se de “Kindred - Laços de Sangue”, um clássico da escritora afro-americana Octavia E. Bluter, que depois de quase quarenta anos de seu lançamento original, finalmente chega o Brasil pela editora Morro branco, me prendendo em suas páginas não só pela sua mensagem dura mas necessária, quanto por sua escrita refinada e ágil.

  
   O livro conta a história de Dana, uma escritora, que após se mudar com o marido Kevin (também escritor), para a casa nova, se vê vítima de um misterioso fenômeno de viagem temporal, retornando para a Baltimore escravagista pré-guerra civil americana, uma época nada fácil para uma mulher negra como ela (principalmente uma que possua educação e espírito). Conforme o fenômeno vai se repetindo Dana descobre que o mesmo é fruto de uma misteriosa ligação com um antepassado, seu tataravô Rufus Weylin, filho de um proprietário de escravos, que quando sente sua vida ameaçada a invoca para que essa o ajude. Além do estranhamento da situação, Dana viverá o dilema de ter que defender seu antepassado, que é fruto da época de abusos onde nasceu, para que ela mesma tenha seu nascimento assegurado, enquanto é obrigada a testemunhar a abertura da feriada que a escravidão causou e que o preconceito e a ignorância não deixaram cicatrizar até os nossos dias.
  
      Esse livro me causou inúmeras sensações, a maior foi a da descoberta de Octavia E. Bluter e todo seu talento. A autora, não vulgarmente chamada de A grande dama da ficção científica, realmente me impressionou com sua forma de escrever limpa e pé no chão (e em um livro de sci-fi!), conseguindo transmitir não só toda a dor do período escravagista de maneira sutil, como a própria aflição de seus personagens negros do século XIX, que transitam no livro como não pessoas, posses de outros e fadados a passar o resto de seus dias contendo seus sentimentos e indignações; mas também, nos entregado na sub-trama, a cicatriz social que a  escravidão deixou ao apresentar no tempo atual (1976) uma mulher negra  casada com um homem branco (Dana e Kevin), que sofrem o desprezo de suas famílias devido a esse casamento, ainda nada comum nos EUA dos anos mil novecentos e setenta, indicando, sem precisar escrever nada que aprofunde a situação, a marca de um racismo, mais velado do que explicito, que continua presente até os dias de hoje; sem falar da maneira totalmente realista que a autora descreve o relacionamento e rotina do casal, nos tornando cúmplice de seus segredos e testemunha de seus sentimentos.

     A leitura também me fez refletir quanto a pouca quantidade de autores não-brancos e não-masculinos que eu posso dizer que li e o que eu perdi com isso. Fora os clássicos como Machado de Assis ou Alexandre Dumas e “Batle Royale” de Kouachum Takami, quase todos livros da minha lista são de Europeus ou Euro-americanos e no que se trata de mulheres não é muito diferente, mulheres negras então, não havia nenhuma. Octavia E. Bluter veio para mudar isso ao se apresentar para mim, como um desses autores que quando terminamos de ler uma de suas obras, sentimos vontade de ler todas, nos induzindo à representatividade através do puro talento.

    A história da autora e a consciência da sociedade onde vivia e que lembra um pouco como enxergo a nossa, sem contar o fato de, pela primeira vez, tive a oportunidade de ter contato com uma obra de ficção científica escrita por uma pessoa da mesma etnia que eu, realmente me tocou, pois como disse no início, representatividade é tudo! Mas esse fato sobre “Kindred” que é importante para mim e para poucos, se encontra além do livro, dentro dele há uma história de drama e aventura, desenvolvida de maneira magistral que fala sobre como somos adestrados para aceitar os abusos e não perceber muitos de nossos próprios privilégios. Isso acontece através da relação de Dana e Rufus, a primeira uma mulher negra educada e culta do século XX, se vendo exposta a todo tipo de violência do período da escravidão e que vai se quebrando frente a esse novo mundo; o outro, uma figura do século XIX, que, conforme Dana vai retornando no tempo e acompanhando seu crescimento, vai se corrompendo e se mostrando cada vez mais consciente de seu papel.

     
Octavia E. Butler (1947-2006)
 
É por meio de Dana e Rufus, e suas interações com as pessoas em sua volta e como estas relações vão mudando com o tempo, que a autora nos demonstra a força que o mundo que nos rodeia tem sobre nós. A relação com o poder é inversamente proporcional no que tange aos dois personagens e, enquanto Dana vai se acostumando com as ordens, por mais que se convença de que é para o bem de seus antepassados e seu próprio, se quebrando no processo, ao ponto de terminar o livro transformada em outra pessoa; Rufus vai se acostumando com sua posição de poder e privilégio e mudando de um menino compreensivo e sensível, para um adulto egoísta, que não enxerga as pessoas diferentes dele como outros seres humanos e se vê como superior. O Alvo desse egoísmo e que acaba se tornando um dilema para o próprio Rufus é, Alice, uma filha de escravos, que ele nutre uma paixão desde jovem e cuja relação se equilibra entre sentimento verdadeiro e coisificação; Alice também acaba por sofrer devido a influência de Dana, que sabendo que descende desta com Ruffus, ajuda o mesmo a conseguir o que ele deseja, transcrevendo a amarga existência de um indivíduo que é desumanizado sem chance de ser ouvido ou ter opção, restando o final nada feliz para Alice e a Justiça (ou vingança) para Rufus.

    A Autora ainda inclui, em uma das regressões no tempo, a presença do marido da protagonista, que serve como “olhos brancos bem intencionados”, que enxergam as barbaridades da época e se indigna, mas, por não possuir a mesma ligação com a situação que a protagonista, acredita que as coisas poderiam ser ainda pior. De forma genial, Kevin está lá para representar os brancos que são despidos de preconceito (e ele faz isso se pondo em risco muitas vezes), mas não possuem a mesma história de vida de quem sofreu o preconceito na pele; algo tão comum como o próprio preconceito e que, no livro, deixa profundas cicatrizes ao personagem quando este volta para seu tempo natal.

     Eu poderia falar durante páginas e mais páginas sobre “Kindred”, mas preferi não me aprofundar mais para não acabar com a experiência de ninguém, o que posso dizer  é que este é um livro essencial para quem é, além de fã de fantasia e ficção científica, amante da literatura. Uma obra de escrita ágil, personagens fortes e marcantes, questões amplamente relevantes e que ainda hoje são debatidas. Fruto de uma mente a frente de seu tempo, que usando os conceitos Pop levou a todos um retrato da ferida que legitimou o preconceito racial nos EUA (e no mundo), assim como, por meio de seus personagens, mostra a facilidade de se quebrar frente ao poder, ou não enxergar seus privilégios. Um livro que me fez sentir mais do que satisfeito, como me presenteou com outro autor para ler toda obra; uma mulher que, depois de 424 páginas, posso dizer que me representa na ficção científica e como bem se sabe, representatividade é tudo!




domingo, 4 de fevereiro de 2018

O ABUTRE (do Homem-Aranha) e a importância de um bom vilão





      Já faz um tempinho que ando deixando de lado os filmes e séries de Super-heróis. Para eu perder meu tempo com um filme desse estilo, ele tem que conversar muito comigo e já que isso não vem ocorrendo , não fiz a mínima questão de assistir “Justiceiro”, passei longe “Defensores” e “Punho de ferro”, corro da série do “Flash”, desligo a TV quando passa “Arrow” e, só assisti “Thor: Ragnarok” depois que todo mundo concordou que era uma comédia e “Liga da Justiça” para dar minha última chance a DC/Warner. Mas virou e mexeu e um dos filmes que me empolgou quando anunciado (mas que não tive paciência para ir conferir no cinema) surgiu na minha TV em um sábado ocioso, trazendo a mim uma surpresa que valeu suportar as mais de duas horas de sofá em um dia de trinta e três graus . Trata-se de “Homem-Aranha: de Volta ao lar” e um dos melhores vilões do universo cinematográfico da MARVEL (e Sony) até o presente momento.

   Pois bem, Sobre o Homem-aranha, não há nada que eu possa acrescentar ao falar do filme do amigão da vizinhança, a não ser afirmar que essa nova produção é infinitamente melhor que as protagonizadas por Andrew Garfield (que se diziam espetaculares) e que as piadas características do selo Marvel fazem muito mais sentido nessa trama do que em uma história do Capitão América ou do Thor (embora esse último seja bacana, como eu disse na resenha), mas o que mais chamou minha atenção é o personagem interpretado por Michael Keaton (O Abutre), que no meio de situações incríveis e fantásticas consegue transmitir a credibilidade que anda faltando aos antagonistas presentes nesse estilo de filme.

  E o que o Abutre tem?


   Para começar, pela primeira vez, vemos a Marvel entregar um vilão com pretensões tangíveis e não com planos megalomaníacos. O abutre não quer dominar o universo, ou escravizar um mundo; muito pelo contrário, quanto menos notarem sua presença melhor para ele, pois seu único desejo é pagar as contas em dia e poder proporcionar uma vida descente a sua família ( tá bom , talvez uma casa na praia e um carro novo também!), o que, somando a visão empreendedora abordada desde o início do filme quase o define como um conservador; excluindo o fato que sua personalidade agressiva em excesso não lhe proporciona limites caso necessite  passar sobre uma lei ou matar um desafeto.

  
Essa agressividade, natural da personalidade do personagem e também dominante no ambiente em que o mesmo vive, fazem esse conservadorismo cair por terra  quando o vilão dá seu discurso, que mesmo servindo para distrair o herói em uma das cenas mais importantes do filme, não deixa de falar um pouco sobre sua própria visão de mundo onde reconhecemos um pouco da filosofia de Raskolnikov (de “Crime e castigo”) que fala da força e superioridade dos homens que tomam para si o que querem, com uma pitada da anarquia sonhada por Thiller Durden (de “O club da luta”) quando ele parece virar as costas para o que a sociedade diz ser o certo.

   Outro fator que agrega ao Abutre ainda, é o fato dele não precisar de poderes ou uniforme para ser ameaçador. Isso fica bem claro quando o vemos resolver as ameaças de um ex-parceiro no inicio do filme e, principalmente, quando ele descobre quem é o Homem-Aranha e tem uma conversa breve, mas cheia de tensão com o Jovem Peter Parker, que não consegue sequer encará-lo. Sua abordagem lembra em muito as apresentadas por outros vilões marcantes, como Tony Soprano ou Walter White, e que eram ameaçadores não por sua força física ou algum poder especial, mas pelo respeito e temor que suas presenças impunham.

    Por esses detalhes, considero o Abutre a melhor coisa, nessa nova versão do cabeça de teia até aqui, que a Sony trouxe para agregar o universo Marvel nos cinemas, com seus pés na realidade, embora todo o resto sobrevoe o mundo fantástico dos quadrinhos, o vilão dá novos ares, embora  rarefeitos até o momento, aos antagonistas de filmes de super-heróis de que um bom vilão faz um bom herói.

   Que mais vilões críveis e carismáticos venham nos próximos filmes .




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A FORMA DA ÁGUA (2017)

  


    Uma coisa que observo como exigência em uma história de ficção científica ou fantasia para julga-la como relevante a ponto de perder meu tempo com ela, é seu paralelo com a nossa realidade. Quando é um filme, por exemplo, não vou jogar quase duas horas de minha vida no lixo para acompanhar carros que se transformam em robôs e montam em dinossauros mecânicos para lutar por um cubo mágico! Mas se a história tiver o mínimo de conexão com os problemas sociais ou políticos de um período histórico e a trama me encantar, vou assistir até cansar e serei o primeiro a fazer a campanha a seu favor. E é justamente por isso que venho hoje publicar o primeiro post de 2018, para recomendar um filme de fantasia e que fala de solidão, diferença, preconceito e amor; escrito e dirigido por um cara fenomenal, que aguardei com ansiedade desde seu primeiro trailer e que superou minhas expectativas, trata-se de: “A forma da água”, filme do mestre Guillermo del Toro que abriu o ano me deixando quase sem ar.

"Você me tira o fôlego"
Ambientado nos E.U.A no meado dos anos sessenta, o filme conta a história de Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda e solitária que trabalha como faxineira em um laboratório do centro de pesquisa aeroespacial, para onde é levada uma misteriosa criatura anfíbia e humanoide descoberta na Amazônia e que as autoridades americanas pretendem usar como cobaia durante a corrida espacial. Eliza, que é responsável, junto com sua colega Zelda (Octavia Spencer), pela limpeza da sala onde a criatura fica isolada e aos poucos vai criando uma relação que passa de amizade a algo mais. Quando Eliza descobre o destino reservado ao misterioso ser, recorre à ajuda de seu vizinho e confidente, Giles (Richard Jenkins) e do inesperado apoio do cientista Bob Hoffsteler (Michael Stuhbarg) para ajudar o homem-anfíbio a fugir, mas não sem antes ter de enfrentarem toda hipocrisia e maldade personificadas na figura de Strickland (Michael Shannon) o responsável pela cobaia e que não vai poupar esforços até que as coisas sejam feitas de seu jeito.

        O filme é um conto de fadas, temperado com critica político-social e pitadas de terror (e um pouco de safadeza). Essa crítica já fica clara desde a apresentação dos personagens principais, onde o diretor subverte os estereótipos presentes nas histórias clássicas, em que normalmente temos os protagonistas enquadrados no que se aceita como padrão, e apresenta destaque e relevância a figuras para quem antes eram reservados papeis secundários. Não satisfeito com isso, a trama é ainda ambientada durante a década de 1960, os anos de luta pelos direitos civis dos afro-americanos e auge da guerra fria e, cerca a protagonista com uma amiga negra, um confidente gay e um (spoiler) espião russo como aliado inusitado, de maneira que nos remete a fuga do que sempre é aceito como padrão e ao questionamento sobre o quanto o “diferente” é por vezes, errônea e simplesmente, visto como errado e o mal que isso pode causar.

"Que peixão!"
Nessa situação de quebra de paradigma, o que mais se destaca são as figuras do mocinho e do vilão. Enquanto o “mocinho” é uma criatura anfíbia que lembra o monstro da lagoa negra do filme de 1954, ou o Abe Sapien do filme “Hell Boy” e que não consegue ao menos se comunicar com exatidão, mas demonstra empatia e gratidão; o vilão é um pai de família, com sonhos mundanos de trocar de carro e casa e, dono de sua própria moral (não muito higiênica), mas desprovido da percepção do mal que seus atos e palavras podem causar a quem o cerca, fazendo com que o expectador vá aos poucos deixando de observar as aparências físicas de ambos e se conecte com suas essências. O mesmo corre com o restante do elenco, que vão se destacando na medida em que vamos entendendo que, dentro da época e contexto em que a história se passa todos eles são criaturas tão estranhas quanto o homem anfíbio, fato que nos faz crer na motivação daquelas pessoas para arriscarem tudo pela liberdade daquele ser, que de certa forma representa a fuga para liberdade de cada um dos envolvidos.

O ponto forte do filme é justamente essa critica que a história faz ao utilizar personagens que vão de encontro ao tradicional primeiro esquadrão das tramas consagradas como protagonistas e elenco de apoio, e, utilizando como cenário um dos momentos mais duros da história moderna para assim fazer uma alusão ao momento atual de nossa sociedade, sem com isso perder o foco na trama e apresentar um filme delicado, doce e divertido. No entanto, há uma reutilização de conceitos por parte do autor, que por mais que se enxergue como sendo a assinatura do mesmo, criam a atmosfera de que muito do que se apresenta já foi visto anteriormente em suas produções.  Uma dessas repetições, que já citei acima, é a aparência do homem anfíbio, que remete muito ao personagem Abe Sapiens dos filmes “Hell Boy”, que foram dirigidos por Del Toro e que, coincidentemente (ou não) era interpretado pelo mesmo ator, o multi-maquiado Doug Jones. Outra coisa é o fascínio do diretor pela solidão, que em quase todos seus filmes, e esse não é diferente, se concretiza ao apresentar o protagonista como um Órfão, tal como ele fez em “A espinha do Diabo”, “Orfanato” e até “Hell Boy” e “Blade”. Mas essas reutilizações de temas ou similaridades com outras produções de Del Toro, não são um defeito representando no filme e não atrapalham ou diminuem a qualidade do que o diretor consegue entregar nas duas horas de fantasia que apresenta.


Fiquei impressionado com “A Forma da água” e como Guillermo Del Toro continua conseguindo falar tão bem sobre os sentimentos humanos utilizando a fantasia e a ficção científica, deixando sua assinatura (mesmo com algumas reutilizações) no roteiro, produção e estilo; mergulhando-nos (sem trocadilho) em uma trama que consegue subverter os contos de fada e falar muito de nossos dias utilizando o passado como cenário e, com isso, dando um novo fôlego ao cinema nesse início de ano e principalmente para mim, que estou cansado do mais-do-mesmo. Então, se quiser fugir de sua vida rotineira e afundar em uma fantasia repleta de critica social, romance e uma produção caprichada, não perca tempo e se atire de cabeça na “Forma da água”.



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

BRIGHT (2017) quando o senhor dos anéis encontra um dia de treinamento.



   
   A grande maioria das histórias de fantasia se passa em uma espécie de idade média, com seus castelos, espadas e campos de batalha, mas como será que essas sociedades repletas de seres mágicos, como elfos, duendes, dragões e orcs se encontraria mil, ou dois mil anos, depois das histórias clássicas imaginadas por Tolkin, C.S Lewis ou Martin e se deparassem com problemas como o preconceito, corrupção e desigualdade social? Pois a resposta para essa pergunta é o pano de fundo da mais nova produção da Netflix, “BRIGHT”, filme escrito por Max Landis, dirigido por David Ayer e estrelado Por Will Smith e Joel Adgerton que estreou no último dia vinte e dois trazendo um pouco mais de magia para os últimos dias de 2017.

  
  O filme acompanha o policial humano Ward (Will Smith) e seu parceiro e único policial Orc, Nic Jakoby (Joel Adgerton), que estão voltando a trabalhar juntos após Ward ter sido baleado por um Orc devido ao descuido do parceiro (mais ou menos), o que destruiu a pouca confiança que havia entre os dois anteriormente. No primeiro dia de retorno as patrulhas da dupla, eles acabam se deparando com uma guerra secreta entre um grupo conspirador que quer ressuscitar um antigo líder Elfo renegado e extremistas humanos que querem impedi-los e acabar com o poder dos Elfos no mundo; no meio disso, surge uma misteriosa Elfa (Lucy Fry) de posse de uma varinha mágica, uma relíquia capaz de realizar todos os desejos de quem a possui, o que atrairá a cobiça das gangues de Orcs e humanos, dos elfos renegados, da força tarefa mágica e da polícia corrupta, transformando o que era para ser uma noite de patrulha rotineira em uma corrida pela sobrevivência não só da improvável dupla, como do mundo como eles conhecem.

   
    O filme traz o retorno de David Ayer para o terreno que lhe deu destaque, abordando as dificuldades de convivência entre os diferentes, a dualidade da polícia e o mundo do crime, tudo com o toque de fantasia proporcionado pelo cérebro nerd de Max Landis e o resultado é um filme que, apesar de seus problemas no aprofundamento do ambiente e contextualização de alguns acontecimentos, é bem divertido.

  
Toda elegância de um Elfo
Entre as coisas boas que o filme tem, está a apresentação de uma história fantástica para debater nossa realidade social, no caso o racismo, que é referenciado através do preconceito sofrido pelo povo Orc, que vive em guetos e é vítima de violência policial, lembrando em muito os problemas vividos pelos alienígenas do filme “Distrito 9” de Neill Blomkamp, mas em “Bright”, diferente do filme de 2009 do diretor Sul-africano, esse preconceito não se deve ao egoísmo em dividir a terra com uma raça extraterrestre, mas ao fato de que a dois mil anos atrás, os Orcs terem se aliado ao “senhor das trevas” o líder renegado Elfo que citei acima e que tentou dominar o mundo utilizando magia, o que gerou ressentimento nos humanos e Elfos. E o peso de todo esse preconceito é duplamente sentido por Jakoby, que é desprezado pelos humanos por ser um Orc e por sua própria raça por não ser “de sangue” ( Não pertencer a nenhum clã) e ser policial; sendo que é através de sua jornada, tentando se encontrar entre os interesses de seu trabalho como policial e seu lugar na comunidade Orc, que trilhamos as ambiguidades do universo criado por Landis até experimentarmos a catarse que dá todo sentido ao filme em seu final, quando vemos o policial Orc reconhecido em ambas situações (spoiler na cara!).

     Outra coisa bacana é ver o estilo de David Ayer de tiro, porrada e bomba, funcionando novamente depois do tenebroso “Esquadrãosuicida”. Mesmo com a aura fantástica, o filme não perde a tensão e ritmo de thriller policial com a dupla protagonista vivendo uma verdadeira odisseia através dos guetos de Los Angeles e proporcionando ao expectador grandes momentos de tiroteios, perseguições de carro e até lutas marciais. Soma-se a isso ainda o carisma de Will Smith, que apesar de protagonizar o filme, não apaga a relevância de ninguém que divide a tela consigo e a trilha sonora, que nesse filme de Ayer, é muito pontual e acertada.

  
Orcs de Gueto
Mas o filme tem seus problemas e, embora nenhum o deixem menos divertido,  expõem pontas soltas que  apontam falhas na edição que começam a se tornar uma assinatura negativa do diretor. O maior exemplo desses erros á a motivação dos infermi (os Elfos renegados) para perseguir Tikka, a Elfa fugitiva que os protagonistas encontram com a varinha mágica, ela conta uma história maluca que fugiu porque não queria ajudar a trazer o vilão dos mortos, que mandaram uma assassina para acabar com ela e bla bla bla, mas durante o filme vemos a personagem de Noomi Rapace, que é quem manda matarem Tikka, sendo uma Badass ninja Elfica que ainda tem uma dupla de seguranças no mesmo nível e que no final diz que seu alvo é sua irmã! Então, porque mandou outra pessoal (menos hábil) dar cabo da irmã e  COM A SUA VARINHA MÁGICA? Falando nos Infermi, uma coisa que ficou faltando foi uma aura ameaçadora do, apenas comentado, senhor das trevas; pois vemos citações sobre ele nos muros pichados, o preconceito com os Orcs se deve a ele, o temor da magia se deve a ele, o que move o filme é a possibilidade de seu retorno, mas... Não o sentimos como uma possível ameaça e isso diminui, ainda mais, as motivações dos vilões. Somado a isso, ainda podemos falar da parca presença do “escudo da luz”, o grupo de extremistas que luta contra o avanço dos elfos renegados e que tem como o membro mais relevante, um sujeito que aparece do nada, todo sujo, brincando de espada no centro da cidade e que só serve para explicar um pouco do que está acontecendo, parecendo mais uma falha na edição (ou uma conveniência de roteiro) do que uma participação que some à história.

   Mas as pontas soltas, que parecem ter escandalizado meio mundo, chegando a dizer o absurdo de que esse filme era PIOR que “esquadrão suicida”, não me incomodaram em nada. Conhecendo o serviço de streaming responsável pelo filme e o trabalho de Max Landis, enxerguei no pouco aprofundamento sobre o passado do mundo onde a história se passa e os demais jogadores da trama, como a força tarefa dos magos (que faz uma investigação paralela sem muita relevância, mas que se sugere ter grande relevância), como a porta aberta para um universo estendido, o que se mostrou provável ao lembrar que a Netflix anunciou uma sequência, mesmo antes de o filme estrear e que pode satisfazer quem não teve suas expectativas alcançadas com essa primeira história.


    “Bright” é uma história divertida e inusitada que consegue segurar o expectador na cadeira por quase duas horas e tem o potencial necessário para o surgimento do primeiro universo expandido com o selo original Netflix. Apresenta alguns problemas de edição e continuidade, e, muita coisa que a trama apresenta não fica totalmente exposta, mas, pensando bem, é um filme onde um policial humano e outro Orc, lutam para não deixar uma varinha mágica cair nas mãos de gangues de criaturas míticas, quem estava esperando um novo “cidadão Kane” ou “poderoso chefão” deveria rever suas expectativas. Então, se assim como eu, você também sempre teve a curiosidade de ver como os mundos fantásticos evoluiriam até a era dos celulares e redes sociais, dê uma chance a “Bright” e coloque um pouco mais de magia (e tiro, porrada e bomba) no final de seu ano.



sábado, 23 de dezembro de 2017

RICK & MORTY: Episódios essenciais para começar a explorar o multiverso.




Um mês! Esse foi o tempo que fiquei sem escrever nada. Eu sei que nesse período o mundo ficou sem graça com a ausência da exposição do meu gosto duvidoso e opinião rasa, mas o fato é que depois que vi e escrevi sobre a “liga da justiça”, pareceu que eu estava  entrando novamente em um ciclo que começou lá em 2012 com ”Vingadores", então resolvi dar uma pausa. Só que, durante essa parada me deparei com uma produção fantástica, que me seduziu pela curiosidade e acabou me viciando e prendendo durante esses trinta dias com seus conceitos brilhantes, humor negro e (por que não?) niilismo libertador. Hoje volto da dimensão C-137 para falar um pouco da série animada "Rick & Morty" e indicar três episódios de cada uma das três temporadas para escancarar de vez o portal interdimensional  para quem ainda não conhece a série se jogar sem medo.


A essa altura, se você é da mesma dimensão que eu, já deve ter ouvido ou lido alguma coisa sobre “Rick & Morty”, até porque a série é a mais nova moda no cenário pop-geek-nerd, se tornando tema de podcasts, estampas de camisetas e sendo terreno para inúmeras teorias pela internet afora, mas fingindo que ninguém sabe do que eu estou falando acho que, antes de tudo, vale uma apresentação:

     
   “Rick e Morty” é uma série americana criada por Dan Harmor e Justin Roiland, exibida na gringa pelo canal Adult Swin e que se originou de um curta de animação chamado "Doc e Marty", que parodiava o filme “De volta para o futuro”. Na série, acompanhamos as aventuras de Rick sanchez, um cientista genial que descobre uma maneira de viajar entre múltiplas dimensões e que, depois de dez anos desaparecido, retorna para morar de favor com a família de sua filha Beth, uma cirurgiã de cavalos que e é casada com Jerry Smith, um publicitário inseguro e impressionável, desde que engravidou na adolescência de Summer,  esteriótipo da adolescente moderna; fechando a família temos Morty, o filho caçula de 14 anos, influenciável e assustado que se torna parceiro de seu avô Rick nas mais insanas e geniais aventuras través das infinitas possibilidades do multiverso.

A série é brilhante! Usa de todo o potencial que as animações possuem desde sempre para apesentar conceitos muito bacanas de ficção científica, abusando do humor negro para criticar a sociedade e nos fuzilando com dezenas de referências por episódio, sem contar que consegue (em quase todo episódio) apresentar duas ou até três histórias simultâneas com o mesmo peso e força e isso tudo em vinte minutos por episódio!

Mas sem mais delongas, vamos ajustar a pistola de portais e indicar esse nove episódios essenciais:




Temporada 1:

Episódio 1Piloto: É impossível que qualquer série siga em frente sem apresentar um piloto descente, e no caso de “Rick e Morty” não é diferente. O primeiro episódio da primeira temporada é um resumo de quase tudo que acabamos por encontrar nas três temporadas que o segue. Nele, somos apresentados tanto a rotina mundana da família Smith, com Jerry e Beth sendo chamados à escola do filho pelo fato dele faltar quase todos os dias, assim como ao multiverso e aos primeiros exercícios de humor negro da trama, com a dupla protagonista indo até outra dimensão para pegar mega-sementes, que Morty tem que contrabandear escondendo no reto e Rick guiando o neto de volta através de alfândegas alienígenas e travando uma verdadeira guerra para retornar a terra.

Frase:
- Atire neles Morty!
- Mas não quero machucar ninguém Rick
-Atire Morty, eles são robôs
(Morty atira e o sujeito cai sangrando)
-RICK ELES NÃO SÃO ROBÔS!!
-É uma figura de linguagem Morty, eles são burocratas, eu não respeito eles.


Episódio 6 – Cronembergs: Nesse episódio Morty pede uma poção do Amor para Rick, para conquistar sua paixão, Jéssica, no baile da escola; só que, por puro descaso, o genio da família não avisa ao neto que a única contraindicação é se seu alvo estiver gripado… só que a festa onde Morty pretende seduzir a colega, é o “baile anual da Gripe”!! Surge daí uma confusão em cadeia que começa com todas pessoas do mundo se apaixonando por Morty, depois todos acabam se transformando em louva-deus e mais tarde em “Cronembergs” (referência ao diretor de filmes como “a mosca” e “Scaners”) monstros deformados que misturam diversos animais, resultando que Rick e Morty acabam fugindo para outra dimensão, onde suas versões estão mortas tomando seus lugares e abandonando sua família antiga. Foi o primeiro episódio que me chocou e me conectou com o niilismo que o comportamento indiferente de Rick acaba aos poucos expondo e que vai se destacando cada vez mais por episódio.

Destaque para o silêncio e choque de Morty ao final quando (ao som de: “Look On Down From The Bridge”) ele percebe que não há volta e que agora é hóspede de outra dimensão e parte de outra família.


Episódio 8-TV interdimensional: Assim como muitas séries de TV “Rick e Morty” possuem um episódio especial por temporada, no caso da obra de Harmor e Roiland, esse especial consiste na família Smith assistir a TV interdimensional, um aparelho criado por Rick onde canais infinitos de dimensões infinitas estão disponíveis. O episódio se divide em pequenas histórias que passam na TV como programas assistidos pelos protagonistas e que foram improvisados pelos autores, gravados em áudio e depois desenhados (o que dá o ar supremo do no sense) enquanto que Jerry, Beth disputam para assistir, através de uns óculos que acompanha suas versões de outras dimensões, como seriam suas vidas caso Summer não tivesse nascido.

Esse episídio tem um final espetacular, pois dá sequência aos acontecimentos do episódio 6, deixando claro que, apesar de se tratar de uma animação, nada ali é zerado e tem consequências, quando Morty, sabendo da tristeza da irmã, quando esta descobre que seus pais tentaram aborta-la e que a vida destes em outra dimensão foi um sucesso, devido a sua ausência, diz a frase que me fisgou de vez:

Frase: "...Não fuja, ninguém existe com um propósito, ninguém pertence a nenhum lugar e todo mundo vai morrer..”


Temporada 2:

Episódio 3 – Unidade: Com uma história que abusa das referências a clássicos do terror, como “invasores de corpos” e “Alien”, além de, ao final, mostrar toda a solidão que pesa sobre o genial Rick Sanchez, O terceiro episódio da segunda temporada é um dos meus favoritos. Nessa aventura, Rick, Morty e Summer recebem um pedido de socorro e são atraídos a uma nave que se encontra à deriva no espaço, onde sobreviventes de uma raça alienígena informam que todas as pessoas de seu planeta foram assimiladas por uma entidade que está unindo todos os seres em uma única consciência; logo a seguir, descobrimos que essa “Unidade” é uma ex-namorada de Rick e partimos para o planeta dominado por ela, onde a simples presença do protagonista e seus netos põem em risco todo o propósito de ordem da entidade e ameaça a segurança de todo o planeta.

Destaque para o momento onde a Unidade percebe o mal que a presença de Rick causa e resolve se afastar de seu ex-namorado de vez, e como ela É todas as pessoas do planeta, esconde os habitantes e Rick vai sabendo o motivo de seu afastamento através de cartas que vão sendo atiradas a ele pela rua.

Referência à "Invasores de corpos" no episódio "Unidade"

  Episódio 4 – Mostrem o que tem: Uma cabeça gigante entra na atmosfera da terra causando todo tipo de desastre natural e começa a repetir a frase “mostrem o que tem!”; enquanto os demais personagens da série se refugiam em uma igreja para orar por salvação, acreditando que se trata de Deus, Rick e Morty vão até o pentágono (na maior referência ao filme “Doutor Fantástico”) explicar que se trata de uma raça alienígena que se alimenta de… um Hit musical! A partir daí a dupla fica encarregada de criar uma música para satisfazer o desejo do visitante, enquanto o restante da família se envolve na criação de uma seita extremista chamada “cabecismo”, que tem o alien como um suposto deus.

          “ Morty: -Rick, você é músico?
           Rick: - E quem não é?
           Morty: -Eu!!
           Rick:   - Não com essa atitude!”
 
MOSTREM O QUE TEMMM!

Episódio 6 – Keep Summer Safe / mundo na Bateria: Rick, Morty e Summer estão em uma dimensão para assistir a um filme, quando ao tentar ligar a nave, descobrem que estão sem bateria. A dupla de protagonista parte para dentro da bateria, onde Rick criou uma civilização que tem o objetivo de abastecer a energia de sua nave e celular, só que esta desenvolveu uma sociedade e também está criando uma civilização dentro de outra bateria para ter menos trabalho; enquanto isso, Summer é deixada na nave e Rick ordena para que a máquina a deixe segura. Parte daí, na sociedade dentro da bateria, a discussão sobre escravidão e utilização do empenho do outro para trabalhar menos, enquanto que Summer testemunha todo tipo de atrocidade proporcionada pelo computador da nave para poder cumprir a ordem dada por seu avô.

      “-Você tem um planeta inteiro gerando energia pra você”? Isso é escravidão!
         -É sociedade, eles trabalham uns para os outros, compram casas, geram filhos…
      “-Isso parece escravidão com umas coisinhas a mais!”
"manter Summer segura!"

Temporada 3:

Episódio 1 – Fuga da prisão: No final da segunda temporada Rick se entrega à federação Galática (órgão que o tem como um terrorista) e é preso, o primeiro episódio da terceira dão sequência a esses eventos e se divide em duas histórias, sendo uma guiada por Rick, que começa em uma viagem por suas memórias e segue até sua espetacular fuga da cadeia e a outra acompanhando Morty e Summer em um “plano” para libertar o avô.
Esse episódio se destaca não só pela extrema violência e reviravoltas que a trama dá, levando mesmo Morty a visitar sua família original na dimensão destruída no episódio “Cronembergs” e Rick a trocar de corpo umas quatro vezes, como pela qualidade do roteiro e dos conceitos bacanas que apresenta o que lembra um bom filme de ficção científica e deixa claro a que veio a terceira temporada.


Episódio 2 – Realidade pós-apocalíptica: Meu segundo episódio favorito. Nele, Rick e seus netos partem para uma realidade pós-apocalíptica que mistura “Mad Max” e “Game of Thrones” atrás de um tipo raro de minério que fornece energia. Para conseguir roubar uma grande pedra desse material que os nativos levam consigo em suas caçadas e matanças, o protagonista e seus ajudantes resolvem ficar na dimensão e deixar androides para substituí-los em casa, surge daí um relacionamento entre Summer e “Hemorragia” um dos líderes do grupo nativo, enquanto Morty descarrega toda sua raiva reprimida em uma arena, depois de que tem as memórias musculares do braço de um inimigo do grupo, que morreu em batalha, injetados em si.
Destaque para como se destrói qualquer espírito guerreiro ou relação ao final do episódio, quando Rick, depois de criar uma sociedade classe média baseada na comodidade, o que transforma os guerreiros sanguinários em meros “telespectadores”, transforma a vida da neta em uma rotina, a convencendo a ir embora e depois parte, levando consigo a fonte de energia da evolução que ele criou para aquela realidade, o tão cobiçado minério.


Episódio 7 – Contos da Cidadela: Esse é o meu episódio favorito e nem conta com a presença dos protagonistas, ou mais ou menos. Nessa história, voltamos a Cidadela dos Ricks, um lugar onde Ricks de várias realidades se uniram para formar uma sociedade onde vivem apenas Ricks e Mortys e que é apresentada no décimo episódio da primeira temporada e destruída no primeiro episódio da terceira, quando Rick escapa da cadeia. O episódio conta como a cidadela está se reestruturando depois de sua quase extinção e a trama acompanha cinco histórias, Um Morty que quer ser presidente, Um Morty que é assessor do candidato, Um Rick e Morty policiais, Um grupo de Mortys que foge da escola para viver uma última aventura e um Rick Operário cansado de sempre se dar mal. O Episódio, além de ser melhor do que quase TODOS os filmes que vi esse ano, ainda usa e abusa de referências a filmes como “Conta Comigo”, “Dia de treinamento”, “Dia de Fúria”, entre muitos outros, para dar sequência aos acontecimentos da primeira temporada e conectar ainda mais a história, isso tudo, repito, em apenas vinte e um minutos!!

Frase: “Discursos são para campanhas, agora é a hora de ação!”


Bom, mesmo o texto tendo ficado gigantesco (e mais raso que as expectativas de Jerry Smith), nada que foi dito chega aos pés do que a série apresenta ou substitui a experiência de assistir cada episódio. Com um humor absurdo que explora todo potencial de animação, crítica inteligente e sínica e, toda a força de um niilismo de deixar Nietzsche orgulhoso, “Rick e Morty” vieram para revolucionar o universo das séries e prender os fãs de ficção científica no universo C-137. Então a dica está dada (como se ninguém conhecesse) e se Morty Sanchez Smith estava certo no T1-Ep8 e ninguém existe com um propósito, ninguém pertence a nenhum lugar e todo mundo vai morrer, vamos assistir TV e dar uma chance ao novo.


Fica a dica e fica tranquileba !


sábado, 18 de novembro de 2017

LIGA DA JUSTIÇA (2017) : Ufa DC, ufa!!




Já dizia Marco Aurélio: “É melhor ser reto do que retificado”, e quem pode discordar do imperador e filósofo romano? Até porque, fazer o mea culpa e tentar recomeçar, ainda mais em tempos como os em que vivemos, onde um tropeço é o suficiente para uma enxurrada de críticas ou o total desprezo, não é nada fácil. Mas nem todos têm uma educação estoica como o nobre romano, não indo longe da mediocridade humana e nessa, penso que o oportuno refrão da música “Velocidade da luz” do grupo Revelação, onde se diz “... todo mundo erra sempre, todo mundo vai errar!” fale mais alto do que qualquer frase solta de velhas filosofias.

Foi com esse pequeno texto em mente, repetido a exaustão como um mantra, que entrei quinta (16/11) na sala de cinema para assistir a “LIGA DA JUSTIÇA”, o quinto filme do universo compartilhado da DC / Warner (terceiro dirigido por Zack Snyder) que, depois dos fracassos de crítica de “B x S” e “Esquadrão Suicida” chegou aos cinemas dia 15 de Novembro com a obrigação moral de, junto do sucesso de “Mulher-Maravilha”, redimir todo o projeto da DC e deixar claro aos fãs que, persistir em erros não é algo digno do sangue das amazonas, dos filhos de Krypton ou de cavaleiros das trevas.

O filme segue os acontecimentos explorados em “Batman vs Superman”. Depois da morte do homem de aço, Bruce Wayne, contando com a ajuda de Diana Prince, vai atrás dos indivíduos com habilidades especiais descobertos por Lex Luthor para ajuda-los a deter a invasão com a qual teve uma visão no filme anterior.  No entanto, enquanto o cavaleiro das trevas recruta com dificuldades Aquaman, Cyborg e Flash (esse nem tanto) para o seu time, um mal ancestral, invocado pelas caixas maternas (três relíquia alienígenas de posse dos Atlantes, Amazonas e humanos), desperta para conquistar a terra (UuuuuUU), devendo essa nova aliança a árdua missão de impedir o mal que cobiça o nosso mundo.

Não sei se foi o meu mantra, as refilmagens feitas por Joss Whedon ou simplesmente a ausência dos filtros sombrios de Zack Snyder, mas saí da sala de cinema bem mais satisfeito do que eu imaginava que sairia.  Pela segunda vez (dentro desse novo universo) a Warner conseguiu trazer um filme descente envolvendo os personagens da DC comics. O filme tem problemas? Sim, tem e falaremos deles mais abaixo, mas os mesmos conseguem ser diluídos naturalmente em meio a uma trama que foca mais em divertir do que tentar mostrar toda a amargura que repousa no coração dos heróis, como os filmes anteriores dirigidos por Snyder.


Para começar, gostei bastante da pegada mais cômica dessa produção, principalmente das cenas protagonizadas pelo Flash, que é interpretado por Ezra Miller (nunca critiquei) que, apesar de utilizar o nome do mais famoso flash (Barry Allen), trás uma versão do personagem para o cinema bem diferente da vista na série da CW, ao apresentar um mix dos “flashes” mais icônicos das HQ’s. No filme, Barry Allen, em uma versão bem mais jovem do que antes vista, lembra muito mais o leve e engraçado Wally West, sobrinho de Allen nos quadrinhos e que foi o flash depois da Crise nas infinitas terras (onde Barry morreu) ou até mesmo Bart Allen, o atrapalhado neto de Barry, que vem do futuro para aprender a usar seus poderes e que fez sucesso ao integrar a Justiça jovem junto com o terceiro Robin e o segundo Superboy nos anos noventa, do que o sério Barry Allen que eu acompanhava nos gibis publicados em formatinho nos anos oitenta aqui no Brasil. E é através dessa versão do Flash que somos apresentados ao novo ponto de vista do projeto da DC nos cinemas, muito mais colorido e menos amargurado, onde apesar do trauma inicial (teve a mãe assassinada quando era criança) o jovem herói ainda consegue se maravilhar com o mundo novo que se mostra a ele após conhecer Bruce Wayne (vide cena na Bat-caverna) e ter esperança na justiça, ao não desistir do pai que é acusado de assassinar sua mãe e que ele sabe que é inocente, assim como se arriscar para salvar outras pessoas, em meio a uma invasão alienígena, mesmo nunca tendo participado de uma batalha de verdade.

Outro ponto bacana do filme é o retorno do Superman (spoiler) e a nova personalidade que deram para o maior herói das HQ’s da DC. Depois de dois filmes mostrando um Clark Kent que beirava o egoísmo, para não dizer que o abraçava por completo, onde o mesmo, ou estava mais interessado em bater em Kryptonianos que olhavam torto para sua mãe ou para ele em “O homem de aço”, não se importando em destruir Smallville e Metrópolis no caminho, ou proteger quase exclusivamente seu interesse romântico, a onipresente Lois Lane em “B vs S”, agora ele finalmente lembra aquele “farol ético” que é capaz de conduzir a humanidade ou se sacrificar por ela  sem pensar duas vezes. Isso fica bem claro na sequência de batalha onde, após ouvir os apelos de pessoas que se encontram ao redor do lugar ameaçado, ele deixa seus novos super-amigos com a missão de vencer o grande vilão e parte para o resgate nos presenteando com uma sequência que é a cara daquele homem de aço das HQ’s, sendo tão heroica quanto cômica.




Sobre a Mulher-Maravilha há muito pouco para se falar, a não ser que ela continua tão maravilhosa quanto nos outros filmes onde apareceu para iluminar, ficando claro que, se o universo DC parece começar a funcionar, ela é a principal responsável. Vale também uma menção honrosa ao esforço que a produção fez e o sucesso que obteve ao dar carisma e relevância a alguém como o Aquaman, pois , com certeza, não é fácil colocar um personagem cujo poder mais famoso, depois de respirar em baixo da água, era falar com peixes, no nível de Mulher-Maravilha e Batman e, mesmo esse fato virando uma piada que é repetida duas vezes dentro do filme, suas cenas de batalha e presença, somados à alguns momentos de comédia (como quando eles estão indo para a batalha final e ele senta sobre o laço da verdade) fazem com que realmente nos importemos com o herói, fato que também serve para o Cyborg, que mesmo tendo menos carisma, surge na trama como chave para entender e “desligar” as caixas maternas, além de ter uma crescente sintonia com o Flash que pode ser a semente de uma parceria bem bacana no futuro.


No entanto, como eu disse acima, o filme também tem seus problemas e nenhum é, para mim, maior do que o Batman. Nas HQ’s, Bruce Wayne sempre teve sua inteligência, foco e força de vontade (além da habilidade física) como seu verdadeiro super poder (e não a riqueza) e estes eram controlados por uma seriedade que conseguia inspirar o respeito de todos, já em “Liga da Justiça”, apesar de não nos depararmos com um Batman assassino e descontrolado como o de “B vs S” novamente não temos a presença DO Homem-Morcego. Desta vez o que encontramos é um alívio cômico que serve de escada para toda sorte de piadas (quando elas não surgem dele mesmo), gaguejando e fazendo cara de susto a todo o momento e que, além de parecer fugir da liderança da equipe, repassando isso, uma hora para a Mulher-Maravilha e outra para o Super man, termina quase como o expectador da batalha final ao se encarregar dos vilões coadjuvantes (os para-demônios), não parecendo nem de longe, aquele super detetive, ninja, gênio e Bilionário dos gibis e sim um “Gavião-Arqueiro” de Luxo ou o Dedé dos trapalhões.

Outra coisa que não curti muito (Além das centenas de câmeras lentas durante o filme), foi a cena de batalha que é mostrada quando é explicado o que são as caixas maternas. Além de a explicação parecer uma história inventada na hora pela Mulher-Maravilha baseada em “O senhor dos anéis”, pois fala da união dos povos diferentes (trocando Elfos / Anões/ Humanos por Atlantes / Amazonas / Humanos) para destruir uma relíquia que dá poder a um inimigo e pode por um fim em tudo, a cena que se desenrola é muito artificial, com um CGI bem Playstation 4 e que mostra um monte de personagens que quase não dá para saber quem são, mal se identificando um Lanterna verde ali no meio (e que morre miseravelmente) e acaba sem dar as respostas que parecia prometer, deixando apenas a dúvida de quem eram aquelas pessoas com poderes e para onde foi o anel do lanterna morto.


Apesar dos pequenos problemas, “LIGA DA JUSTIÇA” é um bom e divertido filme, que consegue dar novos ares ao projeto da DC nos cinemas e exorcizar (até certo ponto) os erros de filmes como “O homem de Aço” e “Batman vs Superman”, em uma demonstração de que ser retificado, principalmente por Joss Whedon, é melhor do eu seguir sendo reto por Zack Snyder. Fica agora a missão da Warner de conseguir fazer o mesmo nos filmes de heróis menos conhecidos ou icônicos como o Cyborg, assim como retirar toda a carga caricata criada em personagens como Lex Luthor e Coringa, que tiveram aparições desastrosas em filmes anteriores do selo, mas isso é um problema para o futuro, por hora eu digo, dê uma chance a DC e assista “Liga da Justiça” e se não concordar com tudo que eu disse acima, me perdoe, porque “Todo mundo erra sempre, todo mundo vai errar” uma vez ou outra, mas as vezes acerta ... Snyder que o diga!



domingo, 12 de novembro de 2017

A MORTE TE DÁ PARABÉNS (2017)




       Ninguém quer viver na mesmice! É para fugir da rotina, que as pessoas mudam o corte de cabelo, pulam de paraquedas, viajam para lugares diferentes, experimentam novos sabores e fazem o que for preciso para ter em suas vidas a sensação de novidade sempre presente. Mas, se se sentir como estivesse trancado em uma rotina já é horrível, imagina ficar realmente preso para sempre no mesmo dia, e mais, ficar preso para sempre no PIOR dia de sua vida, a data de seu assassinato?! Pois essa é a trama central de “A morte te dá parabéns”, filme de fantasia /suspense/ terror dirigido por Chirstopher B. Landon ( “Como sobreviver a um ataque zumbi”), produzido pela blumhouse (a mesma de “Corra!”) e estrelado por ninguém muito importante, que me divertiu ao apresentar uma mistura de um dos temas que mais falei, com um dos que mais  fujo: loop temporal e terror.

   
A história é a seguinte, Tree é uma estudante universitária que tem sua simpatia, generosidade e empatia, inversamente proporcionais a sua popularidade, beleza e influência e, ela É muito bonita, popular e influente! Ou seja, Tree não é uma pessoa legal, e, todo esse amargor só cresce quando, após um porre na noite anterior, ela acorda, no dia de seu aniversário, totalmente desorientada na cama de um colega que mal conhece. Só que esse não será um aniversário comum, pois depois de sair do alojamento onde passou a noite e passar por mais um dia normal na universidade, trocando alfinetadas com a fútil líder de sua irmandade, desprezando os parabéns de sua melancólica colega de quarto, ridicularizando um ex-pretendente e visitando o trabalho de seu amante/ professor, Tree, ao sair para ir a mais uma noite de festa, se depara com uma estranha figura, trajando negro e uma máscara da mascote do time local e depois de uma perseguição ela é assassinada! Tudo poderia terminar para ela nesse exato momento, se sem entender nada, ela acordasse, novamente, na manhã de seu aniversário no quarto de seu colega para reviver o mesmo dia, restando a ela, depois de continuar, noite após noite, sendo assassinada de maneiras diferentes e voltando para manhã do mesmo dia, nada mais do que tentar entender o que está acontecendo e descobrir quem é seu assassino para assim quebrar o loop temporal.


     Achei a ideia do filme bem bacana! Misturar terror adolescente que remete a clássicos como “Pânico” e “Haloween” com um loop temporal que lembra  “feitiço do tempo”, “ARQ” e “No limite do amanhã”, consegue trazer algo novo para a tela, ao mesmo tempo que dá um frescor a ambos estilos já bem batidos, ganhando mais um aditivo  quando, após a protagonista aceitar seu destino, há um acréscimo de humor na trama e depois, uma pitada de drama, quando é descoberto que as múltiplas mortes de tree custam um preço alto para ela; sem contar que, no decorrer da história, quando a protagonista percebe que não é alguém de quem sua mãe poderia se orgulhar, acabamos nos rendendo a seu carisma e torcendo por ela.

      No entanto, apesar de sua boa ideia e de ser bem divertido, o filme perde um pouco do que poderia entregar por causa de sua montagem e escolhas de roteiro. O principal erro a meu ver, é a introdução de um assassino em série, famoso dentro do universo do filme, que surge para distrair a atenção da protagonista. Penso que nada teria de errado na presença do personagem na trama, caso ele  fossemos perfeitamente apresentado desde o início da história, no entanto, isso não acontece e , apenas prestando muita atenção em detalhes, como quando a TV do quarto da protagonista está ligado, ou quando ela está na lanchonete com Carter (o colega onde ela sempre acorda no quarto) é que vemos menções ao dito serial killer, o que não explica o fato de que ela tenha certeza de que é ele que está a matando dia após dia, a não ser que exista ainda um erro de montagem no filme e esse para mim é o segundo grande erro.

    Assistindo ao filme pela segunda vez (sim, eu estava com tempo) se percebe que ao apresentar fotos das vítimas do dito assassino, todas são loiras e bem parecidas com a protagonista, em especial uma que lembra a mãe de Tree, que aparece em flashbacks. Ou seja, pode-se entender que a mãe da protagonista foi morta pelo assassino e que, como é seu aniversário, e como ela diz, fazer aniversário no mesmo dia da mãe e o assassino estar na cidade, talvez, isso tenha algo a ver, mas parece que a montagem vacilou e  absolutamente nada em relação ao assassino, suas vítimas e porque ela acredita que ele é o responsável por tudo que está acontecendo à ela, é explicado.


     Então, sem querer me repetir, se você estiver a fim de matar um pouco da saudade dos filmes de terror dos anos oitenta e noventa, mas ao mesmo tempo quer algo que apresente uma coisa nova e fora da caixa mas sem ter a obrigação de pensar muito, assista a “A morte te dá parabéns” um filme que mesmo sendo meio repetitivo em si, com certeza não vai te prender na maior das mesmices.