quinta-feira, 18 de maio de 2017

O HOMEM DUPLO ou um reflexo na escuridão (A Scanner Darkly) - de Philip K. Dick


No decorrer da minha vida de leitor, alguns livros ficaram marcados nas minhas lembranças quase como um amigo que viveu uma história única à meu lado e que por vezes tenho vontade de visitar para conversar sobre aqueles bons momentos. Um desses livros, é o fantástico "O Homem duplo", de Philip K. Dick, que tinha lido a quase dez anos e que tive o prazer de reler recentemente, me deixando novamente maravilhado pela história fantástica, de um mundo totalmente monitorado e tomado pelas drogas, mas onde Dick consegue com sua genialidade, em sua obra mais atual e madura, dar vida a seus personagens de uma maneira original e extremamente humana.

Capa da edição da Rocco
"O Homem duplo", como citado acima, se passa em um futuro onde o tráfico de drogas venceu e grande parte da população é formada por traficantes e usuários; a polícia monitora a todos que quiser e seus agentes trabalham em tamanho sigilo, que nem ao menos se conhecem, utilizando, quando presentes na delegacia, uma roupa holográfica que não permite suas identificações. Nesse mundo, somos apresentados a Fred um policial disfarçado e viciado na perigosa substância D, que é infiltrado, com o nome de Bob Arctor, entre um grupo de drogados e acaba com a missão de investigar a si mesmo. Carregando o peso de seus papéis contraditórios e vítima de seu vício e solidão, Fred/Bob Arctor passa a ter seguidas alucinações e dúvidas sobre sua vida, vindo a esquecer se ele é na verdade o traficante Bob, que deve ser vigiado, ou o policial Fred que deve prende-lo.


Não sei dizer se esse é o melhor livro do autor, afinal Dick escreveu mais de cinquenta obras e eu não tive o prazer de ler mais que dez delas; mas, dos que eu li, essa parece ser sua história mais madura e sensível. O motivo disso parece passar pelo fato que, assim como o protagonista, Philip K.Dick, também viveu experiências com drogas e, conforme a homenagem que faz ao final do livro, perdeu diversos amigos em decorrência do vício, isso faz com que o livro pareça ser escrito com muito mais sentimento e carinho que as demais obras do autor, onde a especulação e a sociedade parecem tomar a frente dos indivíduos. Em "O homem duplo" os personagens se destacam muito mais que o mundo que os cerca, sendo que somos informados sobre essa realidade, do mesmo modo que os superiores de Fred/Bob Arctor, através dos olhos de outras pessoas e essa maneira de nos mostrar o universo onde a história se desenrola, retira da trama todo maniqueísmo possível, fazendo com que não sobre espaço para vítimas ou algozes, apenas para pessoas, que assim como o protagonista, vivem múltiplos papéis, com todos seus erros, dúvidas e acertos, e, essa complexabilidade, transforma o livro em algo único e especial.



Mas mesmo que a sociedade onde a história acontece fique relegada ao plano de fundo da trama, conseguimos sentir a opressão e o caos controlado que dela emana, podendo classifica-la como uma forma de distopia. Nesse mundo de "O Homem duplo", onde as ruas são tomadas de traficantes e usuários, nem os próprios agentes estão imunes a vigilância intensa e a corrupção, acabando por viverem muito mais na zona marginal onde foram infiltrados, e se acostumando com essa realidade, do que tendo acesso aos benefícios dos que pagam o seus salários e recompensas, que é o grupo apelidado de "caretas". Esse grupo, que é composto pelas pessoas mais abastadas (ou menos ferradas), vive distante das realidades das ruas, ainda seguindo o modelo americano de vida e usufruindo de todas as garantias que sua posição permite. Essa divisão da sociedade, tendo os caretas como grupo dominante, é apresentada de maneira sutil pelo autor, mas marca a cisão social que coloca um pequeno grupo sobre o restante da população e isso fica exemplificado quando o protagonista se vê obrigado, já no início do livro, a palestrar (utilizando seu traje holográfico) para um grupo desses indivíduos em um club fechado e contar para eles o que vê diariamente nas rua, fato que inimaginável para eles; assim como quando, conversando entre si, os amigos de Bob especulam o que existe dentro de um shopping, um lugar onde pessoas do tipo deles jamais entrariam; isso vem a se somar ao fato de que na história, os caretas são sempre mencionados e nunca abordados ou presentes diretamente na trama, tudo que vemos se passa nas ruas, longe da elite, que fica inatingível para aqueles para os quais sobrou apenas o vício e o descarte como alternativa.


poster do filme
No entanto, tanto os personagens marcantes, quanto o universo onde eles existem, não passariam apenas de uma boa ideia, caso não fosse a maneira primorosa como o autor resolveu contar a história. Munido de uma narrativa que oscila entre o trágico e o cômico, Philip K. Dick, consegue ir além da sensação de estranheza e reflexão de seus textos, mas sem fugir da base de sua obra, construída em cima do "O que é real?", o que nunca foi tão bem abordado quanto nesse livro, onde nem mesmo o protagonista sabe quem realmente é. E essa confusão na mente de Bob Actor vai surgindo de forma quase imperceptível com a inclusão de frases em alemão no meio do texto, que são a manifestação dos sintomas do abuso de drogas no personagem, em que Dick utiliza trechos de "Fausto" de Goethe, uma história onde o herói busca enganar o diabo, para descrever, tanto o início da confusão mental do protagonista, como para indicar suas intenções e questionamentos subconscientes, pois afinal quem seria o diabo de Arctor? Os drogados e traficantes com quem ele convive? A sociedade policial que ele representa? Ou ele mesmo que transita entre esses dois mundos?

O livro ainda é repleto diálogos brilhantes e muito engraçados por parte dos amigos de Bob Arctor, que assim como os pequenos e fantásticos contos, que aparecem como "trips" devido ao uso de drogas pelos personagens, dão o tom de insanidade da trama e coroam o talento do autor. Dentre esses diálogos e contos, o que é mais marcante para mim é o da tentativa de suicídio de Charles Freck, onde desiludido com o mundo, um dos amigos de Arctor resolve tomar uma overdose regada a vinho barato e transformar seu sacrifício em um ato de protesto. Assim ele planeja ser encontrado em sua cama com um exemplar de "A nascente" de Ayn Rand, para demonstrar que era um super-homem incompreendido pelas massas e, uma carta de reclamação devido ao cancelamento de seu cartão de crédito, para culpar o sistema por sua morte; mas no último minuto ele resolve tomar a overdose com um vinho bom, compra um mondavi cabernet sauvignon e toma as pílulas com o vinho, fica esperando deitado e percebe depois que não se tratavam de barbitúricos, mas um psicodélico vagabundo, minutos depois ele vê ao lado de sua cama uma criatura extra dimensional cheia de olhos trazendo consigo um pergaminho com todos seus pecados, em sua trip, mil anos depois a criatura ainda lia seus pecados do jardim de infância, dez mil anos depois os da sexta série, Freck olha para criatura, meditando sobre o que estava acontecendo e pensa..."Pelo menos bebi vinho do bom!".

Freck em seu "Suicídio" no filme de 2006

Aliás, esse trecho de "O homem duplo" citado acima, que exemplifica o humor e talento do autor, foi o que me levou a procurar esse livro a dez anos atrás. Tudo devido a adaptação da história para o cinema em 2006, roteirizada e dirigida por Richard Linklater (diretor de Escola de Rock e Boyhood) onde a cena de Charles Freck é apresentada de forma idêntica a no livro e ainda com a vantagem de ser narrada com uma gravação do próprio Philip K. Dick, que quando assisti e me deixou boquiaberto. O filme, que é a adaptação mais fiel dentre as inúmeras histórias do autor que foram levadas para o cinema, contou com um elenco de peso, que além de Keanu Reeves, como Bob Arctor/Fred, tinha Robert Downey Jr, como Jim Barris, Woody Harrelson, como Luckman e Winona Ryder, como Donna e, se tornou famoso, ao utilizar uma técnica de pós produção que aplica uma pintura ao filme, dando a ele a aparência de animação, fato que o diretor afirmou ter inserido para causar uma sensação, a quem assistisse ao filme, semelhante a de como um usuário de LSD percebe o mundo durante uma viagem de drogas.

Capa da edição da aleph
Assim como o sua adaptação cinematográfica, o livo, apresenta muito pouca tecnologia futurista envolvida na trama, tendo em vista que é uma história de ficção científica e escrita por PKD, o mestre em criar aparelhos malucos com nomes estranhos. Claro que ainda existem os "Scanners em cubo 3D" e os "Cefscópios", mas esses equipamentos estão ali só para lembrar que a trama se passa no futuro e, a decisão de deixar mais essa questão como pano de fundo, contribui para a maturidade do livro, que citei no inicio do texto e acaba por coroar o autor, que tanto se empenhou em imaginar o futuro, com a visão de futuro bem mais próxima da real, do que em qualquer outro de seus livros e isso acontece justamente na história onde ele decide olhar mais para trás em sua própria vida, do que pensar trinta anos na frente para a sociedade, o que torna "O homem duplo" sua obra, dentro do possível, mais pé no chão.


"O Homem duplo" de Philip K. Dick passou novamente pela minha vida como um amigo que mora longe, mas que com quem sei que sempre posso contar. Uma história fantástica, vivida em meio as drogas e repressão, mas que deixa de lado o coletivo e a especulação futurista e, vai mais a fundo no indivíduo, abordando a ignorância, o medo, a solidão e até o vício como conceitos que nos tornam humanos. O livro mais maduro e pé no chão desse grande nome da ficção científica e meu escritor preferido (como eu não canso de lembrar) e leitura obrigatória não apenas para quem é fã de PKD ou ficção científica, mas para quem aprecia uma boa história. A editora ALEPH relançou o livro recentemente com o título "um reflexo na Escuridão" (título bem mais próximo do original em inglês).  Minha dica é, pegue o livro, sente-se em um lugar bacana, abra um bom vinho e deixe sua mente viajar nessa trip distópica futurista e caso, por algum motivo, o livro não lhe agradar, relaxe...pelo menos você terá tomado um vinho do bom!!



                                           Trailer do filme de 2006

sábado, 13 de maio de 2017

A vigilante do amanhã: Ghost in the Shell (2017)


Em 1995, a Bandai, trazia para o cinema, com a direção de Mamoru Oshii e baseado no mangá de Shirow Masamune, "Ghost in the Shell" (ou o Fantasma do futuro, no Brasil), a animação que se tornaria tanto um ícone do estilo japonês de produzir desenhos animados, quanto um clássico da ficção científica cyberpunk, influenciando, acima de tudo, as irmãs Wachowski a escrever, produzir e dirigir "Matrix" o filme que revolucionou o cinema no início desse século. Pois, vinte e dois anos depois da estréia do anime japonês, chegou aos cinemas mundiais, cercada de polêmica, dúvida e crítica, o live action dessa aclamada obra, agora produzida pelos estúdios americanos da Paramount e DreamWorks, com direção de Rupert Sanders e estrelada por Scarllet Johansson e Takeshi Kitano; e eu, que sempre sonhei em ver uma superprodução baseada em um dos clássicos dos animes, me despi de meu sobre-tudo de "ouvi dizer", coloquei meus óculos-scanners de curiosidade, liguei minha camuflagem holo-térmica e me joguei de cabeça para assistir "A vigilante do amanhã" disposto a tirar minhas próprias conclusões.


"A vigilante do amanhã: Ghost in the shell", se passa em um futuro onde o aperfeiçoamento dos cérebros e corpos humanos através de próteses biônicas já é possível, nesse mundo conhecemos a Major Mira Kilian ( Johansson), a primeira pessoa a ter seu cérebro transferido para um casco totalmente biônico. Mira, trabalha para o setor 9, uma força do governo especializada em terrorismo cibernéticos e, após uma missão de rotina, se depara com Kuze, um perigoso hacker, que está utilizando os robôs e pessoas com implantes cerebrais para assassinar diversos membros da cúpula e cientistas ligados à Hanka Robotics, a empresa que criou o corpo de Mira e efetuou o seu transplante; junto a isso, ela passa a ter visões e possíveis lembranças que a fazem se perguntar quem e o que realmente ela é, Resta agora à major, encontrar Kuze e investigá-lo tanto quanto a Hanka, para descobrir não só as intenções desse terrorista, como as da empresa que a criou, assim como seu próprio passado.


Como disse na introdução, fui assistir ao filme despido de meus preconceitos e do peso das opiniões dos outros, tentando acompanhar a produção sem compara-la ao anime de 1995, de forma a avaliar se o filme se sustenta sozinho, se é bom, divertido ou se realmente merecia as críticas que ouvi falar por aí. Então, o que eu poderia dizer sobre "Ghost in the shell (2017)"?

setor 9
O principal elemento do filme (como não poderia deixar de ser para um blockbuster de ficção científica) são os efeitos especiais. Achei muito bacana o designer futurista da cidade onde a trama se desenrola, com hologramas interagindo com as pessoas no meio da rua, outdoors 3-d em toda parte, assim como todos envolvidos na história (mesmo os figurantes) possuírem alguma parte biônica em seus corpos (exceto Togusa), a utilização dos efeitos para expor a situação dessa sociedade quase pós humana, ainda é somada a pluralidade étnica presente e seu modelo e cultura de rua, que embora tenda a nos dizer que é uma cidade asiática, não nos é permitido confirmar, por desconhecer qual sua língua oficial ou localização, nos passando um ar de superlotação e esmagamento do indivíduo, elementos típicos de obras cyberpunks e que automaticamente nos remete, pela semelhança, ao clássico "Blade Runner" de Ridley Scott.
Mas apesar de os conceitos e ferramentos estarem presentes e serem utilizados de maneira visual, o pouco tempo do filme e as decisões de roteiro os deixam muito em segundo plano no tocante a influência dessa solidão e do peso dos rumos dessa sociedade em cada cidadão, não sendo possível identificar seus reflexos nem na vida dos protagonistas, com exceção da Major (quando descobrimos um pouco de seu passado). Essa descoberta, e mais do que isso, sua busca, são um problema no enredo do filme, pois diminuem o peso dos vilões e torna necessário a diminuição do papel dos coadjuvantes para que protagonista se torne ainda mais forte e isso é uma falha que vem se repetindo de mais em adaptações, e , nesse filme não é diferente.


Falando dessas escolhas de roteiro para engrandecer o protagonista (fato que reclamo desde que o primeiro filme dos x-men, saiu em 2000) enxergo toda a seção 9 como vítima. O filme ganharia muito mais, se, embora a protagonista puxasse a história, todos seus companheiros tivessem relevância no desenrolar da trama, um ajudando a hakear o terrorista, outro investigando a Hanka, outro coordenando investigação sobre os assassinatos, de modo a montarem o quebra-cabeça no final, como em um bom filme policial. Nesse erro, penso que quem mais sofre é o parceiro da major, o Sargento Batou, que fora um conselho ou outro e algumas cenas de combate, pouco faz na trama além de ter seus olhos trocados por lentes biônicas.
Sempre Brava!

Junto a isso, também vem a somar a atuação da Scarllet Johansson. Eu sou fã da atriz e acho que ela tem um grande potencial, mas parece que depois de "os vingadores" de 2012, a atriz está revivendo o papel da Viúva Negra o tempo todo! Sua expressão é sempre carrancuda ou apática, não diferente da apresentada nos filmes "Lucy" e "Sob a pele" e seus movimentos parecem de quem não se sente confortável ou confiante. Entendo que isso é mais culpa da direção, que deve ter pedido que ela passasse a quem vê o filme que a Major Mira Kilian é mais que uma pessoa, é uma arma e então andasse como se estivesse entrando em um octógono, mas quem desempenhou o papel foi ela e esses pequenos detalhes parecem se sobrepor a trama, que talvez ganhasse um pouco mais de simpatia e destaque, se tanto sua protagonista, quanto seus coadjuvantes transparecem o mínimo de humor ou sarcasmo em algumas situações.


E por falar em trama, as motivações de alguns personagens e algumas respostas me deixaram um pouco confuso. Para começar, no que se refere ao pretenso vilão da história, o "Hacker" Kuze, ele mata, hackeia, manipula e chega a criar uma rede cerebral utilizando humanos para tentar descobrir quem realmente ele é, mas mesmo antes disso, ele parece perder a relevância na história e se transforma em um motivador vazio da major em busca de seu passado, sem contar que ele mesmo diz que foi um experimento "desmembrado e descartado", mas em nenhum lugar fica exposto que o montou novamente e como ele conseguiu se tornar relevante e uma ameaça para a Hanka. Dúvida semelhante eu tenho no tocante a própria indústria Hanka, um gigante da robótica e que além de contato e poder dentro da política daquela sociedade, fornece armas e equipamentos para o setor de segurança, mas que não consegue se livrar das investigações do setor 9 e ainda resolve utilizar um grupo obscuro de hippies de DCE de humanas como cobaias em seus experimentos, só porque estes protestavam contra o avanço da tecnologia na vida das pessoas; ora, se é um universo Cyberpunk, onde os grandes conglomerados dominam a sociedade e tem poder maior do que o próprio estado, qual a ameaça de um grupo de adolescentes rebeldes? E, qual a necessidade de tamanha maldade e força por parte da Hanka? É quase como se a Coca-cola se revoltasse e caçasse toda pessoa que fala mal de seu produto (e resolvesse lhes dar corpos biônicos), ao invés de apenas os ignorar e focar no mercado, o que parece pouco crível na realidade ou no cinema e essa motivação, tal qual a do suposto vilão, acabam por tirar um pouco do crédito da história do filme.

E.U.A x Japão

No entanto, mesmo eu tentando, é impossível evitar alguma comparação em relação a obra japonesa, em parte porque muito do que é bacana nesse filme de 2017 é apenas uma transposição para olive action do que já foi apresentado no anime de 1995, sem o mesmo aprofundamento e clima. O maior exemplo é a cena da perseguição até a lamina d'água, onde um bandido é perseguido pela Major, que se encontra invisível e ela o ataca o arremessando para um lado e para o outro e mais tarde se descobre que a mente do sujeito foi apagada e nela colocadas memórias falsas. No filme, é bem legal, mas no anime, toda situação e o desespero que toma conta do bandido ao descobrir que não possui filha nenhuma dão um exemplo ainda maior da solidão e exposição que as pessoas que vivem nesse mundo sofrem. O anime também é superior como trama policial, porque ele contém exatamente o que eu citei anteriormente sobre acompanhar uma equipe policial que se divide em grupos para investigar e monta uma situação ao final, dando destaque a todos na medida do possível; sem falar que todo o universo que cerca a trama no anime é um pano de fundo simplesmente aceito por quem vive lá e não contestado o tempo todo como apresentado no live action.
Cidade do Futuro

O aprofundamento filosófico que a trama japonesa tem, o filme americano também ficou devendo. No anime de 1995, somos expostos a muitas cenas de reflexão e silêncio, onde percebemos que os personagens estão se questionando, quando não apavorados com a situação, sem contar nos shots contendo frases bíblicas para buscar explicar a tomada de consciência do programa "mestre do fantoches" (vilão do anime) e até mesmo a utilização do nome original da Major, que seria Motoko Kusanagi e que faz referência a espada Kusanagi, uma lendária arma japonesa que foi tirada de dentro de um demônio, tudo a ver com a personagem, que é uma arma criada por um conglomerado gigantesco que se revela mal intencionado e onipresente. Certo, dirão que esse aprofundamento iria quebrar o ritmo do filme, mas se "Matrix", que é baseado em "Ghost in the Shell" conseguiu fazer, porque "A vigilante do amanhã" não seria capaz quase vinte anos depois de "Matrix"?


Apesar de todos esses problemas, "A vigilante do amanhã" não é um desastre, na verdade ele está muito a frente de filmes como "esquadrão suicida" e "Transformers". O universo da trama, embora confuso, pois mesmo imerso em um futuro onde a tecnologia e aperfeiçoamento dos corpos se faz presente, ainda possui cidadãos adolescentes que contestam essas mudanças; é apresentado de maneira razoavelmente satisfatório e encanta, como citado acima, pelo uso competente dos efeitos especiais e, embora não haja um aprofundamento nos personagens periféricos, a presença e as poucas falas que eles possuem, dão o ar (embora leve) de distrito policial e somando isso ainda as cenas de ação, que são legais, embora que muitas sejam bem escuras, posso dizer que o filme se sustenta sozinho ( se bem que as vezes se segurando na parede), podendo ser visto como um filme mediano, esses que passam na TV aberta e ser assistido tranquilamente por quem viu ou não os animes, pois diverte bastante para quem quer apenas desligar a mente e ver um bom filme de ação.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

THE WARRIORS - os selvagens da noite (1979) #Zerocult 6


Nova York, 1979. Antes da Máfia ser esmagada, antes da economia americana voltar a crescer, antes do talco sem cheiro dominar os embalos de sábado e, principalmente, antes de proibirem crianças com menos de seis anos de escreverem um roteiro para cinema, um grupo de nove membros de uma turma da pesada parte em uma fuga alucinante depois de serem acusados de um crime que não cometeram. Sim meus amigos! hoje falaremos sobre "The Warriors", ou como foi chamado em nossas terras tupiniquins, "Guerreiros, os selvagens da noite", a maior Ode já feita ao tosto mundo das gangues novaiorquinas e que, além de comprovar que entre os anos setenta e oitenta o mundo entrou em outra dimensão, foi a produção responsável pela uma frase que me persegue por décadas:

"Guerreiiiroosss... Venham aqui Brigaaarrrr!"


"The Warriors", conta a história de nove representantes da Gangue dos Guerreiros, originária de Coney Island, que, assim como outras cem gangues da cidade, é convidada a participar de uma "assembleia" organizada por Cyrus, o líder da maior gangue de Nova York, "Os Riffs", com a intenção de organizar e unir os grupos divergentes e assim dominar a cidade. A reunião, que ocorre no território dos Riffs, no Bronx, começa a empolgar os representantes das Gangues, mas no meio do discurso, Cyrus é assassinado por Luther, o líder do "Rogues", que percebendo, em meio a confusão, que um dos membros dos Guerreiros viu quem atirou, os incrimina, fazendo com que a turma de Coney Island passe a ser alvo da perseguição de todas as outras gangues em uma fuga do Bronx até o seu território, a mais de trinta e cinco quilometros de distância. Restará agora aos Guerreiros, provarem que realmente são uma "Turma da pesada".


O filme é um clássico, não tem como não falar isso. Sua trama, mesmo datada, ainda hoje consegue prender o expectador, mesmo que seja para arrancar dele umas boas gargalhadas. Baseado no livro homônimo de Sol Yurick (que no Brasil se encontra a venda pela Darkside Books), com uma forte inspiração no musical clássico "West side story", o filme foi roteirizado e dirigido por Walter Hill, que além dessa pérola das madrugadas, dirigiu "Ruas de Fogo", que é outro clássico do corujão, "inferno vermelho", com Schwarzenegger e Jim Belushi e o "Lutador de Rua", com o mito Charles Bronson, além de produzir "Alien - o oitavo passageiro", e trouxe no elenco uma galerinha jovem que, fora dois ou três não tiveram uma vida muito produtiva e extensa no meio do cinema. Mas quem se importa com a vida profissional dos atores, quando temos diante de nós uma obra de tal magnitude, cheio de personagens marcantes e , acima de tudo, abençoada pela maravilhosa dublagem brasileira do início dos anos oitenta?



Os personagens são fantásticos e tem muito para falar ao mundo de hoje sobre personalidade. Para começar, os protagonistas se deslocam pela noite Novaiorquina, ostentando apenas um colete de couro vermelho, suas calças jeans e tênis, dentre eles, temos Cleon, que usa uma bandana tigrada na cabeça e Snow, que possui um black power aerodinâmico, mas nenhum dos outros oito protagonistas, chega aos pés de Cochise, o guerreiro, que além de ser dublado pelo mesmo dublador do Eddy Murphy, é um cidadão afro-americano, que além do blackpower da moda daqueles dias, utiliza adornos indígenas, um tapa na cara de quem hoje em dia vem falar de moda étnicas ou apropriação cultural. Cochise é o meu personagem preferido, sendo seguido de perto por Luther, o líder assassino dos Rogues, que do alto de seus um metro e sessenta, com sua cara quadrada e voz de taquara rachada, é o emissor da frase que me atormenta e a qual já cite acima, mas que além de tudo, ainda traz em si o mais clássico talento para agente do Caos, sendo o responsável por toda confusão e azar, que os guerreiros e os Riffs acabam vivenciando.

Guerreiiiroossssss
Falando da Voz de taquara de Luther, é impossível assistir ao filme dublado e não ficar completamente hipnotizado pela dublagem brasileira. Com vozes consagradas como a do ator Nizo Neto (filho de Chico Anísio (que dublou Ferris Bueller e o Presto de "a caverna do Dragão)) no papel de Vermim; Mário Jorge de Andrade ( Eddy Murphy) como Cochise e o dublador clássico do Stallone (que esqueci o nome) dando o sotaque malandro brasileiro ao Luther. Nesse show de dublagem, temos o prazer de ver traduzidas para nossa língua as gírias americanas do final dos anos setenta e o resultado é maravilhosamente bizarro, não faltam "Aê meu cumpadi", "acho que cês tão tudo virando a mão" e até a frase de ouro do filme, que é proferida quando o líder dos fugitivos, forjado no calor da fuga, fica a sós com a "mocinha" e no meio de uma conversa filosófica sobre a vida e perspectivas, fala para a jovem: " Vem cá, tu é chegada em uma horizontal, heim! Já pensou em amarrar um colchão nas costas pra facilitar?!". Pura elegância!

Vocês sacarammm??
Fora suas falas, muitas vezes sem sentido ou seus tropeços de roteiro (como: de onde o Snow tirou aquele coquetel molotov?) , a produção traz cenas bem legais de luta. Como quando Cyrus é assassinado e o Líder Guerreiro Cleon, vai conferir o que houve e tem que se defender da multidão na mão, ou quando Cisne ( que passa ser o líder) bola uma armadilha em um banheiro contra a gangue dos patinadores e a porrada come solta, com direito a taco de basebol quebrado em barriga e porta quebrada com a cabeça.


Além disso, não me ocorre nenhum outro filme de fuga nesse mesmo estilo antes de "the Warriors", me passando a sensação de que Apocalypto", filme de Mel Gibson de 2006, que é basicamente uma fuga de um território inimigo até o seu, tem muito de inspiração na obra de Walter Hill de 1979, assim como o último "Mad Max"e isso não é pouco.
Para Complementar sobre a influência e carinho que o filme cativa, os irmãos Russo, que dirigiram Capitão América 2 e 3, anunciaram a produção de uma série baseada no livro/filme "The Warriors" e que deve chegar para nós nos próximos anos, mostrando que muita gente ainda guarda esse filme no coração e sonha em usar aquele colete de couro vermelho.

Pois bem, "Guerreiros - Os selvagens da noite" é um desses clássicos cults, que por muito tempo habitaram as madrugadas dos canais abertos e que todo mundo conhece ou já ouviu falar. É a representação máxima, embora muito caricata, de um período histórico americano onde a falta de perspectiva é o que norteava a vida de muitos jovens e que até hoje encanta pela melancolia ou pelo tosco carismático, suas falas são datadas, o roteiro quase não existe, a estética é brega, mas mesmo assim o filme é extremamente divertido, o típico filme que é tão ruim, que dá a volta e fica ótimo, que tanto merece, como deve ser assistido, entendeu bem aê ô meu chegado?!

Da esquerda para direita: Snow, Ajax, Vermim, Cowboy, Cochise, Rembrant, Foxy, Cisne ( The Warriors)



terça-feira, 2 de maio de 2017

DEUSES AMERICANOS - Que a guerra comece !!



Um homem abre um manuscrito e segue uma história, ele fala sobre a vinda de Vikings à América, antes das cogitadas vindas dos mesmos Vikings para o novo mundo. Descreve suas péssimas condições e as dificuldades de vencer um mar que não quer ser vencido e de desembarcar em uma terra que não os aceita, esclarecendo que a hostilidade presente naquele lugar era fruto da força dos Deuses. Para atrair ventos favoráveis e voltar para casa, os homens resolvem chamar a atenção de seu deus através de sacrifícios, que vão desde mutilações a completa carnificina entre eles mesmos e assim, logo após pintarem com sangue e violência as praias daquele lugar desconhecido, são abençoados com a permissão de partir.

Wednesday
Assim começa o primeiro episódio da tão aguardada série "Deuses americanos", que estreou no Brasil, nesse último primeiro de Maio. A Série, baseada no cultuado livro Homônimo do escritor Neil Gaiman e que conta a História de Shadow Moon, um ex-presidiário contratado como segurança pelo misterioso Wednesday, para o acompanhar por uma viagem pelos Estados Unidos que testará os limites de suas crenças e sanidade, chegou metendo o pé na porta e saciando a expectativa de quem é fã do Autor e reivindicando seu lugar entre o panteão das grandes produções do ano.

Essa reivindicação se torna válida desde o momento do prólogo, onde vemos o tom violento que deve se seguir na trama, com cabeças sendo esmagadas e braços arrancados, até ao banho de sangue do último minuto do episódio, passando por cenas picantes e assustadoras, sem falar da apresentação de alguns desses deuses, que dão um ar de mistério a história, principalmente a quem não leu o livro e assim como Shadow, fica sem saber direito onde acabou se metendo.


Eu, que de forma sacrílega, nunca li o livro, também fiquei entorpecido com esse ar de mistério, como se existisse muita coisa além do que é visto e que as respostas devam ser descobertas lentamente. Uma sensação com a qual posso comparar ao assistir o primeiro episódio de "Deuses americanos", foi a que tive ao descobrir o universo de "Game of Thrones" na TV e que também nunca tinha lido nada e que só pretendo ler após o termino da série, pois o que a o universo no áudio-visual oferece é tão consistente e denso, que não parece precisar de complementos ou aditivos para se sustentar, embora eu imagine que os livros referentes dessas duas franquias, devam ser ainda melhores que as obras televisivas que delas se originaram.

Shadow
Falo em "Game of Thrones", pois parece que o maior sucesso do canal HBO ganhou mais um rival e talvez um substituto no coração dos fãs, mas para isso, a Starz , canal que veícula a série, tem que conseguir manter o fôlego no mesmo nível de seu episódio piloto e não cair na mesma levada de produções como "Black Sails", que com perdão do trocadilho, foi afundando com o tempo.


Pois bem, agora é só esperar para ver o que "Deuses americanos" irá nos trazer nesses próximos dois meses e meio e nos regozijar com o sangue e sacrifício feitos em honra desesperada aos velhos e novos Deuses. Se ainda não viu o piloto, o mesmo já está disponível no Amazon prime vídeo, esperando apenas que você sele o acordo com três copos de vinho de mel e um aperto de mão escarrado. Então não perca tempo, louve a seu deus assistindo a "Deuses Americanos" e aguarde as bençãos e maldições que a produção baseada na obra de Gaiman irão te proporcionar.



terça-feira, 11 de abril de 2017

HUMANS (2015/2016) A série


Se o ano de 2016 trouxe algo de bom no meio de tanta tragédia, foi um novo foco às produções de ficção científica. Com a apresentação da terceira temporada de "Black Mirror" e a estréia de "West World" encabeçando o seguimento, o Sci-fi conquistou mais e mais fãs dia após dia nesse último ano; Porém, o término das temporadas dessas duas séries, deixou um vazio na vida de quem vinha se acostumando aos conceitos e surpresas apresentados por elas. No entanto, longe dos grupos de debates sobre as teorias que envolvem essas séries tão cultuadas, existem outras obras, de qualidade semelhante, mas bem menos vistas, que podem agradar e surpreender muita gente, além de ocupar aquele espaço vago que as histórias contadas por Charlie Brooker e Jonathan Nolan deixaram no inicio desse ano.

Uma dessas obras, que me prendeu no sofá, sem piscar durante os dezesseis episódios das suas duas temporadas, me fazendo sair por aí a indicando aos quatro ventos logo depois, foi uma série inglesa que, tal qual as duas séries citadas acima, também fala sobre tecnologia e tomada de consciência pelas máquinas, mas conseguindo ir muito além, ao abordar as consequências na sociedade ao ocorrer o surgimento dessas consciências e, de quebra, fazer um paralelo com diversas situações enfrentadas no mundo atual. Trata-se de "Humans", série inglesa criada por Sam Vincent e Jonathan Brackley, exibida pela Channel 4 e AMC, baseada na série Sueca "Real Humans", que parece que ninguém assiste, mas que merece e DEVE ser vista por todo mundo já.



"Humans" se passa em uma realidade paralela, onde a utilização de androides (sintéticos) para serviços domésticos e de ajuda pessoal, se tornou usual. Nesse universo encontramos Joe, um pai de três filhos que se vê perdido entre as tarefas de casa e do emprego, quando sua esposa Laura se ausenta a trabalho. Pressionado pelas tarefas, Joe decide comprar um sintético para ajuda-lo a organizar sua vida enquanto a esposa não retorna, o que ele não sabe é que a sintética batizada de Anitta por sua filha mais nova, se chama na verdade Mia e pertence a um pequeno grupo de androides que poderão revolucionar o mundo, por serem as primeiras máquinas conscientes e que, tanto Joe, quanto sua família, irão testemunhar da primeira fila todas as transformações que a revelação da existência de maquinas pensantes causará na sociedade.

OK!! Minha sinopse não ajuda a cativar ninguém a ver a série, mas se eu posso me desculpar pela falta de inspiração ao descrever o contexto da série, é dizendo que nem se eu escrevesse um post inteiro falando apenas do que se trata "Humans" eu conseguiria falar sobre tudo que a série questiona e aborda, então o mais interessante, acredito, será eu falar sobre todos os pormenores que chamaram a atenção dentro da história.



Para começar, a trama traz uma questão que vem se tornando cada vez mais presente nas produções cinematográficas, que é a singularidade, aquele momento em que as máquinas tomarão consciência de que são indivíduos ou entidades, com pontos de vista, ideias e personalidade, fato que é destaque não só em "Westworld", mas no ótimo "Ex-machina", entre diversas outras produções, mas na história de "Humans" , não é o ponto alto da trama, mas sim o ponto de partida para toda a discussão que surge na série. Assim, em um mundo onde os androides estão presentes em todo lugar, mas são tratados como coisas, o surgimento de alguns que pensem, questionem e ajam como humanos, traz a dúvida de se o fato os torna humanos? Se eles devem ter direitos e deveres como tais? Quem fala por eles e quais os limites que esses sintéticos devem ter? Essas são algumas de muitas as perguntas que a trama já nos traz de início e que norteiam a história em meio a uma enxurrada de acontecimentos e diversos personagens interessantes.

Quanto aos personagens, a produção consegue entregar indivíduos que são a representação de todo tipo de personalidade e a faceta de um argumento em si, e não só isso, como apresentar um elenco diverso e bem explorado, que consegue mostrar desde os traços étnicos dos androides a revolução que eles representam. Essa diversidade étnica que aparece nos sintéticos conscientes do inicio da série (onde temos uma asiática, dois negros e uma loira), parece, além de sinalizar a ideia de diversidade humana, traçar um paralelo mesmo com a questão dos imigrantes ao colocar como personagens centrais da discussão, atores com traços não tão comuns dentro das produções clássicas inglesas, essa fato ainda é reforçado, quando somos apresentados aos problemas sociais decorrentes da utilização desses androides, como a substituição de pessoas por máquinas em postos de trabalho, não só pela sua melhor eficiência, mas como pelo seu menor custo, o que cria grupos de resistência que se intitulam "humanos de verdade" e buscam a reversão do status social daquele universo, não muito diferente dos grupos que apontam para a entrada de pessoas não nascidas em determinados centros, como o fator responsável por todos problemas sociais existentes em uma localidade.

Esse problema social criado pela existência dos sintéticos nesse universo, vai além da tomada dos empregos. A própria evolução dessas máquinas, causa temor aos jovens, que se frustram ao perceberem que pode não haver expectativa de um futuro bem sucedido dentro de qualquer área de interesse, ao perceberem que em alguns anos, os androides estarão tão aperfeiçoados, que poderão efetuar qualquer função e com um desempenho maior do que qualquer humano; somando-se a esse problema do primeiro arco, a segunda temporada ainda nos apresenta um grupo de adolescentes que, em resposta a frustração dos outros, se veste e age como os sintéticos, pois perceberam a vantagem que as máquinas tem ao não se frustrarem, sentirem medo, não precisarem tomar decisões sozinhas ou se questionarem; de encontro a isso, temos as máquinas conscientes buscando desfrutarem seus direitos de "pessoas", assim como seus deveres e até mesmo pensando em suicídio frente ao amargo de uma vida social com decisões e dúvidas; tais questões surgem em seguidos debates que tornam "Humans" ainda mais complexa e reflexiva do que a grande maioria das séries atuais.

Complementando esses problemas sociais mais amplos, "Humans" aborda questões ainda mais pessoais, como o caso da utilização dos sintéticos para satisfação sexual, o que nos é apresentado como algo aceitável, ao nos mostrar os androides como máquinas, mas que nos faz questionar se aquilo tudo é correto quando nos faz ver toda situação de humilhação através dos olhos de duas personagens sintéticas obrigadas a desempenhar esse papel, mesmo tendo consciência e ego idênticos aos dos humanos. Em resposta a isso, temos humanos que são trocados por androides, pelo fato desses últimos serem programados para satisfazerem todos seus desejos e dar a eles toda atenção possível sem distrações.

Além de tudo, a série ainda traz muitas referências a filosofia e aos clássicos de ficção científica, além de menção aos grandes autores do gênero Sci-fi, como quando é falado que o suposto assassinato executado por um sintético, fere as leis Asimov, sem contar que toda linha que a produção segue, remete ao questionamento que foi, em parte, base para a criação de todo universo de Philip K. Dick, de que se algo pensa e age como um humano, é humano? O que nos torna humanos? Em uma adaptação mais simples do "penso, logo existo" de Descartes, que, a propósito, aparece em um poster ao fundo na série, e não apenas uma vez.

Mas nem tudo é exatamente perfeito na série e algumas coisas me desagradaram. A principal, foi a substituição do antagonista da primeira temporada, que surge na segunda apenas para vender seus segredos ao novo "vilão", e desaparece, como se todas as situações que o levaram até ali, e as quais eram de seu interesse pessoal, simplesmente tivessem deixado de ser importantes para ele e isso eu achei uma grande falha de constância no roteiro. A segunda coisa é o desaparecimento de alguns personagens e o sub-aproveitamento de outros, como no caso do androide Fred ( um dos sintéticos conscientes originais), que mal aparece na primeira temporada e some na segunda e o sintético ultrapassado Odi, que tem todo um potencial e razão para estar dentro de um arco na primeira temporada, nos faz questionar muitas coisas na segunda e deixa a série (aparentemente) sem nos apresentar as respostas e ações que poderia dar. Essas duas questões me incomodaram, mas como nada na vida é perfeito, seguimos aproveitando o que há de bom e deixando de lado o que fica mal explicado.

Apesar de um detalhe ou outro, "Humans" ficou marcado para mim, como o grande achado do início desse ano (mesmo a série ter estreado em 2015). Sua trama complexa e os paralelos que podemos traçar através de sua história, são um elemento poderoso e que nos leva a reflexão, não só ao pensar em uma sociedade como a mostrada na trama de Sam Vincent e Jonathan Brackley, como nas situações presentes em nosso cotidiano. Serve para, além de saciar a saudade de séries mais prestigiadas, enriquecer quem é fã de ficção científica de conceitos e questionamentos, nem sempre bem abordados nessas outras séries. Espero que todos assistam e se divirtam bastante, enquanto a mim, fico na torcida que a terceira temporada chegue logo, fica a dica.





segunda-feira, 3 de abril de 2017

UMA HISTÓRIA DE AMOR REAL E SUPERTRISTE - de Gary Shteyngart


Estamos vivendo tempos estranhos. Dias de verdades alternativas e ignorância histórica, onde a promessa da construção de muros que dividirão os escolhidos dos condenados é aplaudida de pé por grande parte da população, onde quem se impõem através de uma propaganda violenta é chamado de "mito" e o diferente se tornou errado e inimigo, e, isso tudo acontece enquanto as pessoas estão absortas em seus celulares e compartilhando suas vidas através de redes sociais, ignorando o rumo do mundo e os perigos do que podem estar por vir. Estamos a um passo de uma distopia e em dias como estes, obras que conversem com o momento da sociedade e nos apresentem uma ideia de onde o próximo passo pode nos levar são de extrema importância.

Foi buscando uma obra que espelhasse o que vivemos, que me deparei com um livro muito pouco comentado, mas que me ganhou desde suas primeiras linhas, me apresentando um universo distópico tão real e assustador quanto fantástico. Estou falando de "Uma história de amor real e supertriste" de Gary Shteyngart, publicada no Brasil pela editora Rocco, que além de reafirmar minha paixão por distopias, me passou a ideia de que o futuro de uma sociedade consumista e vaidosa, pode ser ainda mais amargo e vazio do que imaginamos.


Capa da Edição da Rocco
"Uma história de amor real e supertriste" se passa em um futuro próximo, onde os EUA estão vivendo os piores de seus dias, vítimas de uma crise econômica e política que foi intensificada com um fracasso militar na Venezuela, o que colocou o país em um cenário de caos, postes de crédito ornamentam as ruas, registrando os dados dos "Apparats" (equipamentos que todos possuem e que servem para mandar mensagens, como identificação e acesso a dados pessoais) e em que pessoas de baixo patrimônio ficam a mercê do estado e veteranos de guerra não recebem suas pensões, sendo obrigados a ocupar o Central park na procura de abrigo, manifestações eclodem em toda parte e são contidas com violência pelo exército de segurança nacional, o braço armado do partido "bi-partidário", a última lembrança dos tempos de democracia, a economia é baseada na moeda chinesa, que comanda o FMI e as grande empresas são todas fatias de enormes conglomerados financeiros.
Nesse mundo, que parece mais crível do que distante, encontramos Lenny Abramov, um novaiorquino de 39 anos, filho único de imigrantes russos, possível último fã de literatura e escritor de um diário, que trabalha para uma multinacional na divisão de serviços Pós-humanos, oferecendo imortalidade a pessoas de alto nível social e financeiro. A procura de clientes ele á mandado para Itália, onde acaba conhecendo Eunice Park, uma vaidosa e orgulhosa jovem, descendente de Coreanos por quem se apaixona perdidamente. No entanto, com o fracasso em convencer os ricos europeus em participar dos projetos de seu empregador, Lenny se vê obrigado a retornar a Nova York e a realidade de seu país, mas sem esquecer Eunice, a convida para vir morar com ele, resta agora ao pertenço casal, tentar se entender e adaptar-se, não só ao mundo em sua volta que desmorona frente a violência e ignorância, mas um ao outro, tão diferentes pela origem, idade e pontos de vista.



Como disse acima, o livro me ganhou em suas primeiras páginas, sei que é suspeito vindo de uma pessoa que se confessa fã de ficção científica e distopias sempre que tem oportunidade, mas o fato é que "Uma história de amor real e supertriste" mexeu comigo por apresentar um cenário assustador, personagens profundos e com motivações bem claras e conseguir dar atenção tanto ao mundo catastrófico que serve de palco para a história, quanto nos passar a evolução desses mesmos personagens no decorrer da leitura, seguindo a cartilha da boa ficção científica que está além da apresentação de tecnologias ou especulação de um futuro, mas na apresentação do impacto que todas as mudanças que podem ocorrer no mundo, podem causar na vida das pessoas e isso, esse livro faz com qualidade.

Um fator que achei importante no livro, e que conecta ainda mais o leitor a história, é o fato desta ser escrita em primeira pessoa, apresentando os pontos de vista do casal em capítulos que se alternam entre o diário de Lenny, que escreve para desabafar e se planejar, e, as mensagens de Eunice no "Globalteens" a rede social da época, que teima em dar dicas sobre como agradar os garotos e frisar que fotos e vídeos são mais interessantes do que textos. Esse clima íntimo nos coloca como cúmplices de seus pecados e frustrações, revelando também o choque de gerações que existe entre ambos, ele mais velho quase quinze anos, barrigudo e ficando careca, totalmente fora dos padrões de beleza e estilo vigentes em uma sociedade toda voltada para os jovens e seus hábitos fitness, e ela, o retrato de sua geração, extremamente magra, irônica e consumista, não desgrudando de seu "Apparat", por onde faz compras, conversa com amigos e família, faz "Streams" e ranquei as pessoas que a cercam por seus níveis de beleza, sensualidade e "fodabilidade", mas ambos demonstrando, através de seus depoimentos, o peso de se viver em uma sociedade vazia de valores e voltada para a aparência.

Essa mesma sociedade, que serve como pano de fundo da história de amor de Lenny e Eunice, é a parte mais fantástica do livro. O vazio e amargo futuro imaginado por Shteyngart, consegue ser original, extremamente real e ao mesmo tempo homenagear os clássicos sem os imitar, nos entregando uma sociedade que é um amalgama das duas distopias mais famosas de todos os tempos, "1984" e "Admirável mundo novo", com o tempero ácido dos dias de hoje, onde temos tanques nas ruas, violência do estado, pessoas vistas como descartáveis, ao mesmo tempo em que a sociedade é alienadas em seu mundo de prazer virtual, ignorando a cultura mais crítica e em especial a literatura (chegando a dizer que livros fedem e que é preferível que não se tenha contato) e o sexo é algo tão banalizado que a protagonista chega a fazer menção a uma amiga sobre uma atriz pornô que elas assistiam quando estavam no jardim de infância!! Uma mistura pontual entre repressão violenta e descaso total presentes separadamente nos dois clássicos, fatos que são somados à dependência pelas mídias sociais e tecnologias, tão presente em nosso cotidiano e que no livro é personifica no onipresente Apparat, o elemento que desempenha um papel de destaque por pautar o estilo de vida das pessoas e as ranqueando dentro da sociedade.

Gary Shteyngart
Esse "Aparat", que representa a evolução da forma atual de nossa própria sociedade interagir, parece demonstrar a qualidade e impacto da história contada pelo autor dentro da própria cultura pop, ao lembrar bastante o modo de utilização do aparelho visto no primeiro episódio da terceira temporada da aclamada série "BlackMirror", onde temos uma sociedade tão vaidosa e vazia como a presente no livro de Gary Shteyngar, que embora não sofra dos mesmos problemas sociais (pelo menos, não dentro do arco que o episódio mostra) também é toda baseada na ideia que o próximo tem de cada um e no ranking de seus cidadãos para o crescimento social.

Somado ao onipresente Apparat, Shteyngart ainda imagina uma divisão empresarial que entrega aos poucos cidadãos de alto nível financeiro a possibilidade de viver para sempre, através da utilização de nano robôs, dentre outras coisas, que manipulam a saúde dos clientes da "Wapachung", empresa de Joshie Goldmann, patrão de Lenny e que por principio age de encontro a toda situação em que se encontra a grande maioria da população, que luta para sobreviver, em um mundo onde a escassez é a lei e quem não possui dinheiro tem de se esconder dos postes de crédito para não correr o risco de ser deportado ou mesmo morto, frisando assim o egocentrismo e falta de empatia presente naquele mundo.


Os motivos para se ler "Uma história de amor real e supertriste " são muitos; sua narrativa cúmplice, seu universo deprimente e extremamente real e seus personagens bem explorados, tudo parece colaborar para que a obra de Gary Shteyngar seja muito mais do só mais um livro na estante, mas como eu disse no inicio, o que me fez encontrar esse livro é o fato de que ele reflete com intensidade o momento atual de nosso mundo e isso o torna extremamente relevante para todos, que assim como eu, enxergam nuvens negras se aproximando no horizonte.




quinta-feira, 9 de março de 2017

LOGAN (2017)



Empolgado pela ação, angustiado pela trama, chocado pelas revelações, emocionado pelos momentos finais e triste pela despedida. Esse mix de sentimentos, foi o que senti ao sair da sala de cinema depois de assistir ao filme mais aguardo por mim (e por qualquer outro fã dos X-men) no ano de 2017, "LOGAN", o terceiro filme do mutante canadense mais querido da Marvel e que abriu a temporada de filmes de super-heróis com chave de ouro e garras de adamantium.

"Logan" se passa em 2029 e mostra um futuro onde James "Logan" Howlett, outrora conhecido como Wolverine, trabalha como um discreto e amargurado motorista de limusine no sul dos estados unidos, seus poderes estão falhando devido a idade e ele se revesa com o mutante Caliban para tomar conta do nonagenário professor Charles Xavier que sofre de alzheimer.
Os X-men já não existem mais e não há indícios do nascimento de mutantes a pelo menos vinte e cinco anos, sendo a raça dada como extinta. Mas no meio de um trabalho, Logan é reconhecido e acaba descobrindo uma menina com poderes semelhantes aos seus e aceitando o apelo da acompanhante da menina (ou ao dinheiro que esta lhe oferece) aceita atravessar o país para leva-las, no que a acompanhante da menina acredita ser, o último lugar seguro para os poucos mutantes que restaram, o Éden.
Mas como nada é fácil para um sujeito nascido no século XIX, que foi vítima de experiências do governo, teve suas memórias apagadas e viu sua raça desaparecer, a menina, chamada Laura, que também atende pelo registro x-23, está sendo perseguida por uma organização que a vê como posse e que mandou em seu encalço um grupo de mercenários conhecidos como carniceiros.
Restará a Logan atravessar os Estados Unidos com o professor X e a menina na esperança de que o Éden seja real e que eles possam fugir de todos os erros e tragédias ocorridos no passado, em uma viagem que poderá ser a derradeira para esses últimos mutantes conhecidos.

Humano
Meus amigos, que filmaço!! Denso, dramático, humano (ou mutante) , tem toda a profundidade que todos os filmes anteriores do Wolverine (somados) não conseguiam ter, e isso me faz feliz, pois tivemos uma despedida digna do interprete do personagem, o ator Hugh Jackman, em um filme que fez justiça tanto a ele, quanto ao mutante mais famoso das HQ's, tão mal tratado em "X-men Origens" e "Wolverine imortal", mas ao mesmo tempo a competência desse filme me incomoda, não por ele em si, mas pelo fato disso não ter sido feito antes é só acontecer devido ao retorno positivo obtido com o filme do "Deadpool" um ano antes.

A FOX teve que aprender com "Deadpool", que não é necessário efeitos mirabolantes ou roteiros que explicam cada fala, para ganhar dinheiro e agradar os fãs, pois foi necessário o sucesso do filme do mercenário tagarela para o estúdio dar liberdade aos roteiristas e diretores de criar livremente e só assim se colocar no mesmo nível que a Marvel studios (porque sim, esse filme está no mesmo nível de Capitão América 2), isso fica claro, quando percebemos que o diretor de "Logan", James Mangold, é o mesmo de "Wolverine Imortal", nos mostrando quanta porcaria os produtores nos fazem engolir. Claro que não podemos generalizar, pois os filmes dirigidos por Bryan Singer ainda são mais do mesmo, piorando a cada vez que ele dá seu toque autoral, mas agora que sabemos que temos Tim Miller e James Mangold por aí, acho que já está na hora do diretor de "X-men" de 2001, partir para outra.

Mas voltando ao Filme, confesso que a primeira coisa que fiquei preocupado foi quando soube que a trama seria baseada em "Old Logan", a graphic novel escrita por Mark Millar, pois a história lançada em 2008 utilizava todos personagens da Marvel, para contar sobre um futuro distópico onde os vilões venceram e um Wolverine derrotado e apático busca sustentar sua família e fugir de em segredo terrível, o que não seria possível acontecer no cinema, pois os personagens da Marvel são propriedades da Marvel Studios e os X-men, da FOX, mas com muita criatividade e talento, o roteiro entregou uma solução tão aterradora e triste, quanto o segredo que o personagem guarda na HQ de 2008 e que conforme vai se revelando justifica uma série de coisas, culminando em uma cena, protagonizada pelo debilitado professor Xavier, que é uma das partes mais tocantes do filme.

Tocante
Um dos grandes destaques da produção e que demonstra a qualidade do roteiro é o fato dele referenciar fatos ocorridos em outros filmes onde o personagem participou, para esclarecer que a história faz parte do mesmo universo. Assim, temos conversas entre Logan e o professor X, que remetem a luta entre X-men e a irmandade mutante em "X-men" O filme, menção à vacina anti-mutante de "X-men: O confronto final", a bala de adamantiun usada pelo Coronel Stricker em "X-men Origens: Wolverine" e mais algumas pequenas citações que vão costurando a trama e a prendendo naquele mundo onde Logan viveu sua vida, agregando tanto a trama dessa produção, quanto acrescentando mais credibilidade aos filmes anteriores, por pior que alguns tenham sido.

Ainda falando de referências, a história parece trazer muita inspiração de outros filmes com uma temática "road movie". De forma mais clara me vem a mente "Mad Max: Fury Road", devido as intensas perseguições de carro e dos antagonistas com protesesn bizarras e artilharia pesada, sem falar do cenário desértico e isolado onde o protagonista vive escondido com seus poucos amigos; mas a questão de a trama tratar da missão de alguém, que parece ter desistido, de proteger quem ele acredita ser um dos últimos de sua espécie até um lugar seguro e que talvez nem exista, me fez pensar muito no filme "Filhos da esperança" de 2006, ainda mais quando temos a cena final do protagonista.

Outra coisa que, não só eu, mas todos os fãs do Carcaju sempre sentiram falta, foi a violência e selvageria naturais do personagem e que o cinema nos privou desde o primeiro filme dos "X-men" e esse desejo foi saciado com força. O filme é um banho de sangue onde não faltam braços decepados, decapitações, gargantas cortadas, mas tudo isso exatamente dentro do contexto do personagem onde nada é de graça ou apenas para agradar, com o aditivo do carisma e fúria da personagem X-23, a silenciosa e expressiva mutante, interpretada por Dafne Keen.

Violento
X-23, além de trazer mais sentimento e humanidade a história, pois ignorando seus poderes, não passa de uma criança em perigo, é a protagonista de diversas cenas fenomenais e divertidas que dão destaque a coadjuvante, um fato que era um dos problemas principais que eu tinha com os outros filmes do Wolverine, onde TODOS outros personagens tinham que ser diminuídos para que apenas o protagonista chamasse a atenção, assim fazendo aquele absurdo de selar a boca do Deadpool em "X-men Origens" e transformando o Samurai de prata em um robô em "Wolverine Imortal", além de cometerem o absurdo de matar o Ciclope em "X-men o confronto final" apenas para dar à Logan o título de líder dos X-men; erros que esse filme, muito mais maduro, mostrou serem desnecessários .


Pois bem, como já falei acima e repito: "Logan" é um filmaço. Um daqueles filmes que mesmo sendo uma adaptação bem diferente da ideia original da HQ, deixa os fãs extremamente felizes. Uma rara produção que eu não faço a mínima questão de dar spoilers porque quero que todos tenham o mesmo mix de sentimentos que eu tive ao sair do cinema. Um filme que fez justiça ao personagem e ao ator que dedicou mais de quinze anos de sua vida dando interpretando o herói no cinema e que superou minhas expectativas de quando assisti ao primeiro trailer e me emocionei. Nos resta agora esperar que a FOX siga esse caminho iniciado com "Deadpool" e tão bem direcionado com "LOGAN" e siga nos entregando filmes cada vez mais densos e humanos desse universo mutante que sempre foi tão rico e meu preferido.
Que venham, "DeadPool 2" e "Os novos Mutantes".